Jornalismo ao pormenor

Damião Cumbane teme que reunião de quadros da Frelimo seja dominada por “propaganda e bajulação”

O analista Damião Cumbane considera que a 11.ª Reunião de Quadros da Frelimo, que decorre na cidade de Chimoio, poderá perder o seu carácter político e histórico caso seja dominada por “propaganda e bajulação” em lugar de uma discussão aberta sobre os problemas internos do partido e os desafios que enfrenta.

Numa reflexão sobre o encontro, Cumbane observa que a reunião deste ano apresenta características diferentes das anteriores que acompanhou ao longo da sua vida, apontando, entre outros aspectos, para a ausência, até ao momento, de figuras de maior destaque do partido na movimentação pública em torno do evento.

Segundo o analista, as primeiras imagens que chegam de Chimoio são sobretudo de “brincalhões, animadores e Facebookeiros”, numa referência a militantes que, na sua leitura, procuram mostrar a sua presença no encontro antes da chegada dos principais dirigentes e quadros.

Cumbane espera, por isso, que os chamados “verdadeiros quadros” da Frelimo consigam evitar que a reunião seja influenciada por aquilo que considera ser uma crescente presença de “oportunistas” no partido.

Na sua análise, o risco é que a magna reunião se transforme num espaço de promoção pessoal e de elogios aos dirigentes, afastando-se da discussão dos problemas que afectam a organização.

Críticas à cultura interna do partido

Uma das partes mais contundentes da reflexão está relacionada com aquilo que Cumbane considera serem fenómenos internos que se agravaram nos últimos anos, nomeadamente o nepotismo, a corrupção e a ascensão de figuras que classifica como “bajuladores” e “lambe-botas”.

O analista sustenta que parte dessas figuras procuraria destacar-se dentro do partido com o objectivo de conquistar oportunidades de acesso às instituições do Estado.

Na sua perspectiva, esta dinâmica acaba por ter consequências no funcionamento da Administração Pública, porque, uma vez colocadas nas instituições, algumas dessas pessoas não corresponderiam às funções que lhes são atribuídas.

Cumbane associa ainda esta situação ao peso da folha salarial do Estado, defendendo que o país enfrenta dificuldades para reduzir os custos com pessoal enquanto persistem problemas de produtividade e eficiência nos serviços públicos.

“TU-TU, VOCÊ-VOCÊ”

Ao comparar a actual realidade com as antigas reuniões de quadros, Cumbane recorda uma época em que, segundo afirma, os encontros internos da Frelimo eram marcados por maior frontalidade entre os participantes.

“Em outros tempos, as reuniões de quadros eram do tipo TU-TU, VOCÊ-VOCÊ”, escreve, defendendo que os participantes discutiam os assuntos de forma directa, sem os actuais tratamentos protocolares.

Para o analista, a palavra “Camarada” era suficiente para nivelar os participantes, não havendo espaço para a valorização excessiva dos títulos e tratamentos de “Excelência”.

Cumbane considera que aquelas reuniões funcionavam também como momentos de autocrítica e de correcção interna, comparando-as aos princípios que, na sua leitura, caracterizaram a Frelimo durante os anos 1960 e 1970, no período da Luta de Libertação Nacional.

O desafio de Chimoio

Na sua reflexão, Damião Cumbane reconhece que “os tempos são outros” e que as organizações mudam, mas questiona se a 11.ª Reunião de Quadros conseguirá manter a tradição de debate interno ou se acabará por reproduzir o modelo que, na sua opinião, caracteriza muitos encontros políticos actuais.

O analista alerta para o risco de discursos “triunfalistas e bajulatórios”, preparados para agradar às figuras com capacidade de decisão ou influência dentro do partido.

Para Cumbane, uma reunião conduzida nesses moldes poderá contribuir para aprofundar o afastamento entre a Frelimo e a população.

“A consequência subsequente será a de o Partido Frelimo continuar na sua caminhada de afastamento contínuo do Povo”, conclui.

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