Jornalismo ao pormenor

Entre a sobrevivência e a vulnerabilidade

O preço oculto da migração moçambicana

Por Bernardo Soares

A violência xenófoba na África do Sul volta a expor não apenas um problema de segurança, mas uma dependência estrutural de Moçambique da migração laboral e a ausência de alternativas económicas consistentes para milhares de famílias.

A morte de sete cidadãos moçambicanos na South Africa e o regresso forçado de mais de 800 compatriotas não pode ser lido apenas como mais um episódio trágico de violência xenófoba. O que se passou em Mossel Bay é também um espelho desconfortável de uma realidade mais profunda: a forma como a economia de Moçambique continua dependente de uma migração laboral que, ao mesmo tempo que sustenta famílias, expõe vidas à instabilidade permanente.

Há décadas que milhares de moçambicanos atravessam a fronteira em busca de trabalho na África do Sul. Tornou-se quase uma extensão natural das estratégias de sobrevivência familiar, especialmente nas províncias do sul e centro do país. Mas essa normalização esconde uma fragilidade estrutural: o facto de a sobrevivência de muitas famílias depender de contextos externos sobre os quais Moçambique tem pouco ou nenhum controlo.

Os acontecimentos recentes em Mossel Bay voltam a comprovar essa vulnerabilidade de forma crua. Não apenas pela violência que resultou em mortes, mas pela rapidez com que centenas de pessoas foram forçadas a abandonar vidas construídas ao longo de anos, regressando a um país que, muitas vezes, não oferece alternativas imediatas de absorção económica.

O mais preocupante não é apenas o episódio em si, mas o seu carácter recorrente. A xenofobia na África do Sul não é nova, nem episódica no sentido estritamente isolado. Ela surge em ondas, alimentada por tensões sociais internas, desemprego e narrativas de exclusão que acabam por atingir, quase sempre, os mais vulneráveis: trabalhadores migrantes africanos.

Perante isto, a resposta tende a repetir-se: acompanhamento consular, assistência humanitária, repatriamento e declarações de acompanhamento da situação. São medidas necessárias, mas insuficientes quando confrontadas com a dimensão estrutural do problema.

O que este episódio obriga a colocar em cima da mesa é uma questão mais incómoda: até que ponto Moçambique pode continuar a depender de um modelo económico informal baseado na exportação de mão-de-obra?

As remessas enviadas pelos trabalhadores no exterior são, para muitas famílias, uma tábua de salvação. Sustentam educação, alimentação e despesas básicas. Mas essa mesma tábua está assente num terreno instável, onde a segurança do trabalhador depende de dinâmicas sociais e políticas de outro país.

A crise de Mossel Bay não é apenas um problema diplomático ou de segurança consular. É um problema de desenvolvimento. Revela a falta de alternativas económicas internas suficientemente robustas para reduzir a pressão migratória, e expõe a fragilidade de um sistema em que a mobilidade humana substitui, em parte, políticas estruturais de emprego e produção.

O regresso forçado de centenas de cidadãos coloca agora outro desafio: o da reintegração. Não basta acolher. É preciso absorver. E essa capacidade é limitada, sobretudo em contextos rurais onde o emprego formal é escasso e a economia familiar já opera no limite.

Há ainda um outro elemento que não pode ser ignorado: a previsibilidade da instabilidade. Quando grupos anti-imigrantes anunciam prazos para a saída de estrangeiros, como referido pelas autoridades, não estamos apenas perante violência espontânea, mas diante de sinais de uma pressão social que pode escalar e repetir-se.

Neste cenário, a pergunta central permanece sem resposta clara: o que acontece quando o principal “motor de sobrevivência” de milhares de famílias se torna, ao mesmo tempo, um dos seus maiores fatores de risco?

Talvez o debate precise de sair da lógica da reação e entrar na lógica da transformação. Menos dependência externa, mais criação de alternativas internas. Menos normalização da vulnerabilidade migratória, mais políticas que encarem a migração não como destino inevitável, mas como escolha num sistema de oportunidades reais.

Enquanto isso não acontece, histórias como a de Mossel Bay continuarão a repetir-se — com nomes diferentes, mas com o mesmo enredo: trabalho, deslocação, vulnerabilidade e regresso forçado.

Deixe uma resposta