Jornalismo ao pormenor

Moçambique aposta na manufactura verde para mobilizar 3 mil milhões USD e acelerar industrialização até 2044

Governo e Reino Unido alinham estratégia para transformar cadeias de valor prioritárias em motores de investimento, emprego e crescimento económico sustentável

O Governo de Moçambique e o Reino Unido estão a avançar com uma nova estratégia de industrialização e crescimento económico que pretende transformar sectores prioritários da economia nacional em plataformas concretas de atracção de investimento estrangeiro, geração de emprego e diversificação produtiva. A iniciativa surge no âmbito do projecto “Green Manufacturing Africa para Moçambique”, integrado no “Pacto para o Crescimento Inclusivo”, assinado em Janeiro deste ano entre os dois países.

O plano estabelece uma ambição clara: mobilizar três mil milhões de dólares americanos em investimentos de empresas britânicas nos próximos quatro anos, direccionados para sectores estratégicos como transição energética, agro-negócio, mineração, manufactura verde, comércio, digitalização, logística e serviços.

A iniciativa representa uma tentativa de romper com o modelo económico excessivamente dependente da extracção de recursos naturais, apostando numa industrialização baseada em cadeias de valor, transformação local e integração regional.

De diagnósticos a projectos financiáveis
O projecto Green Manufacturing Africa foi desenhado para converter relatórios e estratégias anteriormente produzidos em acções concretas e executáveis. O foco está na identificação de oportunidades reais de Investimento Directo Estrangeiro (IDE), removendo obstáculos institucionais e criando condições para transformar potencial económico em investimentos efectivos.

 

O principal objectivo é estruturar projectos prioritários com capacidade de atrair financiamento internacional, ao mesmo tempo que se reforça a coordenação institucional e a liderança operacional necessária para garantir execução efectiva.

O relatório consolidado das cadeias de valor prioritárias parte de uma conclusão central: Moçambique dificilmente alcançará as metas de crescimento económico até 2044 sem uma aceleração substancial do investimento em sectores não extractivos.

Os especialistas envolvidos no projecto defendem que o IDE deve deixar de ser apenas um complemento económico para passar a funcionar como instrumento central de transformação produtiva.

Foco em  vantagem competitiva
As cadeias de valor seleccionadas foram escolhidas com base em quatro critérios principais: alinhamento institucional, interesse de investidores, dimensão da oportunidade económica e vantagens competitivas defensáveis de Moçambique.

Entre os sectores priorizados está o turismo, visto como uma oportunidade de rápida tracção económica. O modelo proposto aposta num turismo premium e de luxo, de baixo volume e alto valor, explorando a combinação entre costa marítima, áreas de conservação e baixa saturação turística.

A estratégia pretende posicionar Moçambique como destino exclusivo para investidores e operadores internacionais, sobretudo em zonas onde já existe confiança empresarial consolidada.

No sector agro-industrial, os óleos alimentares aparecem como prioridade estratégica, particularmente através da trituração doméstica de soja. O objectivo é reduzir importações de óleo bruto, fortalecer a capacidade industrial interna e abastecer mercados regionais.

O algodão também surge como aposta relevante, especialmente na reconstrução da indústria têxtil nacional. A proposta passa pela criação de capacidade de fiação e confecção de equipamentos de protecção individual (EPI) e uniformes, segmentos considerados mais viáveis para capturar valor acrescentado e gerar emprego industrial.

Na cadeia do arroz, a prioridade está ligada à elevada dependência de importações e à crescente preferência dos consumidores pelo produto local. O relatório considera que a integração vertical da cadeia poderá tornar a produção nacional mais competitiva.

Já o caju é apontado como uma das cadeias agro-industriais mais atractivas para investimento, devido ao volume de produção existente e à possibilidade de substituir exportações de castanha em bruto por processamento local de amêndoa crua.

De Megaprojectos industriais à visão de longo prazo
Além das cadeias de valor de curto e médio prazo, o documento propõe uma segunda linha estratégica centrada em grandes projectos industriais estruturantes.

Entre as oportunidades identificadas estão projectos de produção de fertilizantes de ureia, metanol, vidro, processamento de grafite e transformação de alumínio.

A aposta nestes sectores procura aproveitar as vantagens naturais e energéticas do país para desenvolver uma base industrial mais sofisticada e integrada.

Especialistas envolvidos no projecto consideram que estas iniciativas poderão transformar Moçambique num polo regional de manufactura e processamento industrial, caso sejam criadas condições estáveis de governação, infra-estruturas e segurança jurídica para investidores.

Novo modelo de governação quer evitar falhas de coordenação
Um dos aspectos centrais dos dados apurados durante o workshop é a proposta de um novo modelo de governação e implementação do programa.

Os dados  reconhecem que muitos projectos estratégicos em Moçambique acabam bloqueados por problemas institucionais, lentidão administrativa e falta de coordenação entre sectores do Estado.

Para responder a esse desafio, os dados  propõe uma arquitectura operacional assente em três linhas principais, nomeadamente desbloqueio de oportunidades de IDE de curto prazo; preparação de grandes projectos âncora; reforço do ecossistema facilitador de investimento.

A intenção é criar mecanismos permanentes de acompanhamento, definição clara de responsabilidades e monitoria de resultados.

Workshop final reúne Governo e Reino Unido em Maputo
Como parte deste processo, o Ministério da Planificação e Desenvolvimento (MPD), em parceria com o Alto Comissariado Britânico, realizou esta sexta-feira, 15 de Maio, o workshop  do programa “Green Manufacturing in Mozambique”, nas Torres Rani, em Maputo.

O encontro contou com a participação do Ministro da Planificação e Desenvolvimento, da Alta-Comissária Britânica, representantes governamentais, investidores e actores ligados ao ecossistema económico e industrial.
O workshop teve como foco principal a apresentação do relatório da Estratégia de Desenvolvimento Económico; diagnóstico do ecossistema de IDE; apresentação das cadeias de valor prioritárias; exposição de cinco casos de investimento considerados de elevado potencial; discussão do plano de acção para implementação contínua da estratégia.

O eventderofundarou, igualmente, a visão sobre o modelo de governação proposto e identificou iniciativas prioritárias para transformar oportunidades identificadas em investimentos concretos.

Industrialização volta ao centro do debate económico
O projecto surge num momento em que Moçambique enfrenta pressão crescente para diversificar a economia, reduzir vulnerabilidades externas e criar empregos sustentáveis para uma população jovem em rápido crescimento.

O sucesso da estratégia dependerá não apenas da capacidade de atrair investidores, mas sobretudo da habilidade do Estado em garantir estabilidade regulatória, infra-estruturas, energia competitiva e capacidade institucional.

O desafio agora será transformar planos, relatórios e intenções políticas em fábricas, cadeias produtivas e empregos concretos capazes de alterar estruturalmente a economia nacional.

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