
Presidente da Nova Democracia sustenta que Moçambique precisa de construir uma cultura de reconciliação assente na igualdade de oportunidades, na meritocracia e no reforço da identidade nacional, alertando para os riscos da divisão regional e política no processo de desenvolvimento do país.
O presidente do partido Nova Democracia, Salomão Muchanga, defende que o sucesso do processo de diálogo e reconciliação nacional em Moçambique depende da capacidade dos moçambicanos ultrapassarem divisões históricas, regionais e políticas que, segundo considera, continuam a fragilizar a construção de uma verdadeira unidade nacional.
Numa reflexão divulgada sob o título “Reconciliação Nacional: Memória sem Ódio”, Muchanga sustenta que a divisão dos povos moçambicanos constituiu um dos principais instrumentos utilizados durante o período colonial para facilitar a dominação estrangeira, argumentando que a fragmentação social e regional continua a representar um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento do país.
Segundo o político, a experiência da luta de libertação nacional demonstrou que a independência só foi possível graças à construção de um projeto de unidade nacional liderado por Eduardo Mondlane, capaz de aproximar diferentes regiões, comunidades e sensibilidades políticas em torno de um objetivo comum.
“A independência não nasceu da superioridade militar, mas da superioridade da unidade”, defende Muchanga, para quem a capacidade de transformar diferenças regionais numa identidade nacional foi determinante para a conquista da soberania.
Reconciliação para além da guerra
Num contexto em que Moçambique continua a discutir mecanismos de aprofundamento do diálogo nacional e da estabilidade política, o líder da Nova Democracia argumenta que a reconciliação não deve limitar-se à superação dos conflitos armados ou das disputas partidárias.
Para Muchanga, o conceito deve abranger igualmente as dimensões política, económica, social e cultural, permitindo restaurar a confiança entre os cidadãos e fortalecer o sentimento de pertença a uma única nação.
A sua intervenção surge num momento em que diversos sectores da sociedade defendem a necessidade de transformar o atual processo de diálogo nacional num instrumento capaz de promover reformas institucionais, reduzir desigualdades e consolidar a inclusão política.
No texto, Muchanga manifesta preocupação com aquilo que considera ser o crescimento de discursos regionalistas na vida política nacional, alertando para a tendência de interpretar a governação e o acesso ao poder com base na origem geográfica dos líderes.
Durante anos, recorda, foram alimentadas narrativas segundo as quais determinadas regiões monopolizavam o poder político, dando origem a discursos que defendem alternâncias baseadas em critérios regionais.
Para o dirigente político, esta lógica representa apenas uma nova forma de segregação.
“O poder não deve ser repartido por geografias nem herdado por regiões. O poder deve ser conquistado pela meritocracia, pela competência, pela integridade e pela vontade soberana do povo expressa através do voto”, sustenta.
“Somos moçambicanos”
Uma das principais mensagens da reflexão é a defesa da identidade nacional acima das pertenças regionais.
Muchanga considera que o desenvolvimento sustentável do país exige o abandono definitivo das narrativas que dividem os cidadãos entre norte, centro e sul, defendendo que a cidadania moçambicana deve prevalecer sobre qualquer identidade regional.
“Não somos sulistas, centristas nem nortistas. Somos moçambicanos”, afirma.
Na sua visão, a reconciliação nacional passa pela criação de condições para que todos os cidadãos tenham acesso equitativo às oportunidades económicas, sociais e políticas, independentemente da sua origem geográfica, filiação partidária ou condição social.
O presidente da Nova Democracia sustenta igualmente que o país deve preservar a memória dos erros do passado sem permitir que essa memória seja transformada em instrumento de ódio ou vingança.
“Perdoar não significa esquecer as injustiças; significa impedir que elas continuem a governar o futuro”, escreve.
Um desafio para o futuro
A intervenção de Salomão Muchanga insere-se no debate mais amplo sobre o futuro da reconciliação nacional em Moçambique, numa fase em que o país procura consolidar a estabilidade política, aprofundar a democracia e enfrentar desafios ligados à inclusão social e ao desenvolvimento económico.
Para o líder da Nova Democracia, a verdadeira reconciliação não será alcançada apenas através de acordos políticos entre elites, mas sobretudo pela construção de uma cultura nacional baseada na confiança mútua, na igualdade de oportunidades e no reconhecimento de que a diversidade cultural e regional constitui uma riqueza e não uma ameaça.
“Precisamos de nos reconciliar para que a nossa maior herança deixe de ser a memória da divisão e passe a ser a memória da unidade”, defende.
Na sua perspetiva, a maior vitória de Moçambique não será a afirmação de uma região sobre outra, mas a capacidade coletiva de transformar antigas feridas em bases para um projeto comum de desenvolvimento, cidadania e prosperidade.