O Presidente do Conselho de Administração da Electricidade de Moçambique avançou esta quarta-feira, durante a assinatura do Memorando de Entendimento entre a EDM e a Companhia Nacional de Canto e Dança, através do Ministério da Educação e Cultura, que a empresa apoiou dezenas de iniciativas culturais, artistas e programas de promoção da leitura nos últimos cinco anos, consolidando-se como um dos principais patrocinadores institucionais da cultura moçambicana.
Ao intervir na cerimónia, o Presidente do Conselho de Administração da EDM, Joaquim Ou-Chim, apresentou um discurso que procurou posicionar a energia e a cultura como dimensões inseparáveis da construção nacional. Mais do que iluminar casas, escolas ou indústrias, a empresa pretende igualmente “alimentar a alma moçambicana”, numa abordagem simbólica que associa electrificação, memória colectiva e pertença nacional.
Num dos momentos mais marcantes da sua intervenção, Joaquim Ou-Chim recordou que a EDM, desde a sua criação em 1977, nasceu associada à própria ideia de construção do Estado moçambicano independente. “Torre a torre, cabo a cabo, subestação a subestação, poste a poste, casa a casa, bairro a bairro”, afirmou, numa metáfora que procurou ligar o processo de expansão energética à consolidação da identidade nacional.
Mas foi sobretudo ao enumerar o investimento cultural realizado nos últimos cinco anos que o PCA da EDM trouxe ao de cima um lado menos visível da empresa pública: o de mecenas cultural.
A lista apresentada revela uma estratégia cultural relativamente transversal, abrangendo diferentes gerações, linguagens artísticas e geografias culturais do país, num contexto em que muitos criadores nacionais enfrentam dificuldades estruturais de financiamento e circulação das suas obras.
Entretanto, o envolvimento da EDM não se limitou às artes performativas e musicais. Joaquim Ou-Chim destacou igualmente iniciativas ligadas à promoção da leitura e formação cultural, como o projecto “Ler com Energia”, através do qual foram divulgadas obras de escritores como Ungulani Ba Ka Khosa, Bento Baloi, António Niquice e Isaac Chande.
Em parceria com o Conselho Municipal de Maputo, a empresa desenvolveu ainda o projecto “Eu Amo Ler”, que permitiu a distribuição de livros e material bibliográfico em escolas primárias e secundárias de zonas como Katembe, Machava, Khongolote, Zimpeto e Nkobe.
O discurso do PCA revelou também uma dimensão humana e pouco conhecida do braço social da empresa: o apoio directo a artistas em situação de vulnerabilidade.
Através do programa “Mais Energia Cultural”, a EDM criou uma espécie de cesta básica de apoio social destinada a artistas considerados guardiões do património cultural moçambicano. Entre os beneficiários mencionados estiveram Eva Mendonça, de Cabo Delgado; Domingos Senda, de Tete; Nictar Benedito, de Chimoio; João António Estima, de Sofala; Elisa Mate, da província de Maputo; Estevão Mucavele; Domingos João, popularmente conhecido por Domingoano; e o falecido Evaristo Abreu.
A assinatura do memorando com a Companhia Nacional de Canto e Dança surge, assim, como continuidade de uma linha de actuação que a EDM pretende consolidar: transformar a cultura num eixo estratégico da sua responsabilidade social.
O PCA defendeu que preservar a cultura significa preservar a alma colectiva do país, citando mesmo o conhecido pensamento popular segundo o qual “um povo sem cultura é um povo sem alma”.
A governante revelou igualmente que o país está a trabalhar no processo de inscrição do Xigubo como património cultural, reforçando a aposta na valorização do mosaico multicultural moçambicano.
Na sua intervenção, Samaria Tovela destacou que as indústrias criativas podem desempenhar um papel decisivo no crescimento económico, geração de emprego e coesão social, defendendo maior profissionalização do sector artístico-cultural e integração das tecnologias na produção criativa.
A ministra aproveitou ainda a ocasião para reconhecer o contributo da EDM não apenas na cultura, mas também na educação, sobretudo através do apoio à distribuição de materiais didácticos e fortalecimento institucional de iniciativas ligadas ao ensino e promoção do conhecimento.
No essencial, o memorando assinado esta quarta-feira acaba por simbolizar uma mudança gradual no posicionamento das empresas públicas moçambicanas: de simples entidades prestadoras de serviços para actores sociais e culturais com intervenção directa na construção da identidade nacional.
Num país onde a cultura continua frequentemente dependente de apoios externos ou iniciativas isoladas, o envolvimento da EDM sugere igualmente uma tentativa de institucionalizar o financiamento cultural interno, associando património, cidadania e desenvolvimento.
Mais do que iluminar o território, a EDM parece afirma-se como uma instituição que também ajuda a manter acesa a memória cultural de Moçambique.