Stéla Suarte quer transformar a moda numa indústria capaz de criar milhões de oportunidades para mulheres moçambicanas

Jovem estilista defende aposta estratégica num sector ainda pouco explorado

A estilista acredita que a moda pode deixar de ser vista apenas como uma actividade artesanal e assumir-se como um sector económico capaz de gerar emprego, promover autonomia financeira e contribuir para o desenvolvimento de Moçambique. Para isso, defende investimento na produção nacional de tecidos, formação profissional e criação de escolas especializadas.

Aos 25 anos, Stéla Suarte já tem uma convicção formada sobre o futuro da moda em Moçambique: o sector pode ser uma das ferramentas para transformar a vida de milhares de pessoas, especialmente mulheres que procuram alternativas de geração de rendimento.

Mais do que criar roupas, a jovem estilista acredita que está inserida num sector com capacidade de movimentar a economia, criar empregos e abrir caminhos para uma nova geração de empreendedoras.

“Eu vejo a moda como uma área que pode levantar muitas mulheres”, afirma Stéla, defendendo que o país precisa olhar para além da ideia tradicional de costura e reconhecer a dimensão económica de toda a cadeia que envolve o sector.

A sua visão nasce da própria experiência. O percurso começou ainda na infância, quando confeccionava roupas para bonecas, sem imaginar que aquele passatempo se transformaria numa profissão. Diferentemente de muitos profissionais que desde cedo sonhavam com a moda, Stéla conta que inicialmente associava sucesso profissional a um emprego convencional, dentro de um escritório.

Mas a habilidade manual e a atenção aos detalhes acabaram por mudar o rumo da sua trajectória.

A qualidade das pequenas peças que produzia despertou a curiosidade e levou-a a procurar conhecimento. Depois de uma curta formação, decidiu investir numa máquina própria, comprada com poupanças feitas enquanto trabalhava.

A primeira máquina custou cerca de 50 mil meticais e marcou o início de uma caminhada que hoje inclui quatro equipamentos, produção de peças personalizadas e formação de novos profissionais.

Da costura à criação de identidade

Para Stéla, existe uma diferença clara entre ser costureiro e ser estilista. Enquanto o costureiro executa uma peça a partir de uma orientação, o estilista participa de todo o processo criativo, desde a escolha dos tecidos até à definição dos cortes, cores e detalhes que dão identidade à roupa.

“Ser estilista envolve ouvir, aconselhar, sugerir alterações e perceber aquilo que combina com a pessoa e com a ocasião”, explica.

A jovem trabalha sobretudo com peças de maior complexidade, incluindo vestidos de casamento, madrinhas e eventos especiais, uma área que considera exigir maior rigor e criatividade.

Para ela, um dos maiores momentos de satisfação acontece quando consegue concretizar o sonho de uma cliente, principalmente numa ocasião tão importante como um casamento.

“Não existe melhor coisa do que alguém confiar em ti um dia tão importante da sua vida e tu conseguires entregar aquilo que a pessoa esperava”, afirma.

Uma indústria dependente do exterior

Apesar do crescimento do interesse pela moda em Moçambique, Stéla entende que o sector ainda enfrenta desafios estruturais que limitam o seu desenvolvimento.

O principal problema, segundo a estilista, está na dependência da importação de tecidos e outros materiais necessários para a produção.

A falta de disponibilidade de determinados materiais pode comprometer projectos já planeados e aumentar os custos para os profissionais.

“Como vamos fazer Moçambique crescer nesta área se não temos material suficiente para investir?”, questiona. Para ela, a criação de uma indústria têxtil nacional permitiria reduzir custos, aumentar a oferta e dar mais possibilidades de escolha aos criadores.

Stéla compara a situação da moda com outros sectores onde a produção nacional pode competir com produtos importados. “Seria importante termos a possibilidade de escolher entre material nacional e importado. O problema hoje é que muitas vezes não temos essa opção”, explica.

Mais escolas para formar mais mulheres

Uma das principais bandeiras da estilista é a expansão da formação em corte e costura.

Depois de participar num projecto financiado pela UNED, onde ajudou a formar mais de 200 pessoas, Stéla passou a defender que o país precisa de mais escolas especializadas. Na sua perspectiva, uma escola de moda pode representar uma oportunidade para mulheres que não conseguiram ingressar no ensino superior ou que procuram uma profissão capaz de gerar rendimento.

“Uma mulher que aprende uma profissão como esta pode mudar a sua própria vida, ajudar a sua família e depois ensinar outras mulheres”, defende.

A estilista lamenta que áreas como informática, línguas ou engenharia tenham maior reconhecimento social, enquanto cursos ligados à moda e à costura continuam pouco valorizados.

O desafio de chegar ao topo

Stéla não se considera ainda uma estilista de topo. Prefere definir-se como uma profissional em crescimento, consciente de que o reconhecimento é construído com tempo, qualidade e exposição pública. E acredita estar no caminho certo.

Entre os trabalhos que mais marcaram a sua carreira destaca um vestido de noiva produzido recentemente, que considera o seu maior desafio e uma das peças de que mais se orgulha.

Mas o maior legado que pretende deixar vai além das roupas que cria. Stéla quer inspirar outras pessoas a acreditarem nas suas capacidades e a perceberem que a arte também pode ser uma profissão.

“A sociedade precisa entender que trabalho não é apenas estar sentado num escritório. Também existe trabalho nas mãos de quem cria”, afirma.

Com uma visão voltada para o futuro, a jovem estilista acredita que a moda moçambicana tem potencial para crescer, desde que receba investimento, formação e reconhecimento.

Para ela, transformar a moda numa indústria não significa apenas produzir roupas, mas criar oportunidades para milhares de pessoas que hoje procuram uma alternativa para construir o próprio futuro.

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