
Texto: Caetano Melhor
Manhã de sábado, Cidade de Quelimane acorda agitada, não pelo trânsito frenético das bicicletas, muito menos pela escassez de combustível nas bombas do Kapinga, mas sim pela notícia da morte do bispo da diocese de Quelimane Dom Osório Citora, vítima de homicídio.
Confesso, no início não dei muita importância, afinal nesta cidade que anima os machuabos são conhecidos por propagar boatos que correm rápido do que a verdade, continuei sentado no Erárrô, aquecendo meu mucutché de arroz com balachão, ao som da música do Mr. Maninho na Zambézia FM, eis que a música foi interrompida subitamente, a rádio ficou muda, lá ao fundo o locutor com a voz trémula, rasgava meus ouvidos anunciando, Igreja Católica Romana está de luto, o arcebispo foi morto por estranhos.
Perdi a fome, o mucutché ficou sem sabor, porque avizinhava-se um segundo homicídio causado pela forma de como teria que levar informação a minha Avó Tórrina, que a quando da visita do Bispo, a Comunidade sagrado coração de Jesus, na igreja do Torrone Novo, foi ela encarregue de oferecer ao Servo de Deus uma jarra de nipipa.
Cresci ouvindo Avó Tórrina dizer que a Igreja é mais do que um edifício, representa o refúgio moral. É lugar onde os aflitos encontram conforto, onde os poderosos, por alguns instantes são lembrados, da existência de alguém acima do poder terreno, que
o bispo é o servo escolhido de Deus.
Assumo que escrever é difícil, um exercício complexo, torna-se ainda pior quando percebemos que a justiça das armas se sobrepõe a justiça divina, é aí que escrever dá medo. Escrevo como neto da Avó Tórrina com o coração despedaçado e com as mãos trémulas, como medo de ser a próxima vítima da justiça das armas.
Avó Tórrina confidencializou-me sussurrando nos meus ouvidos com uma voz de quem tem medo da sua própria sombra, a residência episcopal não está perdida nas matas de Dhigúdhiwa, está localizada próxima ao STAE e a CNE, instituições que têm dispositivos de segurança e agentes destacados para a sua proteção.
Os Sussurros do Avó Tórrina criaram em mim inúmeras perguntas. Será que o Bispo foi morto fora da Diocese e o corpo levado de volta a casa episcopal? A cidade inteira tenha ficado surda e cega durante algumas horas? Como é possível uma cidade onde todos parecem saber tudo sobre todos, ninguém sabe nada quando acontece algo?
Do boleamento do MC trufafá, e agora, à morte do arcebispo, aos poucos a cidade que anima vai projectando um cardápio de picar paladar.
Que o tempo nos conduza aos Bons Sinais e a Avo Tórrina volte a preparar nipipa e madhugudho com gosto.