Jornalismo ao pormenor

SÓCIAS: 207 Mulheres, Um Movimento e o Novo Rosto do Poder Económico Feminino

Evento em Maputo junta mais de duas centenas de mulheres, sela alianças estratégicas e expõe um dado incontornável: o futuro do empreendedorismo em Moçambique passa, cada vez mais, pela liderança feminina.

O que aconteceu, em uma reunião recente  no Hotel Polana, em Maputo, não foi apenas mais um evento corporativo. Foi a materialização de uma ideia que vem ganhando forma: a de que o crescimento económico feminino exige estrutura, rede e intenção.

No centro dessa visão está Esperança Matsimbe, fundadora da iniciativa SÓCIAS, que abriu espaço para um novo tipo de organização entre mulheres — menos simbólica, mais estratégica.

Esperança Matsimbe, fundadora da iniciativa SÓCIAS
Esperança Matsimbe, fundadora da iniciativa SÓCIAS

Na sua intervenção, apresentou o SÓCIAS como uma rede estruturada de apoio entre mulheres, concebida para ir além do networking ocasional e criar uma plataforma funcional de colaboração. A proposta é clara: fomentar parcerias reais, estimular negócios sustentáveis e construir um ecossistema onde mulheres não apenas participam, mas se apoiam activamente no crescimento umas das outras.

A própria dinâmica do evento — que reuniu 207 participantes — reforça essa ambição. A adesão superou expectativas e obrigou a ajustes logísticos de última hora, um sinal evidente da procura crescente por espaços de conexão com propósito.

A sessão de abertura, conduzida por Nilza Chipe, enquadrou o momento como mais do que um encontro. O SÓCIAS foi apresentado como um movimento orientado para resultados, onde a conexão se traduz em oportunidades concretas de crescimento pessoal, profissional e empresarial.

Esse posicionamento ganhou força com a assinatura do memorando de entendimento entre o Access Bank e a Fundação Nunisa. O acto simboliza uma mudança importante: o reconhecimento institucional de que o empreendedorismo feminino precisa de financiamento, capacitação e integração estratégica no sistema económico.

A presença de entidades como o IPEME reforça uma leitura cada vez mais evidente: sem parcerias estruturadas, o crescimento dos negócios liderados por mulheres continuará limitado.

A abertura oficial por Emília Chambal acrescentou uma dimensão social e política ao evento, destacando o papel destas iniciativas na construção de liderança feminina e no desenvolvimento das jovens moçambicanas.

O evento articulou diferentes dimensões do crescimento feminino. A atuação do Grupo Matanato Xigubo trouxe elementos de identidade, força e resistência, ligando tradição cultural a um contexto moderno de afirmação económica.

No plano emocional, Marlene Matingani introduziu uma reflexão sobre perdão e leveza, defendendo que o crescimento sustentável exige libertação de bloqueios emocionais. A sua abordagem reforça uma ideia muitas vezes ignorada: liderança também é equilíbrio interno.

A intervenção de Happy Simelane trouxe uma leitura realista do sucesso. Longe de narrativas idealizadas, destacou que o crescimento é frequentemente antecedido por fracassos, rejeições e desafios. O ambiente social surge como factor determinante, o fracasso como instrumento de aprendizagem e a intencionalidade como condição para alcançar níveis mais elevados de realização pessoal e profissional.

Os painéis temáticos trouxeram um olhar técnico e crítico. No sector de gás, energia e hidrocarbonetos, ficou exposto um dado preocupante: a participação feminina continua abaixo dos 19% em áreas técnicas. A leitura é clara — não se trata de falta de capacidade, mas de ausência de políticas estruturadas de inclusão.

A discussão reforçou ainda a necessidade de investimento em ciência, inovação e formação avançada, para garantir que as mulheres não apenas participem, mas liderem processos em sectores estratégicos.

Outras sessões centraram-se na construção de identidade, liderança e posicionamento. A imagem profissional foi apresentada como ferramenta estratégica, onde postura, consistência e confiança influenciam directamente o acesso a oportunidades. Ao mesmo tempo, reforçou-se o papel das conexões humanas como catalisador de crescimento.

O debate sobre empreendedorismo trouxe à tona desafios concretos: acesso ao financiamento, à terra e à formalização dos negócios. Ficou evidente que a legalização empresarial não é apenas uma exigência burocrática, mas um passo decisivo para garantir segurança jurídica, credibilidade e acesso a oportunidades institucionais.

A literacia financeira foi apontada como condição essencial para alcançar estabilidade e liberdade económica, num contexto em que muitas mulheres continuam a enfrentar barreiras estruturais no acesso a recursos.

O evento integrou ainda uma dimensão motivacional e espiritual, com mensagens centradas na ação, consistência e construção de redes. As experiências partilhadas reforçam uma ideia transversal: talento sem posicionamento e sem conexões dificilmente se traduz em crescimento sustentável.

No painel sobre género e liderança, emergiu um consenso em torno da necessidade de reforçar a presença feminina em espaços de decisão. A literacia digital e financeira, a resiliência emocional e o autoconhecimento surgem como factores críticos para consolidar essa presença.

Ao mesmo tempo, destacou-se o impacto positivo da liderança feminina na construção de modelos organizacionais mais inclusivos e sustentáveis.

O encerramento, marcado por sessões de networking e encontros B2B, consolidou o principal objectivo do SÓCIAS: criar ligações que se transformem em negócios, parcerias e oportunidades reais.

A premiação das mulheres SÓCIAS 2026 simbolizou o reconhecimento de trajectórias e o fortalecimento de uma identidade colectiva em construção.

No final, a leitura é clara: o SÓCIAS deixou de ser apenas um evento. Afirma-se, cada vez mais, como uma plataforma de reorganização do espaço económico feminino em Moçambique — um movimento que, de forma silenciosa mas consistente, começa a redesenhar as dinâmicas de poder no país.

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