
Por Damião Cumbane
Nos dias que correm, é comum ouvir discursos, ler artigos nos quais os jovens são apelados a trabalharem arduamente, para sairem da penúria, como se nada estivessem a fazer ou, como se estivessem a fazer muito pouco.
Ora, se trabalhar arduamente é a primeira premissa para os jovens sairem da pobreza, porque é que esses mesmos dirigentes não colocam os seus filhos à frente dessas iniciativas?
Nos dias que correm, todos os dirigentes encaixam os seus filhos nas oportunidades que o Estado cria.
Nos dias que correm, todos os dirigentes colocam os seus filhos nas Empresas Públicas, Fundos Públicos, Institutos Públicos, Ministérios e outras entidades criadas pelo Estado.
Em todas estas instituições, assim que há oportunidades ou vagas, primeiro encaixam os seus filhos que, depois de começarem a trabalhar, os respectivos dirigentes engendram Concursos Públicos de ingresso de fachada, cuja finalidade é tão simplesmente regularizar a situação dos seus filhos, que já estão em exercício.
Nesses Concursos Públicos de Ingresso ou seja, de fachada, os pobres jovens que não têm ninguém, gastam tempo e dinheiro para organizar os documentos que são exigidos para que alguém tome parte nesses concursos, depois levam dias ou semanas a prepararem-se, estudando as matérias temáticas a serem objecto de exame, nesses exames de fachada, estressam centenas, senão milhares de jovens, pela expectativa que lhes criam, de virem ocupar uma das vagas para as quais concorrem, vagas essas que, efectivamente, já têm donos e, esses donos já estão a trabalhar.
Depois disso tudo, os mesmos dirigentes que optaram por arranjar um lugar à sombra para os seus filhos, familiares e outros eleitos, depois vêm à praça pública para gritarem discursos de empreedorismo em iniciativas nas quais, salvas excepções, são distribuídas quantias irrisórios, nalguns casos, verdadeiramente miseráveis, com os quais no imaginário desonesto desses mesmos dirigentes, querem que, a partir deles, nasçam empresários.
Se ser empresário ou empreendedor fossem tão simples como os discursos políticos transparecem, os nosos dirigentes não lutariam para enquadrar os seus filhos nas oportunidades que o Estado cria.
Seriam eles a transformar os seus filhos em empresários.
Quem não gosta de ter um filho empresário? Qual é a família que não quer empreendedores e empresários, no seu seio?
Se ser empresário é tão simples como os discursos políticos transparecem, porque é que os filhos dos nosos dirigentes hão-de ficar nas instituições do Estado, na bicha, à espera do salário que o Estado paga?
O empreendedorismo é necessário sim, mas ele não deve ser um refúgio para ocultar a essência do problema.
Seria de louvar se os nossos dirigentes, tal como não põem os seus filhos no Ensino Público, tal como não usas o Serviço Público de Saúde, igualmente, não se preocupassem muito em disputar desonestamente, as oportunidades que as Entidades Públicas oferecem ou, se colocaram os seus filhos para estudarem em escolas privadas ou no estrangeiro, onde a qualidade de ensino é outra, seria bom que esses bons conhecimentos adquiridos em boas escolas, fossem postos à prova, colocando todos eles, à par dos demais jovens a concorrerem, em pé de igualdade, as oportunidades que o Estado cria ou oferece.
Seria bom exemplo que os nossos dirigentes colocassem esses 40 ou 50.000,00 nas mãos dos seus próprios filhos e, fossem eles a ensinar aos demais jovens, como é que se gerem aquelas quantias, até alguém ser um empreendedor de sucesso. É sempre bom ensinar pelo exemplo.
Tenha-se em atenção que esses mesmos dirigentes raramente enquadram os seus filhos nas Empresas Privadas pois, lá, não basta entrar. É preciso trabalhar, suar a valer, provar ao patrão que sabe, obedecer a horários entre outras exigências.
Poucos vão ao privado.
Preferem instituições do Estado onde chegam 7,30 horas ou seja, na hora em deviam iniciar a atender o público, estão a chegar. Meia hora depois vão tomar chá que dura uma hora, depois têm de ir à reunião política fora do Ministério e, o dia laboral terminou.
Os que ficam, as 12,00 horas vão ao almoço, as 13,00 horas saiem para irem espreitar as lojas das redondezas, as 15,00 já não aceitam atender qualquer pessoa porque já está quase na hora. As 15,30 horas já está no machimbombo ou no carro particular. O dia laboral já terminou.
Aqui fica a questão:
Porque é que todos os nossos dirigentes lutam para enquadrar os seus filhos, à margem da lei, nas oportunidades que o Estado cria, depois vêm a público empurrar com discursos, os filhos dos outros para onde nunca levam os seus próprios filhos?