
Organização reforça aposta em parcerias com Governo, setor privado e sociedade civil para ampliar o impacto dos programas de proteção, fortalecimento familiar e resposta humanitária.
A Aldeias de Crianças SOS Moçambique quer alcançar cerca de 500 mil crianças até 2028, uma meta considerada ambiciosa pela própria organização, mas que reflete a dimensão dos desafios que afetam milhares de menores em todo o país.
O objetivo foi apresentado pelo Diretor Nacional da instituição, Gerson Machevo, nesta terça-feira (30 de Junho) durante a abertura do workshop de apresentação do Plano Estratégico 2024-2028, num encontro que reuniu representantes do Governo, organizações da sociedade civil, parceiros de desenvolvimento e setor privado.
Mais do que a divulgação de um documento institucional, o evento serviu para lançar um apelo à construção de alianças capazes de responder às múltiplas vulnerabilidades que continuam a afetar crianças e famílias moçambicanas.“O centro deste plano ambicioso são cerca de 500 mil crianças a serem cobertas e apoiadas pelos nossos programas. É uma meta muito ambiciosa, mas não esperamos fazê-lo sozinhos. Esperamos fazer juntos”, afirmou Machevo.
Uma missão que nasceu da guerra e continua atual
Ao recordar as origens da organização, o Diretor Nacional explicou que o movimento SOS surgiu em 1949, na Europa, em resposta à crise humanitária provocada pela Segunda Guerra Mundial, que deixou milhares de crianças órfãs ou separadas das suas famílias.
A proposta consistia em criar ambientes familiares seguros onde as crianças pudessem crescer com proteção, acesso à educação, alimentação e apoio emocional.
Em Moçambique, a organização iniciou a sua intervenção em 1987, na província de Tete, durante os anos mais difíceis do conflito armado que marcou o país após a independência. Na época, milhares de crianças encontravam-se deslocadas, sem abrigo ou privadas de cuidados familiares adequados. A destruição de infraestruturas, a precariedade dos serviços sociais e as dificuldades de acesso à educação e saneamento agravavam ainda mais a situação.
Quase quatro décadas depois, embora os desafios tenham mudado de natureza, continuam a existir fatores que colocam milhares de crianças em situação de risco.
Cabo Delgado, eventos climáticos e pobreza mantêm pressão sobre os sistemas de proteção
Nos últimos anos, Moçambique tem enfrentado sucessivas crises humanitárias. O conflito armado em Cabo Delgado provocou deslocamentos em larga escala, afetando comunidades inteiras e expondo crianças a riscos acrescidos de violência, separação familiar e interrupção escolar.
Ao mesmo tempo, ciclones, cheias e secas recorrentes continuam a comprometer os meios de subsistência de milhares de famílias, aumentando a vulnerabilidade económica e social.
Organizações que trabalham na área da infância alertam que a combinação entre pobreza, deslocamentos forçados, insegurança alimentar e acesso limitado a serviços básicos cria um ambiente particularmente desafiante para o desenvolvimento infantil.
É neste contexto que a SOS pretende reforçar os seus programas de fortalecimento familiar, cuidados alternativos, empoderamento juvenil e apoio comunitário. Atualmente, a organização está presente nas províncias de Maputo, Sofala, Manica, Inhambane, Tete e Cabo Delgado.
Do modelo das aldeias à intervenção comunitária
Embora seja amplamente conhecida pelas aldeias infantis que acolhem crianças privadas de cuidados parentais, a SOS tem vindo a expandir a sua atuação para além deste modelo.
Segundo Machevo, a organização trabalha cada vez mais em parceria com organizações comunitárias, plataformas de proteção infantil e redes da sociedade civil, procurando fortalecer famílias e prevenir situações que possam levar à separação de crianças dos seus agregados familiares.
A estratégia reflete uma tendência internacional de privilegiar soluções comunitárias e familiares sempre que possível, reservando os cuidados alternativos para situações em que não existam condições seguras para a permanência da criança no ambiente familiar.
A instituição pretende igualmente reforçar áreas como advocacia, resposta humanitária, inovação tecnológica e sustentabilidade operacional.
Financiamento em transformação exige novas soluções
Um dos aspetos mais enfatizados durante a apresentação foi a necessidade de diversificar formas de apoio à ação social. Nos últimos anos, organizações humanitárias e de desenvolvimento têm enfrentado um cenário internacional marcado por restrições orçamentais, redução de alguns fluxos de financiamento e aumento da procura por assistência.
Perante este contexto, Machevo defendeu que a sustentabilidade das iniciativas sociais dependerá cada vez mais da capacidade de mobilizar diferentes tipos de parceiros. “Não é só com dinheiro. Também precisamos de ideias, parcerias e sinergias”, afirmou.
O responsável considerou que a construção de soluções duradouras exige maior envolvimento do setor privado, das comunidades, das instituições públicas e das organizações nacionais e internacionais.
Uma agenda construída para durar
Ao encerrar a sua intervenção, o Diretor Nacional sublinhou que o Plano Estratégico 2024-2028 foi concebido para produzir impactos que ultrapassem os ciclos tradicionais de financiamento.
A visão, segundo explicou, é construir uma agenda centrada na criança e desenvolvida com a participação ativa das comunidades, garantindo que os resultados alcançados possam ser sustentados ao longo do tempo.
“Queremos caminhar juntos porque acreditamos que é através de alianças sólidas, confiança mútua e visões partilhadas que podemos transformar este plano em resultados concretos para as crianças vulneráveis de Moçambique”, declarou.
Num país onde milhões de crianças continuam expostas a diferentes formas de vulnerabilidade, a meta de alcançar 500 mil beneficiários representa não apenas uma ambição institucional, mas também um reflexo da dimensão dos desafios que permanecem por resolver na área da proteção infantil.