Uma afronta histórica ao lambibotismo

António Foguete

Aqueles discursos de Chapo em Chimoio acabam por provocar ecos muito para além das paredes onde foram proferidos. Entre a corrupção, a criminalidade, o tráfico de drogas, os raptos e o branqueamento de capitais, os discursos trouxeram um elemento que chamou particularmente a atenção: a condenação frontal e tempestiva do “lambibotismo” e da bajulação.

Quando Chapo afirma que “na FRELIMO não há plateia para lambe-botas”, a frase ganha um significado que ultrapassa a sua dimensão retórica. É uma advertência aos que transformaram o elogio ao chefe numa espécie de estratégia de sobrevivência estomacal.

O bajulador procura o olhar do chefe. E a grande agenda dele é ser visto e notado pelo chefe. Tudo o que faz, faz não para o bem da maioria ou da instituição, mas para alimentar o ego do Boss. E o chefe, por sua vez, quando gosta de ser bajulado, alimenta involuntariamente esse comportamento. E, desta forma, torna-se um casamento perfeito entre dois apaixonados. É uma relação quase simbiótica.

Não haveria tantos “lambe-botas” se não existissem também aqueles que apreciam ser “lambidos”. Um alimenta o outro. O primeiro oferece elogios, aplausos e uma imagem artificialmente construída do chefe. O segundo recompensa essa devoção com proximidade, confiança ou oportunidades. E assim se cria um círculo difícil de romper.

O lambibotismo ou é um dom nato ou é uma maldição diabólica. Alguns sabem que são lambe-botas; outros nem fazem ideia de que o são. São lambe-botas inconscientes.

Cá deste lado, a mensagem de uma “Nova Era” e de uma “Era de Renovação” coloca sobre a mesa uma promessa do fim destes problemas sociais e o que Chapo diz é que as pessoas deverão ser avaliadas pelo que fazem e não apenas pelo modo como conseguem agradar aos seus superiores.

Para que a meritocracia deixe de ser apenas uma palavra usada nas nossas instituições, principalmente no nosso aparelho de Estado, será necessário que as oportunidades, as responsabilidades e as promoções sejam efectivamente determinadas pela competência, pela integridade, pelo compromisso e pelos resultados. E é para isso que Chapo quer nos conduzir.

Para nós, o povo do chapa, do grossista do Zimpeto, do Dumba Nengue, da Baixa, do Xipamanine, Chapo estava a dizer aos bajuladores que se quiserem conquistar a confiança, deve ser através da competência, da capacidade de apresentar resultados, da responsabilidade no cumprimento das tarefas e, sobretudo, da integridade.

É precisamente isto que nos chegou deste lado de cá.

A outra parte que mexeu connosco, enquanto povo, é a parte que diz: “cada um pague pelos crimes que cometer”. Nós vibrámos com isso. Temos a sensação de que a justiça é uma realidade, e fica claro para nós que a filiação política não vai funcionar como escudo contra a responsabilização.

Se a “Nova Era Chapiana”, anunciada em Chimoio, conseguir ultrapassar as fronteiras partidárias e transformar-se numa verdadeira cultura de governação do Estado, os discursos de Chapo terão sido muito mais do que uma reprimenda aos bajuladores. Poderá marcar o início de uma ruptura entre duas realidades: de um lado, a velha cultura da proximidade, do elogio fácil e da adulação aos chefes; do outro, uma nova cultura assente no mérito, no trabalho, na competência, na responsabilidade e na prestação de contas.

E, se nesta Nova Era conseguirmos transformar aqueles discursos em actos, o verdadeiro vencedor será Moçambique.

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