
António Foguete
Há uma corrida desenfreada para colocar documentos em plataformas de Inteligência Artificial (IA) com o objectivo de corrigir erros, melhorar a linguagem, elaborar relatórios, produzir comunicados, criar noticias ou resumir conteúdos. Muitas vezes, porém, quem utiliza essas ferramentas não avalia previamente a natureza da informação que está a colocar a disposição de “pessoas estranhas”. A IA está a entrar rapidamente na administração pública, nas empresas e na vida dos cidadãos. É uma ferramenta poderosa, mas o seu uso irresponsável pode transformar-se numa ameaça silenciosa à soberania do Estado.
Há funcionários que, para corrigir, resumir ou “melhorar” um documento, carregam ficheiros inteiros em plataformas digitais. Esta prática é extremamente perigosa quando envolve informação confidencial, estratégica ou relacionada com a segurança do Estado.
Uma matriz de decisões de uma reunião de alto nível, um relatório confidencial, uma informação estratégica, dados pessoas de dirigentes, planos institucionais ou informações relacionadas com segurança e outras informações críticas não podem ser colocados numa plataforma de IA apenas porque “a IA escreve melhor”. Isso é uma grave falha de segurança.
Hoje, já não é muito necessário um espião. Basta alguém carregar um documento numa plataforma de IA. A própria instituição pode estar a entregar informação sensível a terceiros sem sequer perceber o risco. O mesmo acontece com os dados dos cidadãos. Números de telefone, endereços, informações familiares, dados financeiros ou bancários e outros elementos pessoais podem ser introduzidos em plataformas de IA para corrigir ou organizar documentos. Quando informações dessa natureza caem no chatgpt, por exemplo, podem chegar nas mãos de criminosos, criar oportunidades para fraude, perseguição, extorsão, ameaças, sequestros e outros crimes.
Hoje, soberania também significa ter controlo sobre os dados e sobre a informação estratégica do país. Se informações críticas do Estado são colocadas em plataformas de IA sobre as quais não temos controlo, estamos, em alguma medida, a abdicar desse controlo.
O Governo, através do Ministério das Comunicações e Transformação Digital está a trabalhar numa Política e Estratégia Nacional de Inteligência Artificial. É uma iniciativa necessária. Mas não podemos esperar pela conclusão das políticas e da legislação para começar a proteger a informação. A exposição está a acontecer agora.