Nova Democracia acende “chama da mudança Real” e assume desafio de construir alternativa ao poder

A Nova Democracia quer transformar a sua estrutura territorial numa força política permanentemente ligada às comunidades e capaz de disputar a condução do Estado. A orientação foi deixada pelo presidente do partido, Salomão Muchanga, durante a 1.ª Reunião Nacional dos Delegados Provinciais, realizada em Quelimane, onde apresentou a organização partidária como uma das principais ferramentas para a construção de uma alternativa política em Moçambique.
Perante delegados provinciais e responsáveis de mobilização, Muchanga não se limitou a denunciar os problemas do país. O seu discurso procurou estabelecer uma linha política para a Nova Democracia: organizar, mobilizar, formar e acompanhar a governação a partir das comunidades.
Para o líder da ND, os delegados constituem a ligação entre a direcção nacional e “a vida real da população”, assumindo uma função que vai para além da actividade eleitoral. São, na sua leitura, a “linha da frente” de um projecto que pretende transformar descontentamento social em participação política organizada.
A crítica de Muchanga parte de uma tese central: Moçambique continua a produzir riqueza sem conseguir distribuí-la em forma de bem-estar, oportunidades e dignidade para a maioria da população.
O presidente da ND descreveu um país onde camponeses, pescadores, trabalhadores, comerciantes, mineiros, professores, médicos e operários sustentam a economia, mas permanecem afastados dos benefícios que essa riqueza deveria produzir. Na sua formulação mais contundente, os moçambicanos seriam “grandes produtores da riqueza, mas beneficiários da pobreza”.
Muchanga responsabilizou o actual modelo de governação por problemas que vão da pobreza e desemprego à precariedade dos serviços públicos, corrupção, fragilidade das finanças públicas e dependência externa. Também criticou a forma como, segundo afirmou, os recursos naturais têm sido explorados sem produzir uma transformação proporcional na vida das comunidades.
Mas o discurso ganhou particular força quando o dirigente passou da denúncia à proposta de ruptura. “Precisamos de refundar o Estado e reconstruir Moçambique a partir do povo”, defendeu.
A expressão sintetiza a ambição política apresentada em Quelimane: não se trata apenas de substituir governantes, mas de alterar a relação entre Estado e cidadão. Muchanga contrapõe um Estado concebido para servir a população a um Estado que, na sua avaliação, tem servido interesses de uma elite política e económica.
Nesse modelo alternativo, a Nova Democracia defende uma economia mais inclusiva, serviços públicos acessíveis, uma polícia orientada para a protecção do cidadão, Justiça independente, igualdade perante a lei e respeito pelos direitos humanos.
A ND pretende ainda que os recursos naturais sejam tratados como património colectivo e que a riqueza nacional seja convertida em emprego, educação, saúde, infra-estruturas e oportunidades.
É aqui que o discurso deixa de ser apenas oposicionista e passa a assumir uma dimensão programática.
O presidente da ND também marcou distância em relação à narrativa política construída em torno dos antigos “libertadores”, defendendo que “os libertadores de ontem têm de descansar” e que o país precisa de uma nova geração política.
Mais do que uma frase de efeito, a declaração representa uma tentativa de reposicionar o debate político moçambicano: da legitimidade histórica para a legitimidade baseada em resultados, participação e capacidade de responder às necessidades actuais da população.
No encerramento, Muchanga apelou aos delegados para que saiam da Zambézia com a “chama acesa” para iluminar o país inteiro.
Muchanga procura apresentar a Nova Democracia não somente como partido de protesto, mas como instrumento de reorganização política e social. A sua proposta assenta na mobilização comunitária, planificação conjunta, participação política e monitoria da governação.
A mensagem dirigida aos delegados é, por isso, estratégica: a disputa política não deve acontecer apenas durante as eleições. Deve começar nos bairros, comunidades, mercados, campos agrícolas e demais espaços onde se manifesta a vida quotidiana dos cidadãos.
Ao convocar as estruturas provinciais para esse trabalho, Muchanga procura transformar a presença territorial da ND numa espécie de infra-estrutura política permanente, capaz de ouvir as populações, identificar problemas, fiscalizar o poder e construir soluções a partir da base.

A formação dos delegados ganhou espaço central no encontro de Quelimane. Para Muchanga, capacitar a estrutura partidária significa fornecer instrumentos para a intervenção política e preparar militantes para uma actividade que não termina com o encerramento de uma conferência ou de um ciclo eleitoral.

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