
Gastos militares sobem e pressionam África
Texto: Bernardo Soares
Escalada global atinge nível histórico e coloca África — incluindo Moçambique, entre a urgência da segurança e os limites do desenvolvimento.
O mundo está a armar-se e África sente os efeitos mesmo sem estar no centro das grandes disputas globais. Em 2025, os gastos militares globais atingiram 2,887 biliões de dólares, segundo o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI), marcando o 11.º ano consecutivo de crescimento e elevando o peso da despesa militar para 2,5% do PIB mundial, o nível mais alto desde 2009.
Mais do que um simples aumento, os dados revelam uma mudança estrutural: a segurança global está a ser redefinida por uma lógica de rearmamento contínuo, alimentada por guerras, rivalidades estratégicas e incertezas políticas.
Europa e Ásia aceleram corrida militar
Embora o crescimento global tenha sido de 2,9%, este número esconde uma dinâmica mais intensa: excluindo os Estados Unidos, os gastos aumentaram 9,2%, demonstrando que a escalada militar é hoje um fenómeno amplamente distribuído.
A Europa liderou esta tendência, com um aumento de 14%, atingindo 864 mil milhões de dólares: o crescimento mais rápido desde o fim da Guerra Fria. Este avanço reflete não apenas o impacto da guerra na Ucrânia, mas também uma mudança estratégica: países europeus estão a reforçar as suas capacidades militares para reduzir dependência externa e cumprir novas metas da NATO.
A Alemanha aumentou os seus gastos em 24%, ultrapassando pela primeira vez desde 1990 o limiar de 2% do PIB. Espanha registou um salto de 50%, sinalizando uma transformação profunda nas prioridades orçamentais.
Na Ásia e Oceânia, os gastos cresceram 8,1%, totalizando 681 mil milhões de dólares. A China manteve a sua trajetória ascendente, atingindo 336 mil milhões de dólares, num processo contínuo de modernização militar que já dura há mais de três décadas.
EUA recuam, mas só por agora
Os Estados Unidos continuam a ser o maior investidor militar do mundo, com 954 mil milhões de dólares, apesar de uma redução de 7,5% em 2025. A queda está ligada à ausência de novos pacotes de apoio militar à Ucrânia, após três anos de forte financiamento.
Ainda assim, o recuo deverá ser temporário. O Congresso já aprovou níveis superiores a 1 bilião de dólares para 2026, com projeções que podem atingir 1,5 biliões até 2027. Paralelamente, Washington continua a investir em capacidades nucleares e convencionais, com foco na contenção da China.
Três potências dominam metade do poder militar
Um dos sinais mais claros da desigualdade global está na concentração dos gastos: Estados Unidos, China e Rússia representam 51% de toda a despesa militar mundial, num total de 1,48 biliões de dólares.
Esta concentração reforça uma ordem internacional em que o poder militar está cada vez mais nas mãos de poucos, limitando a margem de manobra de regiões como África.
África cresce, pressionada pela insegurança
Em 2025, África aumentou os seus gastos militares em 8,5%, atingindo 58,2 mil milhões de dólares. Diferentemente de outras regiões, este crescimento não é motivado por disputas globais, mas por desafios internos de segurança.
A Nigéria lidera esta tendência, com um aumento de 55%, impulsionado por insurgências e violência extremista. O dado evidencia uma realidade crítica: muitos países africanos estão a investir mais em defesa por necessidade imediata, não por estratégia geopolítica.
Moçambique: segurança urgente num contexto de recursos limitados
Embora o relatório do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) não detalhe os gastos militares de Moçambique, o país encaixa-se no padrão identificado para o continente.
A insurgência em Cabo Delgado, a necessidade de reforço das Forças de Defesa e Segurança e a dependência de apoio externo colocam Moçambique diante de um dilema semelhante ao de outros países africanos: aumentar a despesa militar para garantir estabilidade ou preservar recursos para sectores críticos como saúde, educação e infraestruturas.
Num cenário de limitações fiscais, qualquer expansão significativa do orçamento de defesa levanta questões sobre sustentabilidade e prioridades nacionais, sobretudo num país que ainda enfrenta desafios estruturais de desenvolvimento.
O dilema africano
O aumento dos gastos militares coloca África diante de uma escolha difícil. Num continente com carências estruturais em saúde, educação e infraestruturas, cada dólar investido em defesa levanta a questão do custo de oportunidade.
Por um lado, a segurança é condição essencial para o desenvolvimento. Por outro, o desvio de recursos para o setor militar pode comprometer investimentos fundamentais para o crescimento económico e social.
Os dados do Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI) apontam para uma tendência clara: o rearmamento global não é episódico — é estrutural.
Com projeções de crescimento contínuo já para 2026, o mundo caminha para uma realidade em que o poder militar volta a ocupar o centro das relações internacionais.
Para África- e particularmente para Moçambique, o desafio será encontrar equilíbrio num cenário cada vez mais volátil. Porque, num mundo onde o armamento cresce, o risco é que o desenvolvimento fique para trás : silenciosamente.