Jornalismo ao pormenor

Depois de meses a ouvir insultos, PODEMOS escolhe o Dia Contra o Ódio para responder aos críticos

Sem mencionar nomes nem episódios concretos, Albino Forquilha aproveitou o Dia Internacional de Combate Contra o Discurso de Ódio para defender respeito, tolerância e diálogo. A mensagem surge num momento em que dirigentes e simpatizantes do PODEMOS continuam a ser alvo frequente de ataques nas redes sociais e no debate político nacional.

Durante meses, as redes sociais transformaram-se num campo de batalha política. Entre acusações, insultos, memes, campanhas de descredibilização e ataques pessoais, poucos partidos escaparam à violência verbal que passou a marcar o debate público moçambicano. O PODEMOS foi um deles.

Por isso, quando o partido decidiu assinalar o Dia Internacional de Combate Contra o Discurso de Ódio com uma mensagem sobre respeito, tolerância e dignidade humana, dificilmente a publicação poderia ser vista apenas como mais uma efeméride do calendário internacional.

Sem citar adversários, apontar culpados e recordar episódios específicos, o presidente do partido, Albino Forquilha, escolheu palavras que muitos interpretam como uma resposta indireta ao ambiente hostil que tem envolvido o seu partido desde as últimas disputas políticas.

“O discurso de ódio não é apenas uma ameaça às pessoas visadas; é uma ameaça à paz, à democracia e à unidade nacional”, escreveu o líder do PODEMOS.

A frase que  pode parecer genérica, no actual contexto político moçambicano ganha outro peso.

Nos últimos tempos, e particularmente após os processos eleitorais que dividiram opiniões no país, o espaço público tornou-se cada vez mais marcado pela radicalização do discurso político. O debate de ideias foi frequentemente substituído pelo ataque pessoal. As divergências transformaram-se em hostilidade. E as redes sociais passaram a funcionar como tribunais populares onde a condenação muitas vezes antecede qualquer prova.

Nesse ambiente, dirigentes do PODEMOS têm sido alvo regular de comentários agressivos, acusações e mensagens depreciativas. Os próprios apoiantes do partido denunciam frequentemente aquilo que consideram ser campanhas organizadas para desacreditar as suas lideranças.

É neste cenário que a mensagem divulgada esta quinta-feira parece carregar uma dimensão que vai além da mera celebração de uma data internacional.

Ao afirmar que as palavras podem “ferir, dividir e incitar à violência”, mas também “curar, unir e construir pontes de entendimento”, Forquilha parece recordar aos seus críticos que a violência política não começa necessariamente nas ruas. Muitas vezes começa nas palavras.

Há uma ironia inevitável na situação. Um partido que durante meses tem estado no centro de acesos confrontos políticos surge agora a defender moderação, diálogo e respeito mútuo. Para alguns, trata-se de um apelo sincero à pacificação do debate público. Para outros, de uma forma elegante de devolver aos adversários as acusações e ataques que diz ter recebido.

Seja qual for a interpretação, a mensagem toca numa questão que ultrapassa largamente as fronteiras partidárias.

O discurso de ódio tornou-se um dos grandes desafios das democracias contemporâneas. Em Moçambique, onde as feridas políticas dos últimos anos continuam visíveis, a linguagem utilizada por dirigentes, militantes, influenciadores e cidadãos comuns tem um impacto directo na forma como a sociedade convive com as diferenças.

Quando a política deixa de ser uma disputa de ideias para se transformar numa disputa de inimigos, o risco não é apenas para os partidos. É para a própria democracia. Talvez por isso a frase mais relevante da mensagem do PODEMOS não seja a condenação do ódio, mas sim a conclusão escolhida por Albino Forquilha:

“Uma nação forte não se constrói com ódio, mas com diálogo, justiça e respeito mútuo.”

Num país onde o debate político continua frequentemente dominado pelo ruído, pela suspeita e pela confrontação, a frase soa simultaneamente como apelo, crítica e resposta.

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