
A presidente da União para o Desenvolvimento Estudantil (UNDE), Ivone Soares, assinou esta quarta-feira um Memorando de Entendimento com a Universidade Íris, abrindo caminho para uma parceria que vai muito além da cooperação institucional clássica. Trata-se, na essência, de uma tentativa deliberada de reconfigurar o papel do estudante na sociedade moçambicana.
Num discurso marcado por apelos à responsabilidade cívica, Ivone Soares foi clara ao afirmar que “não pode haver cidadão sem consciência ativa do seu papel”. A mensagem não é meramente retórica. Ela traduz uma visão que tem vindo a orientar a atuação da UNDE: a construção de uma geração de jovens informados, organizados e capazes de intervir nos destinos do país.
A aposta nas universidades não é casual. Se, até aqui, a UNDE vinha consolidando a sua presença em escolas através de grupos focais e iniciativas de base, o alargamento para o ensino superior representa um salto qualitativo. É nas universidades onde se moldam elites técnicas, políticas e intelectuais — e é precisamente nesse espaço que a organização quer influenciar mentalidades.
UNDE quer ir além do discurso
A UNDE tem vindo a posicionar-se como uma plataforma de mobilização estudantil com enfoque no desenvolvimento humano e na cidadania ativa. Num país onde grande parte da juventude enfrenta desafios estruturais — desde o desemprego à exclusão social —, iniciativas deste tipo procuram preencher um vazio que muitas vezes não é coberto pelo sistema formal de ensino.
O memorando com a Universidade Íris prevê ações conjuntas em áreas como investigação, extensão universitária, mobilidade estudantil e monitoria de projetos. Mas, mais do que isso, propõe a criação de um ecossistema de partilha de conhecimento e intervenção prática.
Do lado da universidade, o representante Alfândega Manjoro reconheceu o potencial da parceria, sublinhando que esta poderá reforçar a formação dos estudantes em múltiplas dimensões, ligando teoria e prática, academia e comunidade.
Rapariga Capaz: a mudança começa pela base
No centro desta nova fase da UNDE está uma das suas iniciativas mais emblemáticas: o Clube da Rapariga Capaz.
Mais do que um simples programa, o clube representa uma abordagem estruturada ao empoderamento feminino em idade escolar e universitária. O seu objetivo é claro: mostrar às raparigas que a escola não é apenas um espaço de passagem, mas um ponto de partida para autonomia, liderança e transformação social.
Num contexto onde persistem desafios como o abandono escolar feminino, casamentos prematuros e desigualdades de género, a criação de polos do “Rapariga Capaz” dentro das universidades pode ter um efeito multiplicador significativo.
Ao introduzir competências de vida, liderança e organização, o programa procura formar jovens mulheres capazes de tomar decisões informadas e influenciar as suas comunidades. Trata-se de uma intervenção que atua tanto no plano individual quanto coletivo.
E há aqui um detalhe estratégico importante: ao levar o programa para o ensino superior, a UNDE não está apenas a apoiar estudantes — está a formar futuras mentoras, líderes e agentes de mudança que poderão replicar o modelo em outros níveis da sociedade.
Um dos elementos mais marcantes da intervenção de Ivone Soares foi a insistência na ideia de que a cidadania ativa é uma obrigação de todos. Esta visão contrasta com uma realidade onde a participação cívica, sobretudo entre jovens, ainda é limitada por fatores como desinformação, apatia ou falta de oportunidades.
A parceria com a Universidade Íris pode, nesse sentido, funcionar como um laboratório de cidadania prática — onde estudantes não apenas aprendem conceitos, mas os aplicam em contextos reais.
Ao articular investigação, ação comunitária e formação cívica, a iniciativa cria condições para que o estudante deixe de ser um mero receptor de conhecimento e passe a ser um produtor de soluções.
Entre o simbolismo e o impacto real
Memorandos de entendimento são, muitas vezes, criticados por ficarem no plano simbólico. O verdadeiro teste desta parceria será a sua capacidade de produzir resultados concretos e mensuráveis.
No entanto, há sinais que apontam para uma abordagem orientada à ação. A integração do Clube da Rapariga Capaz, a criação de polos de apoio ao género e o foco em competências práticas indicam uma tentativa de sair do papel e entrar no terreno.
Se bem executada, esta iniciativa poderá não apenas beneficiar estudantes da Universidade Íris, mas também servir de modelo replicável para outras instituições de ensino no país.
No fim, o que está em jogo nesta parceria não são apenas programas ou atividades pontuais. É uma visão de longo prazo sobre o tipo de sociedade que se quer construir.
Ao investir na formação de jovens conscientes, críticos e capacitados — com especial atenção às raparigas —, a UNDE e a Universidade Íris estão, de certa forma, a apostar num futuro que ainda não é visível, mas que começa a ser desenhado agora.
E talvez seja esse o maior valor desta iniciativa: lembrar que o desenvolvimento de um país não começa apenas nas grandes decisões políticas ou económicas, mas também — e sobretudo — na formação silenciosa de cidadãos capazes de pensar, agir e liderar.