Jornalismo ao pormenor

A Marcha, a Pedra e as Abelhas

Por caetano Melhor

Antes que alguém comece a distribuir etiquetas partidárias, esclareço, não sou membro do ANAMOLA, não sou da FRELIMO, não sou da RENAMO e não pertenço a nenhuma agremiação política. Sou cidadão, por sinal um machuabo nascido ali no Torreno Novo. É justamente por ser filho desta terra, recuso-me a assistir impávido ver Quelimane ser é transformada num palco de violência que não honra esta cidade que anima.

Começo perguntando que ameaça representava aquela marcha de um partido que não sabe se um dia vai governar? Era uma marcha política. Não era uma invasão militar. Não era uma tentativa de tomar o quartel Unidade de Intervenção Rápida (UIR). Não era uma coluna de tanques a caminho do Palácio da Ponta Vermelha localizado no Bar Lisboa. Então, por que razão a Polícia apareceu com uma disposição que parecia anunciar guerra?

O dia até parecia normal, a cidade cheirava a suor do carnaval, o ruido dos táxis de biscletas embelezava uma tarde embriagada com actividade política no Campo da Sagrada Familia, de repente, a polícia decidiu acrescentar ao programa uma modalidade que ninguém tinha pedido carnaval anti-motim, acompanhado com  música  do gás lacrimogéneo

E agora temos a explicação oficial. Houve uma pedra. Segundo a versão policial, uma pedra terá partido o vidro de uma viatura. Se foi assim, que se encontre quem atirou a pedra. Que seja identificado. Que responda perante a lei, porque a responsabilidade é individual.

É aqui que a história começa a ficar interessante. Porque depois da pedra veio o gás lacrimogéneo. E, aparentemente, o gás encontrou aquilo que nenhum estratega policial esperaria encontrar naquele momento um enxame de abelhas.

Resultado?

A Polícia lança gás lacrimogénio, o gás atinge as abelhas, as abelhas ficam irritadas, as pessoas fogem e, no meio de toda esta confusão, quase ficamos a pensar que o verdadeiro comando da operação estava na colmeia.

Só nos falta amanhã a Polícia explicar que as abelhas também eram membros da ANAMOLA. É engraçado. Mas não é para rir. Porque por detrás da pedra e das abelhas existem perguntas sérias. Quem deu a ordem para aquela operação? Quem comandou? Quem decidiu que aquela era a melhor resposta? Quem avaliou o risco? Quem autorizou o uso da força? E quem vai assumir responsabilidade se tiver havido excesso? Porque a Polícia não pode ser simultaneamente protagonista do conflito, autora da intervenção e narradora oficial da própria versão.

É preciso investigação. É preciso transparência. É preciso saber o que realmente aconteceu. E há uma hipótese que não podemos deixar de colocar sobre a mesa, ainda que seja desconfortável, Será que a Polícia estava simplesmente à espera deste momento para mostrar aos machuabos a nova viatura anti-motim?

Porque, convenhamos, comprar uma viatura nova neste país e não mostrar é quase um pecado administrativo. Talvez alguém tenha pensado: “Finalmente chegou a oportunidade. Vamos mostrar aos machuabos que também temos brinquedo novo.” Não é só Maputo que tem.

Só que uma viatura anti-motim não é um brinquedo. É equipamento de Estado, e equipamentos do Estado não devem ser usados para alimentar demonstrações de força contra cidadãos que exercem direitos políticos.

Aqui está o ponto central deste carnaval, que ameaça representava uma marcha de um partido que nem sequer se sabe se algum dia governará Moçambique?

Se a ANAMOLA tem pretensões políticas, que dispute nas urnas. Se o presidente deste partido tem ambições, que seja confrontado politicamente. Se os seus apoiantes violarem a lei, que sejam responsabilizados individualmente. Mas uma marcha não pode ser tratada como se fosse uma ameaça militar apenas porque incomoda alguém.

Porque se a Polícia começa a confundir oposição com ameaça, amanhã qualquer cidadão que discorde poderá ser tratado como inimigo. E aí já não estamos a falar apenas de uma marcha em Quelimane. Estamos a falar do tipo de Estado que queremos construir. Um Estado que suporta cidadãos críticos? Ou um Estado que prefere cidadãos calados?

E aqui talvez esteja a verdadeira pergunta. Será que o problema era a marcha ou era quem estava à frente dela? Porque se fosse apenas uma questão de ordem pública, bastaria explicar a proibição, negociar com os organizadores e garantir o cumprimento da lei.

Mas quando a resposta aparece acompanhada de gás, confrontos, uma viatura anti-motim, uma pedra e, para completar o enredo, um enxame de abelhas, o cidadão tem o direito de desconfiar. Não para proteger a ANAMOLA. Não para atacar a Polícia. Mas para proteger a verdade. Porque a Polícia deve proteger o cidadão, não transformar o cidadão no seu adversário.

Os machuabos merecem saber quem deu a ordem para que a polícia participasse num carnaval e se aquela viatura anti-motim era realmente necessária

No fim, a pedra pode ter partido o vidro da viatura. As abelhas podem ter provocado o caos. Mas existe algo muito mais perigoso que uma pedra e mais doloroso que uma picada

Quando o cidadão começa a olhar para a Polícia e já não sabe se está diante de quem veio protegê-lo ou de quem veio mostrar-lhe quem manda. E essa, meus caros, é uma pergunta que não se resolve com gás lacrimogéneo.

Resolve-se com respostas.

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