
António Foguete
Fui convocado para uma reunião de pais e encarregados de educação na Escola Básica 24 de Julho, localizada no bairro de Intaka-2, quarteirão 3, município da Matola, província de Maputo. Como era um sábado livre na minha agenda, decidi ir pessoalmente, para ouvir, de perto, como estava o aproveitamento da Khensyl, minha filha, e perceber melhor o seu percurso escolar.
Naquele dia, entre pais, encarregados de educação, alunos e professores, um nome era repetido com particular entusiasmo: Osvaldo Benedito Nhandumbuque estava a ser homenageado pela direcção da escola como o melhor professor da instituição pelo terceiro ano consecutivo. Os alunos falavam, os pais testemunhavam e os elogios convergiam para o mesmo ponto.
Reza a história que alunos que chegam às mãos do professor Osvaldo com sérias dificuldades de leitura e escrita conseguem, em pouco tempo, reverter esse quadro. Fala-se da sua particular capacidade de desenvolver nos alunos habilidades de leitura e escrita, mesmo em situações que exigem maior atenção e acompanhamento.
Osvaldo consegue trabalhar até com alunos com deficiências físicas ou psicológicas que demandam cuidados especiais, encontrando estratégias para os envolver no processo de aprendizagem e levá-los a desenvolver competências que muitos julgariam difíceis de alcançar. O facto é também testemunhado por Aunêncio Mavie, professor da mesma escola, que reconhece no colega uma capacidade singular de fazer com que os alunos avancem, mesmo quando partem de condições particularmente desafiantes.
Aquilo despertou a minha curiosidade, afinal, ser considerado o melhor professor da escola durante três anos consecutivos não é para qualquer um. Trocámos contactos e cada um seguiu o seu caminho. Até que, numa dessas conversas, decidi colocar o dedo na ferida.
— Professor, qual é o segredo para ser o melhor professor por três anos consecutivos?
A resposta veio sem rodeios:
— Comprometimento com a causa.
Anotei mentalmente a frase. Mas ainda não estava satisfeito. Logo lancei outra pergunta:
— Professor, quem são os culpados pela fraca qualidade de ensino no país?
Ele respondeu com outra pergunta:
— Há fraca qualidade de ensino no país? Há relatórios? Estudos? Pesquisas que comprovem isso?
Osvaldo continuou:
— O que é fraca qualidade de ensino? É quando um aluno não sabe ler? Não sabe escrever?
Desta vez, fiquei ainda mais calado. A conversa começava a tomar outro rumo.
Na visão de Osvaldo, quando falamos de qualidade de ensino, colocamos demasiadas vezes o foco nos manuais, nos currículas, nas condições das escolas, no número de alunos por turma, na falta de materiais ou nas políticas do Governo. Tudo isso pode ser importante, reconhecia ele, mas, para o professor, há um elemento que frequentemente fica esquecido. O professor.
Para Osvaldo, sobretudo nas classes iniciais, o professor é o principal provedor da qualidade do ensino. E explicou-me porquê. Os melhores quadros que o país já produziu nem sempre estudaram em escolas equipadas. Muitos passaram por escolas dos distritos onde faltavam livros, bibliotecas, computadores, quadros e até giz, e apesar disso, aprenderam. Aprenderam a ler, a escrever, a pensar e, hoje, são bons governantes, administradores, PCA, enfermeiros, médicos, advogados e profissionais de tantas outras áreas.
Para Osvaldo, a falta de recursos pode dificultar o processo de aprendizagem, mas não deve, por si só, determinar o fracasso de um aluno. Há sempre um papel decisivo reservado ao professor, que é de orientar, estimular, acompanhar e, acima de tudo, acreditar na capacidade de cada aluno para aprender.
Foi então que Osvaldo lançou uma provocação que ficou comigo:
— O mesmo professor que produz “burros” na escola pública produz “génios” na escola privada.
A frase é dura. Talvez exagerada. Mas merece ser discutida.
— Explique melhor, professor — pedi.
E ele explicou: “Há professores que, no ensino público, durante as actividades lectivas, distraem-se com chamadas telefónicas, redes sociais, selfies, conversas e até fofocas. Ausentam-se da sala por longos períodos, simplesmente para pôr o papo em dia, desperdiçando um tempo que deveria ser dedicado aos alunos. Na escola privada, perante as mesmas exigências profissionais, mudam de comportamento. E isto acontece, segundo Osvaldo, mesmo quando o professor aufere um salário mais elevado no ensino público do que no privado. Para ele, a diferença não está necessariamente na remuneração, mas na postura profissional, no sentido de responsabilidade e no comprometimento com a missão de ensinar.”
É aqui que entram a entrega, a criatividade, a disciplina, a preparação das aulas e a paciência para explicar quantas vezes forem necessárias. No entendimento do professor premiado, uma criança que está a aprender a ler não precisa apenas de um manual, mas, sobretudo, de um educador comprometido, atento às suas dificuldades e disposto a encontrar formas de a ajudar a aprender.
A conversa com Osvaldo fez-me olhar para a questão de outra maneira. Talvez a qualidade de ensino não comece nos gabinetes dos ministérios, nos documentos curriculares, nos manuais escolares ou nas políticas concebidas. Talvez comece com o professor.
Para todos os professores do país vai uma pergunta: que diferença está o seu trabalho a fazer na vida dos seus alunos?
Em fim, a todos os professores “Osvaldos Nhandumbuques” espalhados pelo nosso vasto país, que fazem da sala de aula um lugar de transformação, vão os nossos aplausos.