
Da electrificação rural à modernização da gestão empresarial, a cooperação entre a EDM e a Noruega ajudou a elevar o acesso à energia para 66,9% da população e prepara uma nova fase focada na transição energética, resiliência climática e integração regional.
A Electricidade de Moçambique (EDM) e o Reino da Noruega assinalaram esta semana, em Maputo, os 50 anos de cooperação no sector energético, numa altura em que o país procura consolidar os ganhos alcançados na expansão do acesso à energia eléctrica e preparar uma nova etapa marcada pela transição energética e pelo reforço das infra-estruturas estratégicas.
Durante o Seminário Comemorativo dos 50 anos de Cooperação Energética Moçambique–Noruega, representantes dos dois países analisaram o percurso da parceria iniciada na década de 1970 e os seus impactos na evolução do sistema eléctrico nacional.
Ao longo das últimas cinco décadas, o apoio norueguês esteve associado à implementação de projectos estruturantes de geração, transporte e distribuição de energia, bem como ao fortalecimento institucional da EDM, numa cooperação considerada uma das mais duradouras no sector energético moçambicano.
Segundo o Presidente do Conselho de Administração da EDM, Joaquim Ou-chim, a parceria permitiu apoiar iniciativas fundamentais para a expansão da Rede Eléctrica Nacional, especialmente em zonas rurais, além de programas de capacitação técnica, assistência institucional e mecanismos de resposta a desastres naturais.
Entre os resultados destacados figura o Programa Energia para Todos (ProEnergia), apontado como um dos principais instrumentos para a massificação do acesso à electricidade. Dados apresentados durante o seminário indicam que a taxa de acesso doméstico à energia eléctrica passou de 36,8%, em 2020, para 66,9%, em Março de 2026, considerando soluções ligadas e não ligadas à rede.
O encontro permitiu igualmente avaliar o impacto de reformas implementadas na EDM nos últimos anos. Um dos exemplos apresentados foi a modernização da cadeia de fornecimento da empresa, processo que introduziu mecanismos mais robustos de procurement, transparência e controlo, alinhando a gestão da empresa com padrões internacionais de governação corporativa.
Esta componente institucional é tão relevante quanto os investimentos em infra-estruturas, uma vez que a sustentabilidade financeira e operacional das empresas públicas de energia constitui um factor decisivo para a atracção de novos financiamentos e para a execução de projectos de grande escala.
A cooperação entre Moçambique e a Noruega também tem apoiado iniciativas consideradas estratégicas para a integração energética regional. Entre elas destaca-se o Projecto de Interligação Moçambique–Malawi (MOMA), que deverá reforçar a posição do país como fornecedor e corredor de energia na África Austral.
Outro projecto referido durante os debates foi a Linha de Transporte Temane–Maputo, vista como uma das infra-estruturas mais importantes para o reforço da capacidade nacional de transporte de energia e para a redução das perdas técnicas no sistema eléctrico.
O Embaixador da Noruega em Moçambique, Egil Thorsås, destacou os avanços alcançados na última década, apontando a expansão do acesso à energia, a construção de novas linhas de transporte, a reabilitação de infra-estruturas críticas e o fortalecimento institucional como alguns dos principais resultados da cooperação.
A análise dos projectos financiados pelo Reino da Noruega serviu ainda para definir prioridades para os próximos anos. Entre elas estão a implementação do Programa Energia para Todos – Fase III (ASCENT), destinado à aceleração das novas ligações e expansão da rede de distribuição, e o desenvolvimento de Corredores de Energias Verdes, concebidos para reforçar a rede de transporte e criar condições para a evacuação de energia proveniente de futuros investimentos energéticos.
A agenda futura inclui igualmente iniciativas ligadas à resiliência climática. Neste âmbito, foi destacado o Fundo de Gestão de Risco de Desastres Climáticos da EDM, financiado pela Noruega, cujo acordo foi assinado em 2024. Os recursos já estão a ser utilizados na reposição de infra-estruturas eléctricas afectadas pelas cheias registadas na província de Gaza.
Mais do que uma parceria histórica, os projectos discutidos durante o seminário revelam uma evolução da cooperação para áreas consideradas críticas no actual contexto energético global: acesso universal à energia, sustentabilidade das infra-estruturas, integração regional e adaptação às mudanças climáticas.
Num momento em que Moçambique procura expandir a sua capacidade de produção e transporte de energia e posicionar-se como um dos principais pólos energéticos da região, a cooperação entre a EDM e a Noruega continua a ser apresentada como um dos pilares de suporte à transformação do sector eléctrico nacional.