Jornalismo ao pormenor

Ousadia ou a coragem de falar quando o silêncio seria mais confortável

Caetano Melhor

Antes que alguns especialistas em militância politica, detectores de património alheio ou fiscal de opiniões venham perguntar, respondo, não conheço Domingos Tivane. Não sou seu amigo, não frequento a sua casa, não lhe devo favores, não recebo chamadas dele e, até onde sei, ele também não sabe quem sou.

Por isso, este texto não nasce de amizade, simpatia ou qualquer espécie de procuração política. Nasce de uma coisa muito mais simples, a pertinência daquilo que ele decidiu dizer.

Há reuniões que produzem discursos, há outras que produzem fotografias. E há aquelas, raríssimas, que produzem perguntas que continuam a incomodar depois que as cadeiras são arrumadas e os microfones desligados.

Assisti um vídeo partilhado por um amigo numa destas rerdes socias, no qual Domingos Tivane inicia a sua intervenção na Reunião Nacional de Quadros da FRELIMO, antes mesmo dele terminar o vídeo percebi que ele não foi a Chimoio para um turismo político. Não entrou para distribuir elogios, fabricar aplausos ou repetir aquilo que os outros já tinham dito.

Entrou para fazer aquilo que, em qualquer organização política que se pretende democrática, deveria ser normal, falar, e falou sem almofadas, sem anestesia, sem pedir desculpas antecipadamente por pensar. E, sobretudo, sem parecer preocupado em saber se o seu discurso seria agradável aos ouvidos de quem estava sentado na primeira fila.

Por isso, se me perguntarem quem foi a figura da Reunião Nacional de Quadros, a resposta é simples, Domingos Tivane. Não porque tenha dito tudo certo. Não porque seja dono da verdade. Mas porque teve a coragem de fazer aquilo que muitos pensam e poucos têm coragem de dizer em voz alta.

“O que vou dizer parece um suicídio” Há frases que são apenas frases. E há frases que denunciam o ambiente político em que foram pronunciadas. Quando Tivane começa a sua intervenção dizendo que aquilo que vai dizer parece um “suicídio”, lembrando a sua idade e dizendo que o seu bilhete estava marcado para segunda-feira, ele não estava apenas a fazer uma introdução teatral. Estava, consciente a revelar que sabia que certas verdades têm custos, e  mesmo assim falou. Isso é coragem.

Porque coragem não é falar quando todos concordam contigo. Coragem é falar quando sabes que a sala pode ficar desconfortável. Coragem é levantar a mão quando seria muito mais conveniente mantê-la no bolso. Coragem é olhar para uma organização à qual pertences e construíste uma vida política, e dizer, “há coisas que não estão bem.”

Tivane fez isso, e por isso merece uma vénia. O homem levou a sério o convite disseram aos quadros para ficarem à vontade. Tivane ficou. Talvez tenha sido esse o seu único “crime”. Levou a sério o convite. Porque há uma diferença enorme entre dizer “falem livremente” e estar verdadeiramente preparado para ouvir liberdade.

É fácil gostar da liberdade quando ela vem embrulhada em elogios. É muito mais difícil quando ela chega trazendo perguntas desconfortáveis. Tivane não confundiu liberdade de expressão com liberdade para elogiar, e essa distinção é fundamental.

Liberdade de expressão não existe para proteger frases agradáveis. Existe precisamente para permitir as desagradáveis. As incómodas. As que provocam silêncio na sala. As que fazem dirigentes mexerem-se na cadeira. As que obrigam uma organização a olhar para dentro.Tivane percebeu para que servia aquela reunião, e aqui está, talvez, o maior mérito da sua intervenção, Uma Reunião Nacional de Quadros não pode transformar-se numa cerimónia de autoelogio, não pode ser um lugar onde todos entram com problemas reais e saem com discursos politicamente higienizados. Não pode ser apenas mais uma fotografia de família.

Uma reunião de quadros deve ser um lugar onde se pergunta: O que estamos a fazer mal? Onde falhámos? Por que falhámos? Quem deve assumir responsabilidades? Como recuperamos a confiança? Como renovamos o partido? Como combatemos a corrupção? Como aproximamos o partido da sociedade? Como ouvimos uma juventude que já não aceita respostas de ontem para problemas de amanhã? Tivane colocou justamente essas questões na mesa. Para mim, ele não estragou a reunião. Ele justificou a reunião.

Não precisamos transformar Tivane em santo. E atenção, elogiar Tivane não significa canonizá-lo, não significa dizer que tudo o que afirmou é automaticamente verdadeiro. Não significa que ninguém possa discordar.

Muito pelo contrário. Se há erros, que sejam corrigidos. Se há factos que contradizem o seu discurso, que sejam apresentados. É assim que funciona o debate. O problema começa quando, em vez de responder ao argumento, se tenta destruir a pessoa. Porque uma coisa é questionar Tivane. Outra coisa é tentar silenciar Tivane através do ataque pessoal.

E então aparecem os detectives do património, foi curioso observar a reacção de alguns sectores digitais. Tivane fala sobre problemas políticos e internos. De repente, aparecem especialistas em cadastro predial, investigadores de redes sociais, contabilistas de Facebook e detectives de património. A pergunta deixa de ser: “Será que Tivane tem razão?” Passa a ser “Quanto é que Tivane tem?” mas o património dele responde ao discurso ou estamos apenas a mudar de assunto?”

É preciso separar as coisas. Se houver dúvidas legítimas sobre o património de Tivane, investiguem-se Se houver irregularidades, responsabilize-se quem de direito. Mas não se pode transformar uma investigação patrimonial numa arma automática para evitar responder às questões políticas levantadas. Porque amanhã qualquer cidadão poderá denunciar um problema e a resposta será: “Antes de respondermos, vamos investigar a tua casa.” Isso não é debate. É fuga.

Os milicianos digitais não substituem argumentos, há uma nova espécie de militância política que parece acreditar que defender um partido significa atacar qualquer pessoa que o critique. São os chamados milicianos digitais. Não precisam de uniforme. Precisam apenas de um teclado, uma conta nas redes sociais e muita vontade de disparar. Quando não conseguem vencer uma ideia, atacam a pessoa. Quando não conseguem responder à pergunta, inventam outra.

Quando não conseguem desmontar o argumento, procuram um defeito no argumentista. É uma política de trincheira. E é perigosa. Porque transforma o debate político numa guerra de reputações. Tivane merece ser questionado pelas suas ideias. Não pelo simples facto de ter tido coragem de expressá-las.

Há uma coisa que a FRELIMO deveria aproveitar desta intervenção, demostrar a sua democracia interna. Porque democracia interna não se prova quando alguém elogia a liderança. Prova-se quando alguém critica a liderança e continua a ter espaço para falar. É aí que está o teste.

Se Tivane for ouvido, respeitado e confrontado com argumentos, a FRELIMO terá dado uma demonstração importante de maturidade politica. Se for transformado em inimigo simplesmente porque falou, então o partido terá desperdiçado uma oportunidade extraordinária.

E aqui está a ironia, Tivane pode ter prestado um serviço maior à FRELIMO do que muitos dos que passaram a reunião inteira a elogiá-la. Porque quem elogia aquece a sala. Quem crítica pode ajudar a consertar o telhado. Porque nenhum partido pode sobreviver eternamente alimentando-se apenas da unanimidade. A unanimidade excessiva é muitas vezes o funeral do pensamento.

Uma organização forte não é aquela onde todos dizem “sim”. É aquela onde alguém pode dizer “não” sem ser imediatamente tratado como inimigo. Como dizia minha Avó Torrina “Quando todos numa família dizem que a comida está boa, é melhor chamar alguém de fora para provar.” Talvez seja isso que Tivane tenha feito. Provou a comida, e disse que havia sal a mais, não precisamos expulsá-lo da cozinha. Precisamos provar a comida, Se estiver realmente salgada, reduzimos o sal. Se não estiver, explicamos porquê. Mas não partimos o prato porque alguém disse que estava salgado.

Para mim, ele foi a figura da reunião. Não necessariamente porque tenha feito o discurso mais bonito. Mas porque fez aquilo que uma reunião de quadros deveria produzir, incomodou consciências, abriu perguntas e obrigou todos a pensar. E, sobretudo, por ter lembrado a todos que uma reunião de quadros não deveria servir para os dirigentes ouvirem aquilo que gostam. deveria servir para ouvirem aquilo que precisam de ouvir.

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