Jornalismo ao pormenor

Escritor moçambicano Sérgio Raimundo seleccionado para bolsa de criação literária em Macau

Literatura moçambicana além-fronteiras

Com este projecto, Sérgio Raimundo propõe-se recuperar uma página pouco conhecida da história que ligou a China e Moçambique através de Macau, transformando esse passado num romance sobre memória, deslocação e identidade.

A literatura moçambicana volta a ganhar projecção internacional com a selecção do escritor Sérgio Raimundo para uma bolsa de criação literária em Macau, no âmbito da 3ͣ Edição do Programa de Apoio a Residências Literárias do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), referente ao ano de 2026.

A notícia foi partilhada pelo próprio autor na manhã desta quarta-feira, 22 de Julho, através de uma mensagem dirigida aos seus amigos e leitores, na qual manifestou surpresa e satisfação pelo reconhecimento alcançado num concurso que classificou como “altamente competitivo”.

“Acabo de acordar, totalmente estremunhado, com a notícia de que fui seleccionado para uma bolsa de criação literária em Macau. Num concurso altamente competitivo, o meu projecto-livro foi escolhido no meio de muitas candidaturas de imensa qualidade”, escreveu.

Durante a residência literária, Sérgio Raimundo permanecerá durante alguns meses em Macau para desenvolver um romance centrado no chamado “Incidente de Coloane”, ocorrido em 1910. O episódio histórico envolveu uma operação militar portuguesa contra grupos de piratas acusados de raptar crianças na China.

Segundo o escritor, a acção resultou na deportação de cerca de 80 a 100 prisioneiros para Moçambique, concretamente para a Ilha do Ibo, no arquipélago das Quirimbas, onde cumpriram penas de trabalhos forçados. A obra em preparação acompanhará a trajectória de um descendente desses deportados, que empreende a viagem de regresso do Ibo a Macau, reconstruindo uma ligação histórica pouco conhecida entre os dois territórios.

Ao comentar a distinção, Raimundo evocou o poeta francês Guillaume Apollinaire, citando a frase: “Piedade para nós que trabalhamos na fronteira do ilimitado e do futuro”, numa mensagem que reflecte o entusiasmo com o novo desafio criativo.

De acordo com o documento oficial do IILP, o júri da 3ͣ Edição do programa reuniu-se a 13 de Julho de 2026 para avaliar as candidaturas submetidas, tendo seleccionado quatro projectos para beneficiarem da subvenção prevista no regulamento.

Além de Sérgio Raimundo, foram igualmente contemplados Ana Bárbara Martins, de Portugal, para uma residência em São Tomé e Príncipe; Chissana Mosso Magalhães, de Cabo Verde, para uma residência em Portugal; e Margarido Botelho, de Portugal, para uma residência na Guiné-Bissau.

A escolha de Sérgio Raimundo representa mais um reconhecimento internacional para a criação literária moçambicana e reforça a presença de autores do espaço lusófono em programas de intercâmbio cultural que promovem a circulação de escritores, ideias e narrativas entre diferentes países e territórios de língua portuguesa.

Com este projecto, o escritor propõe-se recuperar uma página pouco explorada da história comum entre Macau e Moçambique, transformando-a em matéria literária e ampliando o diálogo cultural entre duas geografias ligadas por percursos históricos que atravessam continentes e séculos.

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