A estilista acredita que a moda pode deixar de ser vista apenas como uma actividade artesanal e assumir-se como um sector económico capaz de gerar emprego, promover autonomia financeira e contribuir para o desenvolvimento de Moçambique. Para isso, defende investimento na produção nacional de tecidos, formação profissional e criação de escolas especializadas.
Mais do que criar roupas, a jovem estilista acredita que está inserida num sector com capacidade de movimentar a economia, criar empregos e abrir caminhos para uma nova geração de empreendedoras.
“Eu vejo a moda como uma área que pode levantar muitas mulheres”, afirma Stéla, defendendo que o país precisa olhar para além da ideia tradicional de costura e reconhecer a dimensão económica de toda a cadeia que envolve o sector.
Mas a habilidade manual e a atenção aos detalhes acabaram por mudar o rumo da sua trajectória.
A qualidade das pequenas peças que produzia despertou a curiosidade e levou-a a procurar conhecimento. Depois de uma curta formação, decidiu investir numa máquina própria, comprada com poupanças feitas enquanto trabalhava.
A primeira máquina custou cerca de 50 mil meticais e marcou o início de uma caminhada que hoje inclui quatro equipamentos, produção de peças personalizadas e formação de novos profissionais.
Da costura à criação de identidade
Para Stéla, existe uma diferença clara entre ser costureiro e ser estilista. Enquanto o costureiro executa uma peça a partir de uma orientação, o estilista participa de todo o processo criativo, desde a escolha dos tecidos até à definição dos cortes, cores e detalhes que dão identidade à roupa.
A jovem trabalha sobretudo com peças de maior complexidade, incluindo vestidos de casamento, madrinhas e eventos especiais, uma área que considera exigir maior rigor e criatividade.
Para ela, um dos maiores momentos de satisfação acontece quando consegue concretizar o sonho de uma cliente, principalmente numa ocasião tão importante como um casamento.
“Não existe melhor coisa do que alguém confiar em ti um dia tão importante da sua vida e tu conseguires entregar aquilo que a pessoa esperava”, afirma.
Uma indústria dependente do exterior
Apesar do crescimento do interesse pela moda em Moçambique, Stéla entende que o sector ainda enfrenta desafios estruturais que limitam o seu desenvolvimento.
O principal problema, segundo a estilista, está na dependência da importação de tecidos e outros materiais necessários para a produção.
A falta de disponibilidade de determinados materiais pode comprometer projectos já planeados e aumentar os custos para os profissionais.
“Como vamos fazer Moçambique crescer nesta área se não temos material suficiente para investir?”, questiona. Para ela, a criação de uma indústria têxtil nacional permitiria reduzir custos, aumentar a oferta e dar mais possibilidades de escolha aos criadores.
Stéla compara a situação da moda com outros sectores onde a produção nacional pode competir com produtos importados. “Seria importante termos a possibilidade de escolher entre material nacional e importado. O problema hoje é que muitas vezes não temos essa opção”, explica.
Mais escolas para formar mais mulheres
Uma das principais bandeiras da estilista é a expansão da formação em corte e costura.
“Uma mulher que aprende uma profissão como esta pode mudar a sua própria vida, ajudar a sua família e depois ensinar outras mulheres”, defende.
A estilista lamenta que áreas como informática, línguas ou engenharia tenham maior reconhecimento social, enquanto cursos ligados à moda e à costura continuam pouco valorizados.
O desafio de chegar ao topo
Stéla não se considera ainda uma estilista de topo. Prefere definir-se como uma profissional em crescimento, consciente de que o reconhecimento é construído com tempo, qualidade e exposição pública. E acredita estar no caminho certo.
Mas o maior legado que pretende deixar vai além das roupas que cria. Stéla quer inspirar outras pessoas a acreditarem nas suas capacidades e a perceberem que a arte também pode ser uma profissão.
“A sociedade precisa entender que trabalho não é apenas estar sentado num escritório. Também existe trabalho nas mãos de quem cria”, afirma.
Com uma visão voltada para o futuro, a jovem estilista acredita que a moda moçambicana tem potencial para crescer, desde que receba investimento, formação e reconhecimento.
Para ela, transformar a moda numa indústria não significa apenas produzir roupas, mas criar oportunidades para milhares de pessoas que hoje procuram uma alternativa para construir o próprio futuro.