Jornalismo ao pormenor

Paridade na escola não basta para preparar o País

 Bernardo Soares

Moçambique está cada vez mais próximo de alcançar a paridade de género no acesso à educação. Sucede que  à medida que essa barreira vai sendo ultrapassada, a pergunta que se impõe ao país já não é apenas quantas raparigas estão na escola. É o que a escola está realmente e o significado para o futuro de Moçambique.

Segundo dados apresentados pelo Presidente da República, Daniel Chapo, na VIII Conferência Nacional sobre Mulher e Género, realizada esta quarta-feira, 9 de Setembro, em Maputo, o Sistema Nacional de Educação contabilizou, em 2025, cerca de 9,7 milhões de alunos, dos quais 49,4% eram mulheres.

Numa publicação feita esta quinta-feira na página do Facebook do Gabinfo, o dado é apresentado como sinal de que “Moçambique aproxima-se da paridade no acesso à educação”.

É, sem dúvida, um avanço importante. Mas, deve ser  um ponto de partida para uma discussão mais exigente.

Se praticamente metade dos alunos do país são raparigas, a política pública precisa de olhar para além da matrícula. A questão passa agora pela permanência, aprendizagem, conclusão dos diferentes níveis de ensino e, sobretudo, pela transição da escola para uma economia que precisa de competências.

A paridade numérica pode esconder desigualdades que aparecem mais tarde: quem conclui o ensino secundário? Quem chega ao ensino técnico e profissional? Quantas jovens entram nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática? Quantas conseguem transformar a formação em emprego, negócio ou rendimento? E que qualidade de ensino está efectivamente a ser recebida nas escolas urbanas e rurais?

Estas perguntas são particularmente importantes para um país com uma população jovem e com necessidades crescentes em sectores como agricultura, energia, construção, indústria, tecnologia, saúde, transportes e logística.

O desafio, portanto, está a mudar de natureza.

Durante muito tempo, uma das grandes batalhas foi colocar as crianças- e particularmente as raparigas – dentro da escola. Agora, a ambição deve ser garantir que a escola produz conhecimento, competências e oportunidades compatíveis com o país que Moçambique pretende construir.

Os próprios números apresentados pelo Presidente sugerem que educação, género, saúde e protecção social não podem continuar a ser tratados como áreas isoladas. Em 2025, o país atingiu 90,7% de cobertura de partos institucionais e mais de 500 mil agregados familiares foram abrangidos por programas regulares de assistência social, dos quais cerca de 360 mil eram chefiados por mulheres.

São indicadores relevantes. Mas também deixam transparecer uma questão de política pública: como transformar maior acesso a serviços em maior autonomia económica?

No caso da educação, isso significa medir não apenas quantas raparigas entram na escola, mas também aquilo que acontece depois da escola.

Uma política educacional orientada para os próximos 10 ou 20 anos deveria conseguir responder a perguntas muito concretas: que profissionais Moçambique vai precisar? Que competências devem ser reforçadas? Como aproximar o ensino técnico das necessidades das empresas? Como preparar jovens para a economia digital? Como aumentar a participação feminina nas áreas tradicionalmente dominadas por homens? E como impedir que a pobreza, a violência ou a gravidez precoce interrompam percursos escolares?

A paridade de 49,4% é, neste sentido, uma boa notícia. Mas seria um erro transformar esse número numa espécie de ponto de chegada.

O verdadeiro indicador de sucesso será saber se esses milhões de alunos estão a sair da escola mais preparados para produzir, empreender, inovar, trabalhar e participar na transformação do país.

Moçambique pode estar próximo da paridade no acesso à educação. O próximo desafio é garantir paridade na qualidade, nas competências e nas oportunidades.

É aí que a educação começa realmente a responder ao futuro do país.

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