
Primeiro dia do mês de Julho. Madrugo. Ativo, e altivo. Julho tem suas excentricidades. por exemplo, gosto do amanhecer e do sol do dia 27. Não compreendo e gosto de todo Julho. Quero suavizar o meu espírito, a minha alma, o meu adentro, dentro de mim. Há tanto tempo que não me esvazio: que não escrevo; que não desabafo como a alma implora. Há tanto tempo que não me descarrego. Na metrópole estou constantemente prestes a venda. Hoje quero me sentir. Quero viver. Clico no som. Nada mais, nada menos que Dolly Parton. É uma voz facilmente reconhecível. É nesta madrugada que hei-de escutar a composição Jolene da voz vulnerável de Dolly Parton e ficarei, confesso, vulnerável.
Desta vez não é o esvaziante Frank Sinatra; não é o reconfortante Bob Dylan; nem o espiritual Johnny Cash. É Dolly Parton.
Não estou nas terras sossegadas de Irregel ou de Namunho em Migano onde numa duna ladeada de mangal, campos de arroz e vilarejos completaria a urgia de viver a magia de Dolly Parton. Estou na metrópole algures no mamilo da cidade – onde, por exemplo, ao longo da Avenida Eduardo Mondlane a cidade se veste, se excita, se despe, se esvazia. Não faz mal. É madrugada. Nos intervalos intercalados do silêncio vou ouvindo a voz icónica de Dolly Parton.
Em Jolene, provavelmente música mais famosa da artista, Dolly Parton implora Jolene para não levar seu homem.
“Jolene, Jolene, Jolene, Jolene.”
“I’m begging of you, please dont’ take my man.”
Um pouco depois: “Please don’t take him just because you can.’
Nestes depoimentos Dolly Parton pede de joelhos a Jolene para não tomar o homem dela. E implora avançando que não a leve só porque ela pode.
Escuto. Tonto com a suruma que nunca fumei. Mesmo a do bairro cololo nas loucuras da adolescência. Dolly, uma criatura brutalmente linda, reconhece que Jolene é mais linda que ela. Está derrubada por dentro. Aqui acontece uma pintura expressa e profunda da fraqueza, incapacidade e vulnerabilidade humana. Tomará que o mestre José Norberto pinte. Como uma mulher de olhos penetrantes e uma beleza própria dos céus pode reconhecer incapacidade e vulnerabilidade diante de outra criatura? Há aqui uma mistura rara e linda de pureza e fraqueza de espírito humano. Um elemento extraordinariamente rico.
Há também um outro elemento. Dolly Parton não ataca o homem. Implora a mulher: Your beauty is beyond compare/With ivory skin and eyes of emerald green/Your smile is soft like summer rain/And I cannot compete with you, Jolene.
Aqui a artista. Ou, se quisermos usar disfarce- a personagem, descreve Jolene mencionando traços de beleza que superam o normal, o natural, o humano e termina de forma avassaladora: ” Eu não posso competir com você, Jolene.”
Segue-se a parte dura. Insuportável. Inconsolável. Inaceitável. Infelizmente possível: He talks about you in his sleep/And there’s nothing I can do to keep from crying/When he calls your name, Jolene.
Dolly Parton vai confessar que compreende facilmente como Jolene poderia levar o homem da Dolly. Vai igualmente sublinhar que Jolene não sabe o que o homem em causa significa para Dolly. Implora a que não tome aquele homem simplesmente porque pode; que Jolene poderia ter a escolha que quisesse. Mas a Dolly nunca poderia amar novamente.
Nos momentos finais da música Dolly Parton canta que para qualquer coisa que Jolene decida fazer, tinha que ter esta conversa. Que a felicidade dela depende da Jolene. Implora, outra vez, que a Jolene não tome aquele homem.
A escuridão vai caindo lentamente enquanto fumo o resto da obra de Dolly Parton – minha suruma da madrugada.
Quarta-feira (01 de Julho), Bairro Central, Maputo