Jornalismo ao pormenor

Salim Valá defende industrialização verde para dinamizar  “independência económica” no País

Ministro da Planificação e Desenvolvimento diz que Moçambique deve deixar de ser apenas exportador de matérias-primas e assumir protagonismo na nova economia global

Durante a intervenção, nesta sexta-feira, no workshop final do programa “Green Manufacturing in Mozambique”, que decorre em Maputo, o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Cripton Valá, defendeu que Moçambique deve posicionar-se como protagonista da nova revolução industrial verde global, apostando numa estratégia centrada na industrialização sustentável, agregação de valor aos recursos naturais e atracção de investimento estrangeiro estruturante.

Na intervenção, acompanhada por representantes diplomáticos, parceiros internacionais, académicos, sociedade civil e sector privado, Salim Valá apresentou uma visão económica de longo prazo assente na transformação estrutural da economia moçambicana, defendendo que a industrialização verde deve tornar-se o principal motor da independência económica nacional.

Segundo o governante, o país precisa abandonar definitivamente o papel de simples exportador de matérias-primas e passar a integrar cadeias globais de valor acrescentado.

Governo quer transformar recursos naturais em indústria e empregos

O ministro explicou que o conceito de industrialização verde não se resume apenas à protecção ambiental, mas sim à criação de uma economia moderna, competitiva e preparada para as novas exigências globais.

Segundo Valá, o objectivo passa por reduzir a dependência externa, transformar localmente os recursos naturais, criar empregos qualificados e inserir Moçambique nas cadeias globais emergentes ligadas à energia limpa, mobilidade eléctrica, inovação industrial e sustentabilidade.

“O mundo está a reposicionar-se”, declarou o ministro, acrescentando que economias como Marrocos, Ruanda, Indonésia e África do Sul já compreenderam que a transição energética representa uma oportunidade económica histórica.

Na visão apresentada pelo Governo, Moçambique reúne condições únicas para beneficiar desta transformação devido à combinação de recursos energéticos, minerais críticos e posição geográfica estratégica.

Estratégia nacional orienta visão até 2044

Durante a intervenção, Salim Valá destacou que a industrialização verde está alinhada aos principais instrumentos de planificação pública do país, nomeadamente a Estratégia Nacional de Desenvolvimento (ENDE) 2025-2044; o Programa Quinquenal do Governo (PQG) 2025-2029; o Plano Económico e Social e Orçamento do Estado (PESOE 2026).

Segundo o ministro, estes instrumentos representam um compromisso nacional com a diversificação económica, criação de emprego, redução da pobreza e independência económica.

Valá fez questão de sublinhar que a visão do Governo não é “abstracta ou idílica”, mas sim um compromisso concreto de transformação económica.

Moçambique enfrenta desaceleração económica e pressões externas

Na análise do contexto económico, o ministro reconheceu que Moçambique continua vulnerável a choques internacionais, desaceleração económica global, conflitos geopolíticos e eventos climáticos extremos.

O governante revelou que o Produto Interno Bruto registou uma contracção de 0,52% em 2025, apesar da recuperação observada posteriormente, após quatro trimestres consecutivos de desaceleração económica.

Além disso, o Executivo prevê rever em baixa algumas projecções económicas devido às cheias registadas em Janeiro de 2026 e aos impactos da actual guerra no Médio Oriente.

Ainda assim, o Governo projecta uma recuperação gradual da economia entre 2026 e 2028, impulsionada por reformas estruturais, estabilização macroeconómica e desenvolvimento de sectores estratégicos.

Governo aposta em reformas estruturais para atrair investimento

Na sua intervenção, Valá destacou um conjunto de reformas consideradas essenciais para melhorar o ambiente de negócios e reforçar a soberania económica nacional.

Entre elas estão o pacote de descentralização; o Diálogo Nacional Inclusivo; a Lei do Conteúdo Local; a revisão das Leis de Minas e Petróleo; a Estratégia Nacional de Financiamento Climático 2025-2034; o Plano de Recuperação e Crescimento Económico (PRECE) 2025-2029.

Segundo o ministro, estas medidas procuram fortalecer a capacidade produtiva nacional, melhorar a integração económica interna e assegurar que os recursos naturais gerem benefícios concretos para a população.

O Executivo pretende ainda mobilizar 37,2 mil milhões de dólares para projectos de resiliência climática e baixa emissão de carbono, bem como 2,75 mil milhões de dólares através do PRECE para apoiar a recuperação económica.

Energia, grafite e localização geográfica vistos como vantagens estratégicas

Um dos pontos centrais do discurso foi a defesa das vantagens competitivas de Moçambique na nova economia verde global. Valá destacou que o país possui elevado potencial hidroeléctrico; reservas significativas de gás natural; forte capacidade para energia solar e eólica; grafite de alta qualidade e outros minerais críticos; localização estratégica para acesso aos mercados da África Austral.

Segundo o governante, estes factores podem transformar Moçambique num centro regional de indústrias verdes e de cadeias ligadas à produção de baterias, mobilidade eléctrica e energia limpa.

Mobilidade eléctrica e agro-indústria entre prioridades

O ministro revelou ainda que o Governo está a estudar oportunidades concretas em sectores considerados prioritários para a industrialização verde.

Entre eles destacam-se a produção de autocarros eléctricos; motorizadas eléctricas adaptadas às cidades moçambicanas; infra-estruturas de carregamento; agro-indústria sustentável; produção de fertilizantes verdes; hidrogénio verde; reciclagem e economia circular; construção sustentável e eficiência energética.

Segundo Valá, estas áreas possuem potencial para gerar emprego qualificado, reduzir dependência de combustíveis fósseis importados e inserir jovens moçambicanos em sectores tecnológicos e industriais modernos.

 

Juventude colocada no centro da nova estratégia económica

Ao longo da intervenção, o ministro insistiu várias vezes que a industrialização verde deve beneficiar sobretudo a juventude moçambicana.

Para isso, defendeu maior investimento em formação técnico-profissional; empreendedorismo verde; integração dos jovens em cadeias industriais inovadoras; inclusão económica de mulheres e pequenas empresas.

O governante afirmou que os sectores verdes podem criar empregos mais qualificados e melhor remunerados, sobretudo nas áreas de engenharia, gestão ambiental, tecnologia e serviços industriais.

Governo promete acelerar execução e reduzir burocracia

Apesar do optimismo, Valá reconheceu que o país enfrenta desafios significativos relacionados com burocracia, financiamento, infra-estruturas e previsibilidade regulatória.

O ministro afirmou que o Executivo pretende melhorar o ecossistema de investimento através de simplificação administrativa; maior coordenação institucional; expansão de infra-estruturas energéticas e logísticas; criação de instituições financeiras de desenvolvimento.

Neste âmbito, destacou a criação do Fundo de Recuperação Económica, do Fundo de Desenvolvimento Económico Local, do Fundo de Garantia Mutuária e os planos para criação do Banco de Desenvolvimento de Moçambique.

Segundo explicou, estas estruturas deverão apoiar micro, pequenas e médias empresas e financiar projectos estruturantes.

“Moçambique escolheu ser protagonista”

Na parte final do discurso, Salim Valá afirmou que o país enfrenta uma escolha histórica: tornar-se espectador ou protagonista da nova revolução industrial verde.

“Escolhemos ser protagonistas”, declarou o governante. O ministro concluiu defendendo que Moçambique possui visão estratégica, instrumentos de implementação, parceiros internacionais e recursos necessários para avançar rumo à industrialização sustentável.

Para o Executivo, o grande desafio agora será transformar planos e estratégias em resultados concretos capazes de gerar empregos, riqueza e independência económica para os moçambicanos.

Deixe uma resposta