Jornalismo ao pormenor

Arune Valy lança livro em Maputo e rejeita rótulo de escritor: “Eu escrevo para a rádio”

Texto: Bernardo Soares

Num ambiente marcado por emoção e simplicidade, o cronista Arune Valy apresentou, esta sexta-feira, em Maputo, a sua mais recente obra literária, insistindo em não se assumir como escritor, apesar do reconhecimento público da sua trajectória.

Maputo vive, nesta sexta-feira, um daqueles momentos em que a literatura se confunde com a vida. Na Associação dos Escritores Moçambicanos, o lançamento do livro de Arune Valy reuniu colegas, amigos e admiradores, num evento onde a palavra foi tanto celebração quanto reflexão.

A apresentação esteve a cargo de Daniel da Costa, que não apenas introduziu a obra, mas também desenhou o percurso de um homem que, segundo descreveu, sempre carregou na escrita um certo grau de inquietação. “Quando chegou à rádio, trouxe um problema: a crónica provocadora”, sublinhou, referindo-se ao estilo crítico e, por vezes, incómodo que caracteriza os textos de Valy.

Descrito na orelha do livro como alguém que “brincou como uma criança e casou como um adulto”, Arune Valy revelou, ao longo do evento, uma personalidade que alia simplicidade e profundidade. A sua postura — marcada por um sorriso discreto e uma voz comedida — reflecte, segundo colegas, a mesma autenticidade que imprime nas suas crónicas.

Formado na Escola de Jornalismo, após ingresso pela Rádio Moçambique, Valy destacou-se como um dos nomes que marcaram uma geração, ao lado de profissionais como Ortega Teixeira e Silva Frijone. Antes disso, nos anos 90, trabalhava como desenhador de projectos, trajectória que abandonou para se dedicar à comunicação.

Hoje, é reconhecido como um cronista de crítica social, cujos textos abordam temas sensíveis e, frequentemente, desconfortáveis. “É um homem das crónicas incómodas”, referiu um dos intervenientes, sublinhando o seu papel na construção de uma voz adulta e respeitada no espaço público.

Apesar disso, o próprio Arune recusa o título que muitos lhe atribuem.

Durante uma interacção com o público, provocada pelo escritor Filimone Meigos, o autor foi desafiado a assumir-se como escritor — algo que rejeitou com convicção. “Nunca quis ser escritor. Nunca pensei em escrever crónicas”, afirmou.

Instado pela Lupa News a aprofundar essa posição, respondeu de forma simples, mas clara: “Eu escrevo para a rádio. Há escritores que escrevem para o livro.”

A resposta arrancou aplausos e abriu espaço para uma reflexão espontânea sobre os limites e significados da escrita.

Sérgio Pantie, também presente no evento, reforçou a dimensão humana do homenageado: “É uma pessoa simples. Nunca vi rugas no seu rosto. Um homem extraordinário, bom amigo e bom pai.”

Questionado sobre o seu processo criativo, Arune Valy revelou não seguir regras fixas: escreve “em qualquer momento — no carro, na cozinha, de pé ou na cama”. Explicou ainda que muitas das suas crónicas nascem de ideias aparentemente dispersas, que depois desenvolve com liberdade.

Essa liberdade, aliás, é central na sua relação com a escrita. Segundo o próprio, há períodos em que simplesmente não escreve, mesmo sob solicitação editorial.

“Posso ficar um mês sem escrever”, disse, deixando claro que, para si, a crónica não é obrigação, mas expressão.

Num gesto que simbolizou a sua postura ao longo de toda a sessão, Arune fez questão de se levantar para falar, mesmo sendo o protagonista do evento — um detalhe que não passou despercebido e que reforçou a imagem de humildade que lhe é amplamente reconhecida.

Entre aplausos e reflexões, ficou evidente que, mesmo recusando o rótulo, Arune Valy ocupa um lugar incontornável na escrita moçambicana contemporânea — seja na rádio, no livro, ou na memória colectiva de quem o lê e escuta.

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