Entretenimento ou festival de mediocridade? Quando a televisão confunde audiência com decadência

Por Caetano Melhor

Não tenho absolutamente nada contra os programas de entretenimento, muito menos contra os apresentadores que procuram reinventar a televisão moçambicana. O que me recuso é a assistir, passivamente, a este festival de mediocridade que, em nome da audiência, transforma as nossas televisões em palcos de intrigas, ostentação e confrontos entre pessoas que parecem disputar não o mérito, mas o direito de provar quem é superior a quem.

Hoje, basta ligar a televisão para encontrar programas que dedicam dias, semanas e, por vezes, meses a alimentar rivalidades entre supostas figuras públicas. Quem tem mais dinheiro? Quem possui mais empresas? Quem usa o telefone mais caro? Quem consegue humilhar o outro em directo? E, como se a discussão verbal já não fosse suficiente, eis que surgem as lutas de boxe, como se o auge do entretenimento fosse transformar desentendimentos pessoais num espectáculo de pancadaria.

Afinal, estamos a assistir a programas de entretenimento ou a uma feira de vaidades transmitida em horário nobre?

É legítimo perguntar se esta é a evolução natural da televisão ou se estamos perante uma crise de criatividade disfarçada de inovação. Quando um programa precisa de semanas de provocações, insultos e comparações financeiras para continuar relevante, talvez o problema não esteja na falta de interesse do público, mas na pobreza do conteúdo que lhe é oferecido.

Recordo programas como o Porta 1, apresentado por Jorge Ribeiro, o Músicas d’África e o Music Box. Será que o desenho editorial desses programas incluía rubricas de lutas de boxe entre participantes? Ou será que o entretenimento de hoje, incapaz de competir apenas pela música, pelo talento, pela criatividade e pela qualidade das entrevistas, descobriu na intriga uma maneira mais barata de fabricar audiência? Esta comparação merece uma análise séria, sem idealizar o passado nem condenar antecipadamente o presente.

O que preocupa é a normalização de um modelo em que duas pessoas podem passar semanas a discutir quem é mais rico, quem tem mais negócios ou quem vive melhor, até que alguém decida que chegou a hora de resolver a questão com os punhos. E há sempre uma câmara pronta, um apresentador disponível e um espaço televisivo preparado para transformar o conflito em espectáculo.

Que extraordinária pobreza de imaginação, quando faltam ideias, põem-se pessoas a lutar, quando falta conteúdo, alimenta-se a intriga, quando falta mérito para celebrar, celebra-se a ostentação.

E depois admiramo-nos quando uma parte da juventude começa a confundir fama com relevância, riqueza com superioridade e exposição pública com sucesso. Não se pode responsabilizar exclusivamente a televisão pelas escolhas dos jovens, mas também seria ingénuo fingir que os conteúdos difundidos não ajudam a construir referências sociais.

Que exemplo estamos a oferecer a um jovem que procura o seu lugar na sociedade? Que vale mais estudar, trabalhar, inovar e construir um percurso digno ou tornar-se conhecido pelas polémicas, exibir bens materiais e convencer os outros de que se é superior?

Não se trata de exigir que todos os programas sejam conferências académicas ou sessões de formação. Ninguém espera que a televisão transforme cada momento de lazer numa aula. Mas entre educar formalmente e promover a banalidade existe um espaço enorme, onde cabem o humor inteligente, a música, a cultura, a descoberta de talentos e o debate saudável.

A questão torna-se ainda mais pertinente quando perguntamos, quem regula estes conteúdos e quais são os critérios editoriais que orientam a sua transmissão? Não para defender a censura, mas para exigir responsabilidade às estações televisivas, aos produtores e às entidades competentes. A liberdade de programação não elimina a responsabilidade social, e a busca de audiência não pode servir de desculpa para dispensar qualquer reflexão sobre o impacto dos conteúdos.

É evidente que uma luta desportiva, devidamente organizada, com regras, consentimento e medidas de segurança, não é necessariamente um problema. O que merece escrutínio é a transformação de conflitos pessoais em produtos televisivos, sobretudo quando a provocação parece ser parte essencial da estratégia de promoção.

Também não podemos ignorar o papel do público. As televisões produzem conteúdos para audiências que precisam de conquistar e manter. Se a polémica gera atenção, haverá sempre quem esteja disposto a explorá-la. Mas isso não nos obriga, enquanto espectadores, a aplaudir tudo o que nos colocam diante dos olhos.

Por isso, recuso-me a confundir popularidade com qualidade e barulho com conteúdo. Uma coisa é entreter, outra, bem diferente, é manter a sociedade ocupada com disputas sobre quem tem mais dinheiro, quem ostenta mais luxo ou quem consegue derrubar o adversário diante das câmaras.

O Porta 1, o Músicas d’África, e o Music Box merecem ser recordados e analisados pelo que efectivamente foram, não transformados em exemplos idealizados de um passado perfeito. Mas a sua evocação levanta uma pergunta incontornável, em que momento começámos a aceitar que a luta pela audiência justificasse praticamente tudo?

Não tenho nada contra o entretenimento. Tenho, sim, dificuldade em aceitar que, num país com tantos desafios sociais, culturais e económicos, parte do espaço televisivo seja consumida por disputas de ego apresentadas como grandes acontecimentos.

A televisão não tem de salvar a sociedade, mas também não precisa de contribuir para empobrecer o debate público. Se o objectivo é apenas conquistar audiência a qualquer preço, então que se diga abertamente. Mas, se ainda acreditamos que a televisão tem um papel cultural e social, precisamos de discutir o que estamos a produzir, o que estamos a promover e o que estamos a normalizar.

Porque, no fim, fica uma pergunta incómoda, estamos a assistir à evolução do entretenimento moçambicano ou a testemunhar uma preocupante crise de criatividade, em que a mediocridade ganhou câmaras, microfones e horário de transmissão?

Nem tudo o que atrai audiência merece ser celebrado. E nem tudo o que é transmitido merece ser consumido.

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