
Na agenda de Dom Osório Citora Afonso ainda constavam catequeses, reuniões pastorais e uma celebração de encerramento marcada para domingo. Os fiéis de Mugogoda aguardavam os últimos momentos da primeira visita pastoral do seu bispo. Mas a missão ficou por terminar. Na madrugada deste sábado, homens armados invadiram a residência episcopal de Quelimane e mataram a tiro aquele que, até poucas horas antes, percorria comunidades da Zambézia levando uma mensagem de fé e esperança.
A morte ocorreu quando o prelado regressava de uma intensa agenda pastoral que o levou a várias paróquias da diocese. Antes do crime, Dom Osório havia passado pela Paróquia da Sagrada Família, pela Paróquia dos Santos Anjos de Coalane e encontrava-se envolvido na sua primeira visita pastoral à Paróquia Nossa Senhora Mãe de África, em Mugogoda, uma actividade que decorria entre os dias 3 e 7 de Junho.
Segundo o programa divulgado pela paróquia, a visita incluía encontros de catequese, celebrações eucarísticas, administração do sacramento da Confirmação e reuniões com agentes pastorais. Na quarta-feira, Dom Osório foi recebido pelos fiéis de Mugogoda. Na quinta-feira presidiu actividades em Marracua. Na sexta-feira orientou catequeses, missa e crismas em Namacata, na Comunidade do Chico. Para este sábado estava previsto um Conselho Pastoral alargado na sede paroquial, enquanto o encerramento da visita pastoral estava agendado para domingo.
Foi precisamente durante este período de missão que a vida do bispo foi interrompida de forma violenta.
O Comando Provincial da Polícia da República de Moçambique (PRM) na Zambézia confirmou que Dom Osório foi baleado na residência episcopal de Quelimane. Informações preliminares indicam que indivíduos ainda não identificados escalaram o recinto durante a madrugada e efetuaram disparos contra o prelado. O Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC) já iniciou investigações para esclarecer as circunstâncias do crime e identificar os seus autores e motivações.
A notícia espalhou-se rapidamente pelas comunidades católicas do país, mergulhando milhares de fiéis em luto e consternação. Aos 53 anos, Dom Osório encontrava-se numa das fases mais exigentes da sua missão, liderando simultaneamente a Diocese de Quelimane e a Arquidiocese da Beira.
Nascido a 6 de Maio de 1972, em Ribáuè, província de Nampula, Osório Citora Afonso ingressou ainda jovem nos Missionários da Consolata, congregação dedicada à evangelização e ao trabalho missionário. Em 2001 professou os votos solenes em Kinshasa, na República Democrática do Congo, consolidando uma vocação que o levaria a servir a Igreja em diferentes continentes.
Foi ordenado sacerdote a 3 de Novembro de 2002. A paixão pelo estudo das Escrituras conduziu-o a Roma, onde frequentou o Pontifício Instituto Bíblico, e posteriormente a Jerusalém, onde aprofundou a formação na Universidade Hebraica e na École Biblique. Tornou-se uma das referências moçambicanas na área da exegese bíblica.
Ao longo do seu percurso desempenhou diversas funções pastorais e académicas. Foi vigário em Kinshasa, formador de seminaristas, colaborador da Nunciatura Apostólica na República Democrática do Congo e superior religioso em Itália. Em 2017, foi chamado pelo Vaticano para integrar o Dicastério para a Evangelização, um dos organismos centrais da Santa Sé.
O regresso ao país aconteceu em 2023, quando o Papa Francisco o nomeou bispo auxiliar de Maputo. A ordenação episcopal teve lugar a 28 de Janeiro de 2024.
Menos de dois anos depois, a 25 de Julho de 2025, foi escolhido para assumir a Diocese de Quelimane como seu quarto bispo. Tomou posse a 31 de Agosto do mesmo ano, sendo recebido com expectativa pelos fiéis da Zambézia.
Em Abril de 2026, o Papa Leão XIV confiou-lhe uma responsabilidade adicional: a administração apostólica da Arquidiocese da Beira, após a renúncia de Dom Cláudio Dalla Zuanna por razões de saúde. A missão transformou-o numa das figuras mais influentes da Igreja Católica moçambicana, dividindo-se entre duas importantes circunscrições eclesiásticas.
Nos últimos meses, Dom Osório multiplicava deslocações entre cidades e comunidades, presidindo celebrações, administrando crismas, ordenando sacerdotes e acompanhando jovens e doentes. O seu lema episcopal, “Lucerno Pedibus Meis” (“Lâmpada para os meus passos”), refletia a visão de uma Igreja guiada pela Palavra e próxima das pessoas.