Damião Cumbane questiona a participação de académicos, intelectuais e jornalistas em eventos partidários trajando as cores das formações políticas e acautela para o risco de a identidade partidária se sobrepor à credibilidade profissional.
Há uma pergunta que Damião Cumbane coloca aos partidos políticos, mas que acaba por atingir também académicos, intelectuais e jornalistas: até onde deve ir a aproximação ao poder partidário sem comprometer a independência de quem participa?
A questão surge numa reflexão intitulada “Um pedido aos partidos políticos”, na qual o analista critica a prática de convidar figuras do meio académico, intelectual e jornalístico para eventos partidários e vê-las posteriormente a envergar a indumentária ou os símbolos da organização anfitriã.
Para Cumbane, participar num evento partidário não é, em si, incompatível com o exercício profissional. O problema começa quando a participação é acompanhada por uma identificação visual inequívoca com determinado partido e, posteriormente, o mesmo profissional procura apresentar as suas intervenções públicas como se aquela associação política não existisse.
“Se está lá como intelectual, académico ou jornalista, porque se vestir a rigor partidário?”, questiona. A crítica assenta numa preocupação central: a percepção pública da independência.
Na leitura do analista, um académico pode ter filiação ou simpatia partidária, um jornalista pode participar na vida política e um intelectual pode frequentar actividades de qualquer formação. A lei, observa, não impede essas escolhas. Mas a exposição pública desses vínculos pode ter consequências sobre a forma como a sociedade passa a interpretar as suas opiniões e intervenções.
É nesse ponto que Cumbane fala numa espécie de “temperatura partidária” que, uma vez adquirida, pode ser difícil de retirar.
Segundo o analista, depois de um profissional ser publicamente identificado com a indumentária de uma formação política, as suas futuras intervenções podem deixar de ser avaliadas apenas pelo mérito dos argumentos apresentados. Passam também a ser filtradas pela pergunta inevitável: está a falar como académico, jornalista ou intelectual – ou como alguém ligado àquele partido?
A política não precisa de vestir todos
Cumbane procura estabelecer uma distinção entre participação e identificação.
Para sustentar o argumento, recorre a exemplos institucionais. Recorda que dirigentes políticos participam em cerimónias religiosas sem necessariamente adoptarem a indumentária das confissões que os recebem. Menciona igualmente a presença de membros do Governo em cerimónias militares e policiais sem que, por isso, passem a vestir as respectivas fardas.
Na mesma linha, observa que a ministra da Educação participa em actividades escolares sem necessidade de vestir uniforme de aluno ou bata de professor para demonstrar proximidade com o sector.
A analogia pretende mostrar que estar presente não significa necessariamente vestir a identidade de quem organiza o evento. E é precisamente essa fronteira que Cumbane gostaria de ver preservada pelos partidos políticos. O problema não é estar. É parecer ser
A reflexão coloca uma questão particularmente sensível num ambiente político onde a confiança pública em instituições, partidos e figuras de opinião é frequentemente disputada.
Para Cumbane, os partidos podem convidar académicos, intelectuais e jornalistas para os seus eventos. Estes, por sua vez, podem aceitar os convites e participar livremente. O que deveria ser evitado, na sua perspectiva, é a transformação dessa presença numa demonstração pública de pertença ou alinhamento partidário.
A preocupação é que, depois do evento, a distinção entre o profissional e o militante deixe de ser clara aos olhos da sociedade.
“Depois desses eventos, morre o intelectual e fica o político, morre o académico e fica o político, morre o jornalista e fica o político”, escreve.
É uma formulação dura, mas que resume o essencial da crítica: quando o símbolo partidário se sobrepõe à identidade profissional, a reputação construída fora da política pode começar a ser lida através da lente partidária.
A pergunta que sobra
No fim, Cumbane desloca o foco dos partidos para os próprios profissionais. A questão já não é apenas saber por que razão os partidos vestem os seus convidados com as suas cores. É perceber por que razão académicos, intelectuais e jornalistas aceitam essa exposição.
A resposta, sugere o analista, passa por uma discussão mais profunda sobre autonomia, reconhecimento e relações de proximidade com o poder político. E deixa uma pergunta que vai além da indumentária partidária: “Será que não conseguem sobreviver sem cumplicidades políticas?”
É esta pergunta que Cumbane coloca aos académicos, intelectuais e jornalistas – e que abre um debate sobre os limites da participação política e o preço que determinadas escolhas podem cobrar à credibilidade profissional.