
Numa sala com figuras do poder, Severino Ngoenha disse o que raramente se diz em voz alta. O mais perturbador não foi a crítica – foi a reação.
Há momentos em que um país se revela sem filtro. Não em eleições. Não em discursos oficiais. Mas em lapsos. Em reações. Em risos fora de lugar.
Foi isso que aconteceu no debate que se seguiu à intervenção de Severino Ngoenha.
No meio de uma discussão sobre guerras esquecidas, multilateralismo e identidade, o filósofo fez uma afirmação simples, direta e politicamente explosiva: as elites moçambicanas são “extremamente egoístas”.
Não houve rodeios. Não houve linguagem diplomática. Foi um diagnóstico cru. E foi dito diante delas.
Sim, numa sala onde estavam presentes figuras das elites políticas, económicas e intelectuais do país. E o que aconteceu a seguir diz tanto quanto a própria frase.
Riram. Riram como quem reconhece. Riram como quem concorda. Riram como quem não se sente atingido. Ou, pior: riram como quem sabe — e não se importa.
A frase de Ngoenha não surgiu do nada. Ela fecha um raciocínio mais profundo e incômodo.
Ao responder às provocações levantadas, incluindo as do jornalista Borges Nhamire, o filósofo desmonta uma ideia frequentemente usada como desculpa: a de que os problemas de África vêm sempre de fora. Não.
Segundo Ngoenha, elites existem em todo o mundo. São elas que governam. São elas que decidem. A diferença entre países não está na existência de elites — está na forma como elas se orientam.
E aqui está a linha de rutura: Noutras geografias, elites podem ser egoístas — mas são pressionadas, reguladas, vigiadas.
Em Moçambique, sugere Ngoenha, o egoísmo tornou-se método. Não é desvio. É padrão. Isso ajuda a explicar muito do que o debate expôs.
Ajuda a explicar por que o norte de Moçambique continua a sentir-se distante de Maputo, não apenas geograficamente, mas politicamente.
Ajuda a explicar por que decisões estratégicas continuam concentradas.
Ajuda a explicar por que planos existem — mas raramente se traduzem em transformação real. Porque, no fundo, a pergunta já não é técnica. É moral.
Para quem governa o Estado?
O mais desconfortável é que esta crítica não foi feita por um ativista, nem por um outsider. Foi feita por alguém que conhece o sistema por dentro. Que circula nos mesmos espaços. Que fala para as mesmas pessoas.
E mesmo assim — ou talvez por isso — escolheu dizer. Mas dizer não basta. Porque o riso que se seguiu revela um problema ainda mais profundo: a normalização do desvio.
Quando uma elite ri ao ser chamada de egoísta, duas hipóteses se colocam — e ambas são graves:
Ou não leva a crítica a sério. Ou leva — mas já não vê nisso problema. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo: imobilismo.
O debate trouxe muitas questões — sobre guerras ignoradas, sobre língua, sobre o papel de África no mundo.
Mas nenhuma foi tão direta quanto esta. Porque, no fim, não é o Ocidente que decide como Moçambique distribui os seus recursos.
Não é o sistema internacional que determina quem tem acesso ao poder — e quem fica à margem. Isso é decisão interna. Isso é escolha política. Isso é elite. Ngoenha disse o que muitos pensam e poucos dizem.
Mas talvez o mais importante não tenha sido o que ele disse. Foi o facto de ninguém na sala ter ficado desconfortável o suficiente para parar de rir. E isso, mais do que qualquer teoria, é um retrato do país.