Tomás Vieira Mário alerta para possíveis consequências diplomáticas e económicas da “prontidão combativa” e levanta dúvidas sobre o papel dos gabinetes de comunicação e imagem das instituições públicas
O papel dos profissionais de comunicação estratégica do Governo na gestão de informações sensíveis está no centro de uma reflexão do jornalista e especialista em comunicação Tomás Vieira Mário, que questiona as consequências da divulgação de um comunicado do Serviço Nacional Penitenciário (SERNAP) a determinar a “prontidão combativa” de primeiro grau nas cadeias do país, no contexto do julgamento de Venâncio Mondlane, marcado para 17 de Novembro de 2026.
Num texto publicado na sua página do Facebook, Vieira Mário considera que o episódio expõe problemas de comunicação política e institucional e levanta dúvidas sobre a capacidade das instituições públicas de avaliar os efeitos das suas mensagens antes de as tornarem públicas.
A reflexão surge depois de o SERNAP ter determinado o reforço da segurança nos estabelecimentos penitenciários, incluindo a redistribuição de efectivos para o sector operativo, o intensificação do patrulhamento externo e a articulação com as autoridades policiais e militares. As medidas foram justificadas pela possibilidade de perturbações da ordem pública associadas ao julgamento do político. .
Segundo Tomás Vieira Mário, equipas de consultores estrangeiros com missões de trabalho previamente confirmadas em Moçambique, incluindo com instituições governamentais, terão decidido adiar as deslocações para o próximo ano, depois de tomarem conhecimento do comunicado.
Na interpretação do autor, a mensagem transmitida pode ter sido entendida no exterior como um sinal de que as autoridades antecipam um cenário de violência durante o julgamento, contribuindo para aumentar a percepção de risco em relação ao país.
O autor não apresenta, no texto, a identidade das equipas referidas nem documentos que permitam confirmar independentemente os cancelamentos. Ainda assim, o relato coloca em discussão os possíveis efeitos da comunicação oficial sobre a confiança dos parceiros internacionais e a continuidade de actividades de cooperação.
Comunicação estratégica sob escrutínio
Mais do que questionar a necessidade de reforçar a segurança das cadeias, Vieira Mário centra a sua análise na forma como as decisões das instituições públicas são comunicadas e nos efeitos que podem produzir dentro e fora do país.
“Este comunicado foi feito com que propósito?”, questiona, procurando perceber se os seus autores avaliaram serenamente as potenciais consequências da mensagem, tanto no plano interno como no externo.
A questão coloca os profissionais de comunicação estratégica perante uma responsabilidade que ultrapassa a divulgação de decisões institucionais: avaliar o contexto, antecipar interpretações, identificar riscos reputacionais e assegurar que a comunicação pública informa sem alimentar receios desnecessários.
No caso em análise, a referência à “prontidão combativa”, associada a um julgamento político de elevada atenção pública, pode ser interpretada de forma diferente daquela que a instituição pretende transmitir. Uma medida apresentada como prevenção de riscos de segurança pode, dependendo da linguagem e do contexto, reforçar a percepção de que as autoridades esperam distúrbios.
É neste ponto que a comunicação institucional deixa de ser uma tarefa meramente administrativa e passa a integrar a gestão estratégica da governação, com implicações para a confiança dos cidadãos, dos investidores e dos parceiros de desenvolvimento.
Ministros e gabinetes de comunicação
Vieira Mário questiona igualmente quem deve assegurar a coerência dos comunicados emitidos pelas diferentes instituições do Estado e qual é o perfil dos profissionais que integram os gabinetes de comunicação e imagem.
O autor interroga-se sobre a eficácia dos seminários de capacitação promovidos para estes gabinetes e sobre o grau de consideração que os titulares das instituições dão aos seus conselhos, sobretudo antes da divulgação de mensagens com potencial para provocar repercussões políticas e diplomáticas.
A reflexão levanta uma questão central para a administração pública: os profissionais de comunicação são envolvidos na preparação e avaliação das decisões ou chamados apenas quando é necessário responder a uma crise?
Uma comunicação estratégica eficaz pressupõe participação antecipada no processo de decisão, coordenação entre instituições e avaliação dos públicos a que cada mensagem se destina. Exige também que os responsáveis políticos compreendam que a comunicação não se resume à produção de comunicados, mas inclui a análise dos riscos e das possíveis consequências da informação divulgada.
Ao classificar o episódio como um exemplo de “contra-informação” oficial, Vieira Mário sustenta que uma mensagem produzida pelo próprio Estado pode acabar por gerar agitação social e inquietação internacional, em vez de transmitir segurança e confiança.
O caso abre, assim, espaço para um debate sobre a qualidade da comunicação governamental e a responsabilidade dos dirigentes na gestão da informação pública, num momento em que Moçambique se prepara para o julgamento de Venâncio Mondlane, a 17 de Novembro.
A questão de fundo permanece: até que ponto as instituições públicas avaliam o impacto das suas mensagens antes de as divulgar, sobretudo quando a linguagem utilizada pode influenciar a percepção de estabilidade política e de segurança do país?