Um País de Xiguinha à Manhambanense

Por Bernardo Soares — dos episódios que nunca te contei

Noite de 18 de Maio de 2026. As redes sociais, essas máquinas de fabricar indignações instantâneas e sábios de minuto e meio, obrigam-me a tropeçar numa lembrança antiga. Há memórias que não envelhecem: apenas mudam de roupa e regressam para nos morder devagarinho.

Acompanhe-me. Porque a maluquice desta história não está no começo. Está no país inteiro.

Quando cheguei a Maputo, no princípio de 2010, vindo de Quelimane para estudar Jornalismo, trazia comigo duas malas e meia: uma de roupa, outra de sonhos e meia de fome. Esta última era a mais pesada.

Naquele tempo eu ainda acreditava que a capital era uma senhora séria. Depois descobri que Maputo é como certas tias bonitas: primeiro sorri, depois complica.

Antes de convencer mamã Regina, directora do Maxaquene Khov-Lar, a conceder-me uma belicha por misericórdia e excesso de dramatização da minha parte, vivi nos arredores da sobrevivência. Passei por um quarto junto à drenagem da Rua 14, em Choupal, onde os mosquitos faziam assembleias nocturnas sobre o meu corpo. Havia tantos que eu já desconfiava que alguns me chamavam pelo nome.

Nas noites mais difíceis, eu abandonava o quarto e caminhava até aos mangais de Namuinho (5°Bairro de Quelimane), fugindo da mosquitada como quem foge de uma guerra aérea. Mas isso é outra desgraça, digo, outra história.

Depois fui morar na zona da paragem Xai-Xai, numa casa alugada a uma velha senhora. Lembro-me dela apenas como a avó da Neid. Essas mulheres pobres acabam perdendo o nome e ficando apenas parentes de alguém. O país faz isso: emagrece as pessoas até lhes tirar a identidade.

A velha vivia com os netos. Crianças depositadas ali pelos pais como quem larga sacos numa estação de chapa prometendo “já volto”. E o “já volto” dos pobres costuma durar uma infância inteira.

Mas aquela mulher tinha uma espécie de soberania doméstica. Reinava sobre a miséria sem nunca lhe pedir licença.

Naquela casa a fome não era ausência. Era personagem: tossia, rondava os pratos, dormia conosco. Havia dias em que ela parecia sentar-se no quintal e comandar tudo como um régulo invisível.

A avó da Neid vendia carvão. Regressava sempre coberta daquele pó negro que parece fuligem de vida cansada. Porém, havia nela uma ciência secreta: a arte de inventar abundância onde só existia vazio.

Nunca esqueci um certo entardecer.

Não havia nada para cozinhar. Nada. Nem sequer aquela esperança pequena que sobra no fundo das latas. Então começou o milagre moçambicano.

Primeiro apareceu um pedaço de mandioca. Não uma mandioca inteira. Um pedaço. Metade de quase nada. Depois a velha percorreu o quintal com olhos de garimpeira, arrancou uma mão de tcheke, visitou uma vizinha e regressou com alguns grãos de amendoim. Noutra casa conseguiu folhas de feijão-nhemba. Cada ingrediente chegava à panela como refugiado de sua própria pobreza.

E ela foi cozinhando aquilo lentamente, mexendo a colher com a serenidade de quem conversa com os espíritos da panela. Os netos esperavam em silêncio. Pobre aprende cedo a respeitar o barulho da fome.

No final, daquela arqueologia alimentar nasceu uma comida verdadeira. Não sei explicar. Era como se a panela tivesse decidido acreditar nela.

A velha serviu primeiro os miúdos. Depois virou-se para mim e, sabendo que eu vinha de Quelimane, começou a explicar os ingredientes com orgulho culinário de chefe internacional. Só faltava dizer: “este prato harmoniza bem com sofrimento.”

Entregou-me então uma tigela antiga e uma colher tão velha que talvez tivesse conhecido Samora.

Comi. Primeiro por educação. Depois por necessidade. Finalmente por espanto.

Aquilo era xiguinha.

Mas não era a xiguinha da minha terra. Não senhor. Aquela era uma xiguinha sobrevivente. Uma xiguinha remendada. Uma xiguinha feita de improviso nacional. Uma xiguinha à manhambanense.

Hoje, muitos anos depois, percebo que Moçambique talvez seja exactamente isso: um país de xiguinha à manhambanense. – onde pessoas cozinham impossíveis, mães transformam escassez em refeição, avós remendam a pátria com folhas de nhemba e restos de mandioca, o povo inventa felicidade com ingredientes que não chegam.

Talvez seja essa a nossa maior tragédia. E, desgraçadamente, também a nossa mais bonita poesia.

Comentários (0)
Adicionar comentário