Jornalismo ao pormenor

AVÓ TORRINA, DESCULPE-ME, HOJE TEMOS DE FALAR DA RENAMO!

Por Caetano Melhor

Avó Torrina, eu havia prometido nunca falar da Renamo, visto que a Senhora nutria uma enorme simpatia pelo saudoso Afonso Dhlakama, não apenas pela sua trajectória política, mas também porque carregava o primeiro nome do seu falecido esposo. Para si, falar de Dhlakama era quase como recordar o velho Afonso, aquele que a senhora ainda menciona com saudade nas suas conversas.

Avó, perdoe-me! Há promessas que a actualidade política nos obriga a reconsiderar. Ontem, ouvi nos órgãos de comunicação social, aqueles que a senhora carinhosamente chama de fofoqueiros, notícias sobre a expulsão de um político que, durante muito tempo, ocupou um lugar especial no seu coração. Sim, Avó, aquele mesmo que a senhora chegou a comparar com Samora Machel!

Confesso, fiquei preocupado. Não por mim, evidentemente, mas pela senhora. Imagino o choque de ouvir que o seu político de estimação já não pertence ao partido que ajudou a construir a sua identidade política.

Avó, a política tem destas coisas, ontem, alguém é apresentado como herdeiro de uma grande tradição, hoje, pode descobrir que já não tem lugar à mesa onde julgava ter cadeira cativa.

E há aqui um pormenor que merece a nossa reflexão. A senhora lembra-se daquele senhor a quem chama de cabeludo, que manifestou a intenção de concorrer à liderança da Renamo? Pois é, Avó! O seu protegido esteve na linha da frente contra as pretensões daquele concorrente. Na altura, parecia que a batalha pela liderança era uma questão de princípio, de disciplina e da defesa dos interesses do partido.

Agora, porém, a política apresenta-nos um daqueles episódios que até os roteiristas das novelas teriam dificuldade em escrever sem serem acusados de exagero. Afinal, Avó quem defende quem na política? E quem acaba por ser defendido quando os interesses deixam de coincidir?

Não pretendo julgar os motivos que conduziram a esta decisão, nem transformar rumores em verdades absolutas. Mas uma expulsão partidária, sobretudo quando envolve figuras de destaque, levanta questões que merecem respostas, estamos perante uma questão de disciplina interna, uma divergência política ou um conflito mais profundo sobre o rumo da Renamo?

 

Não tenho respostas, Avó. E seria desonesto fingir que conheço o desfecho de uma história que ainda está a ser escrita. O que sei é que a política moçambicana tem uma memória curiosa, os aliados de ontem podem tornar-se adversários de hoje, os adversários podem reencontrar-se amanhã e os discursos que ontem pareciam definitivos acabam, por vezes, esquecidos nas gavetas da conveniência.

Por isso, Avó Torrina, não fique triste. Guarde as fotografias, preserve as memórias e, sobretudo, não deposite toda a sua esperança num único político. Na política, a lealdade partidária pode ser posta à prova, as lideranças mudam e as certezas de hoje podem transformar-se nas dúvidas de amanhã.

E agora, Avó, diga-me uma coisa, se aquele que a senhora comparava-o com Samora já não pertence à Renamo, continuará a merecer a mesma admiração ou a comparação também será expulsa do seu coração?

Avó Torrina, não se apresse a chorar. Talvez esta expulsão seja, paradoxalmente, uma bênção. Sair da RENAMO, neste momento, pode ser comparado a abandonar um navio em que os passageiros discutem quem deve ser o capitão, enquanto a tripulação debate se a água que entra no convés é uma infiltração ou apenas uma interpretação pessimista da realidade.

O mais engraçado, Avó, é que, em certas embarcações políticas, ninguém quer admitir que o barco precisa de reparações. Todos preferem discutir a cor do uniforme do capitão, a antiguidade do marinheiro e a legitimidade de quem segura o mapa. No fim, o navio continua no mesmo lugar, mas já há uma comissão para investigar quem teve a ousadia de mencionar a água.

É aqui que reside o verdadeiro drama da RENAMO. O partido possui uma história importante na política moçambicana e um legado que merece ser reconhecido. Mas história não é combustível, e a memória de um grande líder não pode funcionar eternamente como motor de uma organização. O passado pode indicar o caminho, mas não pode caminhar sozinho

No fim, Avó Torrina, fica uma pergunta, a RENAMO está a lutar para decidir o seu futuro ou está apenas a disputar as chaves de uma casa em que todos querem ser proprietários, mas poucos parecem interessados em reparar o telhado? Porque, se cada divergência terminar numa expulsão e cada disputa produzir uma nova divisão, poderá chegar o dia em que o partido terá mais antigos membros do que membros actuais. Nesse cenário, as reuniões poderão tornar-se curiosas, metade da agenda será dedicada à estratégia política e a outra metade à recordação de quem já saiu.

Avó, imagine a ironia de um partido que começa por organizar reuniões para escolher os seus dirigentes e termina a precisar de reuniões para explicar por que razão já não consegue reunir os seus dirigentes.

Mas não declaremos já o funeral. Na política, até os partidos que parecem adormecidos podem despertar. Para isso, porém, precisam abandonar a ilusão de que a história lhes garante um futuro e perceber que a confiança dos cidadãos não é uma herança automática, muito menos uma propriedade vitalícia.

Talvez o maior adversário da RENAMO não seja o cabeludo, nem o político expulso, nem qualquer outro nome que ocupe as conversas dos militantes. Talvez seja a tentação de confundir a sobrevivência da organização com a sobrevivência política dos seus dirigentes.

E agora, Avó Torrina, volto à pergunta que lhe fiz no início, se aquele que a senhora o comparava com Samora já não pertence à RENAMO, continuará a merecer a mesma admiração ou essa comparação também será expulsa do seu coração?

Não responda depressa, Avó. Dê tempo ao tempo. Porque, se há uma coisa que a política nos ensina, é que as comparações também fazem campanha, os elogios também mudam de partido e até as convicções mais sólidas, quando confrontadas com os acontecimentos, podem pedir uma reunião extraordinária.

Pergunto apenas por curiosidade. Afinal, prometi não falar da RENAMO, mas não prometi ficar calado quando a política nos oferece capítulos tão difíceis de ignorar e transforma a nossa realidade numa comédia em que ninguém quer assumir o papel de palhaço, embora todos disputem o centro do palco.

 

Assinado: pelo seu neto Massepece, que hoje quebrou a promessa, mas continua a respeitar a sua memória política.

Deixe uma resposta