Quando rebentou a COVID-19, o meu editor responsabilizou-me por acompanhar e escrever sobre a pandemia. Corria o ano de 2020 e, em Abril, uma pergunta colocada por mim deixou Helena Kida desnorteada. Muitos moçambicanos ficaram indignados ao perceberem que, na prática, alguns dos governantes não conheciam o dia-a-dia do povo que governavam.
Estávamos numa sala luxuosa, com segurança, ar condicionado e todas as comodidades, no Centro Internacional de Conferências Joaquim Chissano. Claro, em Maputo.
Helena Kida era, na altura, Ministra da Justiça, Assuntos Constitucionais e Religiosos. O mundo vivia o caos da pandemia. Moçambique também. No início de Abril, o Governo acabava de decretar uma série de medidas restritivas na sequência da pandemia. Era um documento complexo e Helena Kida foi indicada para esclarecer aos moçambicanos o seu conteúdo.
A ministra explicou quem devia circular, a que horas, em que circunstâncias, sob que condições e em quais pontos do território nacional.
Eu estava presente na conferência de imprensa e rapidamente percebi que as medidas deixavam de fora a realidade de algumas regiões, entre elas Quelimane, onde a bicicleta constitui um dos principais meios de circulação.
“E nestas medidas, como fica a situação de Quelimane, onde as pessoas circulam de táxi de bicicleta?”
Pronto. A ministra confundiu táxi de bicicleta com moto-táxi, embrulhou-se na resposta e acabou por dizer qualquer coisa sobre táxi motorizado, numa espécie de salada russa.
Naquele dia, muitas pessoas perceberam que vários membros do Governo que nos governa, passe a repetição, não conhecem a realidade do povo.
Já lá vão alguns anos desde o dia em que a então ministra da Justiça nos brindou com aquele episódio, que provocou uma onda de indignação.
Recentemente, uma ministra da Educação decidiu não ser politicamente correcta. E ainda bem que, por vezes, alguém decide não o ser. Mas o resultado foi o que se viu. Disse que o problema dos professores estava ligado à gestão dos seus salários e que estes acabavam por se meter em dívidas. Foi exonerada em menos de 24 horas. Mas esse é outro assunto.
Sucede que, ontem, caiu como uma bomba a reportagem da TV Sucesso, na qual a Primeira-Ministra explica que a opção de alguns encarregados de educação de levarem os filhos para escolas privadas resulta das escolhas que as pessoas têm ao seu dispor e que isso, segundo a governante, não deve constituir propriamente um problema.
Sucede que muitos pais não colocam os filhos em escolinhas e escolas privadas por uma simples questão de opção ou preferência. A realidade moçambicana não permite que um pai que vive de um salário honesto ou de um negócio honesto tenha, necessariamente, condições financeiras para, por mera opção, matricular o filho numa escola privada.
Colocar um educando numa escola privada é, em muitos casos, uma decisão estratégica dos pais, condicionada pela sua capacidade financeira e pela procura de melhores condições de ensino para os filhos.
A resposta da Primeira-Ministra só pode trazer-nos de volta àquela velha sensação: o regresso assustador das respostas (des)contextualizadas dos gestores do Governo.