Jornalismo ao pormenor

Kenmare ameaça arbitragem internacional e Governo mantém posição no conflito sobre benefícios da exploração mineral

Recursos Minerais

Executivo diz estar disponível para negociar, mas garante que não recuará na defesa do interesse nacional. Empresa mantém direito de recorrer a tribunais internacionais.

O conflito entre o Governo moçambicano e a Kenmare Resources, uma das maiores empresas mineiras a operar no país, entra numa nova fase depois de a empresa admitir recorrer à arbitragem internacional devido ao diferendo relacionado com taxas, benefícios fiscais e revisão do acordo de implementação.

Falando esta terça-feira, após a sessão do Conselho de Ministros, o porta-voz do Governo, Inocêncio Impissa, procurou afastar a ideia de uma ruptura nas relações entre o Executivo e a multinacional irlandesa, defendendo que o recurso à arbitragem constitui uma prerrogativa prevista nos instrumentos legais aplicáveis.

 “Eu acho que não é ameaça. É uma prerrogativa da Kenmare. A Kenmare tem a prerrogativa, em caso de não concordar, recorrer à arbitragem internacional”, afirmou.

A declaração surge numa altura em que permanecem divergências sobre os termos económicos da exploração mineral, particularmente no que diz respeito ao aumento de taxas, revisão de benefícios fiscais e prolongamento do acordo de implementação.

Governo diz defender interesse nacional

Segundo Inocêncio Impissa, a posição do Executivo mantém-se inalterada: garantir que a exploração dos recursos naturais produza maiores benefícios para Moçambique.

 “A nossa obrigação é proteger os seus bens, os bens das suas populações, valorizar os produtos das suas populações, aceitar que os negócios aconteçam, mas que a boa-fé prevaleça”, afirmou.

O Governo sustenta que a sua posição não pretende inviabilizar o investimento privado, mas assegurar uma repartição considerada mais equilibrada dos benefícios provenientes dos recursos naturais.

A Kenmare, por sua vez, considera que as alterações propostas pelo Executivo podem afectar as condições económicas do projecto e os compromissos assumidos anteriormente.

Arbitragem: solução jurídica ou sinal de tensão?

Embora o Governo minimize o significado da possibilidade de arbitragem, o recurso a um tribunal internacional representa sempre um momento sensível na relação entre um Estado e um investidor estrangeiro.

A arbitragem internacional é frequentemente utilizada quando as partes não conseguem alcançar consenso através da negociação directa, permitindo que uma entidade independente analise o diferendo.

No entanto, para um país como Moçambique, que procura atrair investimento estrangeiro para sectores estratégicos, conflitos desta natureza colocam desafios sobre a necessidade de equilibrar soberania económica, segurança jurídica e estabilidade dos investimentos.

 

Mais de duas décadas de exploração e novas exigências

A Kenmare opera no país através do projecto de areias pesadas de Moma, na província de Nampula, considerado um dos maiores investimentos mineiros em Moçambique.

Ao longo dos anos, o projecto contribuiu para exportações e receitas fiscais, mas também alimentou debates sobre a proporção dos benefícios que permanecem no país face ao valor dos recursos extraídos.

O actual diferendo surge num momento em que Moçambique procura rever a forma como gere os seus recursos naturais, num contexto marcado pela pressão social para que a exploração mineira tenha maior impacto no desenvolvimento local.

Negociação continua em aberto

Apesar da tensão, o Governo afirma que continua aberto ao diálogo. Segundo o porta-voz do Executivo, Moçambique mantém a mesma posição apresentada anteriormente e aguarda uma reacção da empresa.

“Pela boa-fé, o Governo continua aberto a negociar para garantir que o interesse nacional seja garantido, sem pôr em causa o negócio que esteja a ocorrer”, disse.

Enquanto as partes procuram uma solução, permanece a questão central: como garantir que o país continue atractivo para investidores, sem comprometer o direito de beneficiar de forma justa dos seus próprios recursos naturais? Lupa News

Deixe uma resposta