Jornalismo ao pormenor

 SALIM VALÁ DEFENDE LITERATURA COMO PILAR DO DESENVOLVIMENTO DE MOÇAMBIQUE

NÃO ME PEÇAM PARA ESCOLHER ENTRE PÃO E CULTURA

Durante o lançamento do livro “Metamorfoses da Terra”, de Victor Máquina, o ministro da Planificação e Desenvolvimento afirmou que uma nação não se constrói apenas com estradas, hospitais e investimentos, mas também com cultura, memória, ética e pensamento crítico.

Num tempo em que os debates sobre desenvolvimento costumam concentrar-se em estradas, pontes, energia, investimentos e crescimento económico, o ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Cripton Valá, lançou esta quinta-feira uma reflexão que procura alargar o conceito de progresso nacional.

Falando durante a cerimónia de lançamento do livro Metamorfoses da Terra, da autoria de Victor Máquina, realizada na Universidade Politécnica, em Maputo, Valá defendeu que o desenvolvimento de um país não pode ser medido apenas por indicadores económicos, mas também pela capacidade de preservar a sua cultura, valorizar a literatura e fortalecer a sua identidade colectiva.

“A terra é muito mais do que uma questão económica ou legal. Para nós, africanos e particularmente para os moçambicanos, a terra é vida, é riqueza, é cultura, é memória, é pertença e é o lugar onde tudo acontece”, afirmou.

A intervenção do governante foi muito além de uma simples apresentação literária. Ao comentar a obra, Valá transformou o momento numa reflexão sobre a relação dos moçambicanos com a terra, a identidade cultural e os desafios de desenvolvimento de um país que continua a procurar caminhos para crescer sem perder as suas raízes.

Partindo do título do livro, observou que a própria ideia de “metamorfose” remete para as profundas transformações que atravessam as comunidades, os territórios e as sociedades contemporâneas.

“A vida está em constante transformação.  As pessoas mudam, as comunidades mudam, a economia muda, a política muda e os territórios também mudam. Algumas mudanças são visíveis, outras acontecem silenciosamente no interior das famílias e das relações humanas”, observou.

Para o ministro, compreender essas transformações é essencial para construir um futuro mais equilibrado e inclusivo. E é precisamente aí que a literatura assume um papel que, muitas vezes, escapa aos debates políticos e económicos.

Segundo explicou, os livros possuem uma capacidade singular de captar sentimentos, inquietações e mudanças que frequentemente ficam fora dos relatórios oficiais e das estatísticas.

“Há coisas que os números não captam e que os relatórios não conseguem explicar. A literatura entra nesses espaços mais íntimos da experiência humana. Dá rosto às estatísticas, dá voz às emoções e ajuda-nos a compreender melhor quem somos”, defendeu.

Desenvolvimento não é apenas crescimento económico

Ao longo da sua intervenção, Salim Valá insistiu na necessidade de ampliar a compreensão sobre o significado de desenvolvimento. Na sua visão, um país não se constrói apenas através de obras públicas, investimentos privados ou crescimento do Produto Interno Bruto.

“Um país não se constrói apenas com estradas, edifícios, hospitais, escolas ou empresas. Um país também se constrói com ideias, imaginação, cultura, pensamento e capacidade de narrar a sua própria história”, afirmou.

O governante alertou que o progresso material, por si só, não garante o fortalecimento de uma nação. Para que o desenvolvimento seja sustentável, deve caminhar lado a lado com a preservação da identidade cultural e dos valores que unem a sociedade.

Foi nesse contexto que recuperou uma reflexão do histórico líder tanzaniano Julius Nyerere, uma das figuras mais influentes da construção do pensamento africano pós-independência.

“Não me peçam para escolher entre pão e cultura. Eu quero pão e quero cultura. Um povo que perde a sua identidade já perdeu quase tudo”, citou.

A mensagem, segundo explicou, continua actual numa época em que muitos países enfrentam o desafio de modernizar as suas economias sem comprometer o património cultural e os valores das suas comunidades. “O desenvolvimento nunca se faz contra a cultura do povo. Faz-se a partir dela”, sublinhou.

O valor da escrita e da memória colectiva

Num dos momentos mais marcantes da sua intervenção, o ministro destacou a importância dos escritores na preservação da memória colectiva e na construção da cidadania. Para Valá, escrever um livro continua a ser um acto de coragem num mundo cada vez mais dominado pela velocidade da informação e pela comunicação instantânea.

“Muitas pessoas têm ideias, mas nem todas têm a coragem de transformá-las em palavras e partilhá-las com os outros. Escrever exige disciplina, persistência e generosidade”, afirmou.

Na sua leitura, cada livro acrescenta uma nova peça ao património intelectual do país e oferece novas formas de compreender a sociedade.

“Os escritores ajudam-nos a conhecer melhor o país, a preservar a memória, a compreender as mudanças do nosso tempo e a imaginar o futuro que queremos construir”, referiu.

O ministro considerou que uma sociedade que lê, reflecte e debate as suas próprias realidades está melhor preparada para enfrentar desafios e construir soluções duradouras.

Um apelo à juventude

Dirigindo-se particularmente aos jovens presentes no auditório, Salim Valá fez um apelo para o fortalecimento dos hábitos de leitura, classificando-os como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento humano e intelectual. “Leiam. Leiam sempre que puderem. Leiam os nossos autores. Leiam Moçambique. Leiam o mundo”, exortou.

Segundo afirmou, a leitura continua a ser uma das formas mais eficazes de ampliar horizontes, desenvolver pensamento crítico e compreender a diversidade de experiências humanas. O governante defendeu igualmente que famílias, escolas, universidades, bibliotecas e instituições públicas assumam um papel mais activo na promoção da leitura e da produção literária nacional.

“Cada livro que nasce é uma porta que se abre. Cabe-nos atravessar essa porta, pensar mais, dialogar mais e valorizar mais os nossos autores”, declarou.

Um livro sobre transformação

A obra Metamorfoses da Terra, de Victor Máquina, foi apresentada como uma reflexão sobre as mudanças que moldam os territórios, as comunidades e as identidades humanas.

Ao comentar o conteúdo da publicação, Salim Valá considerou que o livro surge num momento oportuno, ao convidar os leitores a reflectirem sobre a relação entre as pessoas e a terra que habitam, bem como sobre os processos de mudança social, económica e cultural que marcam o Moçambique contemporâneo.

“Este livro deixa de pertencer apenas ao seu autor. Passa agora a pertencer aos leitores, à sociedade e ao património literário e cultural de Moçambique”, concluiu.

Ao encerrar a cerimónia, o ministro felicitou Victor Máquina pela publicação da obra e manifestou o desejo de que o livro encontre leitores atentos, críticos e sensíveis, capazes de transformar a leitura em reflexão sobre o presente e o futuro do país.

Mais do que um lançamento literário, o evento acabou por transformar-se numa reflexão sobre o papel da cultura na construção da nação. Numa sociedade frequentemente absorvida pelos debates económicos e políticos do momento, a mensagem de Salim Valá foi clara: o desenvolvimento precisa de estradas e investimentos, mas também de livros, memória, pensamento e identidade.

Deixe uma resposta