
QUANDO A ARTE TRANSFORMA AS HISTÓRIAS DA CIDADE EM CORPO E MEMÓRIA
Voz de Rua
A rua como espaço de experiência, conflito, resistência e criação. É a partir desse lugar que nasce “Voz de Rua”, exposição que reúne os artistas plásticos Chua Nuvunga e Nhez Nguenha, patente de 5 a 28 de Agosto, na Fundação Fernando Leite Couto, em Maputo.
Mais do que uma mostra de pintura e escultura, “Voz de Rua” representa o encontro de dois percursos artísticos que têm na cultura Hip Hop e na intervenção social uma das suas raízes. Ambos começaram como artistas ligados ao movimento Hip Hop, assumindo-se como “poetas das ruas”, e transportaram para as artes plásticas a mesma inquietação diante das realidades que encontram no quotidiano.
Para Chua Nuvunga, a rua é, literalmente, a origem dessa linguagem. “A rua é a matriarca das nossas produções artísticas”, afirma o artista, explicando que é dela que ele e Nhez retiram acontecimentos, sentimentos e histórias que posteriormente transformam em obras.
A comparação que faz com o jornalismo é reveladora da sua concepção de arte. Tal como o jornalista sai à rua para recolher informação e transformá-la numa matéria, os artistas percorrem os mesmos espaços para observar, interpretar e converter essas experiências em criação artística.
“Saímos às ruas para colhermos informações e transformar em obras de arte”, resume Chua.
Do Hip Hop para as artes plásticas
A trajectória dos dois artistas está ligada à cultura Hip Hop, entendida não apenas como expressão musical, mas como movimento cultural de intervenção social. Foi nesse universo que começaram a construir uma voz própria e a abordar problemas que atravessam a sociedade.
Essa origem permanece presente em “Voz de Rua”. A exposição procura justamente evidenciar que a mudança de linguagem — da poesia e da cultura urbana para a pintura e a escultura — não significou uma ruptura com os temas que marcaram os seus percursos.
Pelo contrário, a rua continua a ser matéria-prima.
As obras abordam realidades que afectam particularmente a juventude e a sociedade em geral, incluindo pedofilia, suicídio, criminalidade, relações conjugais marcadas pelo interesse e pelo fingimento, brutalidade e outras formas de violência e tensão social.
A arte aparece, assim, como espaço de denúncia, mas também de interpretação. Não se limita a reproduzir a realidade: procura atribuir-lhe novos sentidos.
Dois caminhos que se encontram
Na leitura curatorial de Eduardo Quive, “Voz de Rua” evidencia a diversidade de linguagens e técnicas presentes nas artes plásticas moçambicanas contemporâneas.
Chua trabalha sobretudo com madeira e metal, enquanto Nhez desenvolve a sua pesquisa através da pintura sobre tela. São linguagens distintas que, contudo, estabelecem um diálogo.
Na pintura de Nhez, Quive identifica o rigor do acabamento, a atenção ao detalhe e uma construção baseada em sucessivas camadas simbólicas. O figurativo e o abstracto convivem numa atmosfera marcada por vermelhos, laranjas, rosas, violetas, amarelos e azuis.
Mas a intensidade cromática, segundo o curador, é apenas a porta de entrada para um universo mais profundo, povoado por vozes, corpos, melodias e paisagens emocionais.
Aves, instrumentos musicais e outros elementos recorrentes surgem como metáforas de liberdade, desejo, utopia e incerteza. Por detrás da dimensão onírica das pinturas, permanece uma pergunta sobre a própria condição humana: como sobreviver perante o abismo e, simultaneamente, conservar a capacidade de reinvenção?
Se Nhez sugere através da pintura, Chua, na leitura de Quive, materializa através da escultura.
A memória dos materiais
Nas mãos de Chua Nuvunga, a madeira e os materiais obsoletos deixam de ser simples objectos. Carregam memórias.
O artista explica que recolhe materiais que foram utilizados por outras pessoas, alguns com histórias conhecidas, outros completamente desconhecidas. Depois, estabelece com eles um diálogo para descobrir novas narrativas.
“É preciso saber namorar o material”, diz Chua, numa expressão que traduz a relação quase afectiva que estabelece com a matéria.
Cada objecto pode apontar para uma direcção diferente. Cabe ao artista perceber onde pode ser encaixado, aquilo que pode representar e qual será o sentimento ou a abordagem que carregará na obra final.
É nesse processo que materiais aparentemente descartados ganham uma nova existência.
A leitura de Eduardo Quive aproxima-se dessa ideia ao afirmar que as esculturas de Chua parecem transformar a madeira até esta ultrapassar a sua condição inicial. Os corpos fragmentados deixam de ser apenas formas e passam a sugerir histórias.
“Nenhum corpo existe sozinho”, escreve o curador. Cada corpo resulta da confluência de outras matérias, outros corpos e outras histórias.
Uma exposição que nasceu de uma aproximação
Apesar de Chua e Nhez já terem a vontade de expor juntos, “Voz de Rua” não nasceu inicialmente como um projecto concebido pelos dois.
A exposição surgiu por iniciativa de Yolanda Couto, curadora da Fundação Fernando Leite Couto, que decidiu juntar os artistas numa exposição colectiva.
A aproximação ganhou ainda outro significado quando se percebeu que os dois, além de amigos, são jovens provenientes do mesmo bairro e partilham uma história ligada à cultura Hip Hop.
Para Chua, a experiência também significou abrir mão de algumas obras que estavam reservadas para uma futura exposição individual.
O artista tinha apresentado à Fundação uma proposta para uma exposição individual, mas, perante a agenda preenchida da instituição, Yolanda Couto optou por integrá-lo numa mostra colectiva enquanto aguarda a oportunidade para o projecto individual.
O processo obrigou-o a retirar algumas obras de uma série que ainda não havia sido apresentada ao público.
Foi, segundo o próprio, um choque.
Mas esse gesto acabou por produzir um encontro artístico que, na perspectiva de Eduardo Quive, talvez estivesse a ser preparado muito antes de “Voz de Rua” existir como exposição.
A arte como voz
“Voz de Rua” ganha, deste modo, um significado que ultrapassa o espaço físico da galeria.
É uma exposição sobre corpos, memórias, conflitos e possibilidades. É também sobre dois artistas que transportaram para as artes plásticas uma linguagem que nasceu nas ruas.
A rua, nesse sentido, não aparece apenas como cenário. É origem, arquivo e personagem.
É onde os artistas observam a sociedade, recolhem histórias e encontram os temas que depois transformam em pintura e escultura.
Entre a cor das telas de Nhez e a materialidade das esculturas de Chua, a exposição constrói uma espécie de conversa entre aquilo que é imaginado e aquilo que ganha corpo; entre o sonho e a matéria; entre a experiência individual e a memória colectiva.
No fundo, “Voz de Rua” parece propor uma ideia simples, mas poderosa: a arte também pode ser uma forma de escutar aquilo que a cidade diz quando quase ninguém está a ouvir.
E talvez seja por isso que, como sugere Eduardo Quive, o encontro entre Chua Nuvunga e Nhez Nguenha não precise de certezas. A arte, afinal, encontra a sua força precisamente na capacidade de manter abertas as possibilidades.