SOS desafia crise de financiamento para proteger crianças moçambicanas

Dos actuais 43 mil para meio milhão de beneficiários até 2028

Com os apoios internacionais em queda e os desafios da pobreza, dos conflitos armados e das mudanças climáticas a agravarem a vulnerabilidade infantil, a Aldeias de Crianças SOS Moçambique aposta em novas parcerias para multiplicar por seis o número de beneficiários dos seus programas. Em entrevista ao Lupa News, o Director Nacional, Gerson Machevo, explica como a organização pretende transformar uma meta ambiciosa num esforço nacional em defesa da infância.

A Aldeias de Crianças SOS Moçambique quer multiplicar por seis o número de crianças e beneficiários alcançados pelos seus programas nos próximos anos, passando dos atuais 43 mil para cerca de 500 mil até 2028. A meta faz parte do Plano Estratégico 2024-2028 e surge numa altura particularmente desafiante para as organizações sociais, confrontadas com a redução dos financiamentos internacionais e o agravamento de problemas que afetam diretamente as crianças, desde a pobreza e a insegurança alimentar até aos conflitos armados e às mudanças climáticas.

O anúncio foi feito pelo Diretor Nacional da instituição, Gerson Machevo, durante a apresentação pública do plano estratégico, num encontro que reuniu representantes do Governo, organizações da sociedade civil, parceiros de cooperação e setor privado.

Para Machevo, a ambição da meta reflete a dimensão dos desafios que Moçambique continua a enfrentar.

«“O centro deste plano são cerca de 500 mil crianças a serem apoiadas pelos nossos programas. É uma meta muito ambiciosa, mas não esperamos fazê-lo sozinhos. Esperamos fazer juntos”, afirmou.»

A organização está em Moçambique desde 1986 e iniciou as suas atividades em 1987, na província de Tete, em resposta às consequências da guerra que afetava o país. Ao longo de quase quatro décadas, expandiu a sua presença para Maputo, Inhambane, Sofala, Manica, Tete e Cabo Delgado, desenvolvendo programas de cuidados alternativos, fortalecimento familiar, educação, desenvolvimento comunitário e proteção infantil.

Hoje, porém, a realidade apresenta novos desafios.

Enquanto o conflito armado em Cabo Delgado continua a produzir deslocamentos e vulnerabilidades, fenómenos climáticos extremos, como ciclones, cheias e secas, afetam cada vez mais famílias. Ao mesmo tempo, a pobreza e a insegurança alimentar continuam a comprometer o desenvolvimento de milhares de crianças.

“Não podemos chegar aos 500 mil sozinhos”

Um dos aspetos mais marcantes do discurso de Machevo foi o reconhecimento de que a organização não dispõe, por si só, dos recursos necessários para alcançar a meta estabelecida.

Pergunta: Num contexto de redução dos financiamentos internacionais, como pretende a SOS alcançar 500 mil beneficiários?

Gerson Machevo: “Esta é precisamente uma das razões pelas quais promovemos este encontro. Há uma redução clara dos financiamentos externos para as organizações não-governamentais. Mas existem oportunidades de colaboração com o setor privado, com outras organizações e com o Governo. Não vemos esta meta como algo que a SOS possa alcançar sozinha.”

O responsável defende que a resposta aos desafios da infância deve ir além do financiamento.

Gerson Machevo: “Nem tudo é dinheiro. Às vezes são ideias, metodologias, experiências e formas de trabalhar que podem ajudar-nos a chegar mais longe. Existem muitas instituições que já trabalham em áreas complementares às nossas. Se criarmos sinergias, poderemos aumentar significativamente o impacto.”

Segundo explicou, a organização pretende fortalecer alianças estratégicas para expandir programas de proteção infantil, empoderamento juvenil, resposta humanitária e desenvolvimento comunitário.

Cabo Delgado continua a exigir respostas urgentes

A situação em Cabo Delgado permanece entre as maiores preocupações da organização.

Além dos impactos diretos do conflito, a província enfrenta problemas relacionados com pobreza, desemprego juvenil, insegurança alimentar e fragilidade dos serviços sociais.

Pergunta: Como avalia a situação atual das crianças em Cabo Delgado?

Gerson Machevo: “Infelizmente continua a ser uma situação preocupante. O conflito aumenta a vulnerabilidade das crianças. Mas também existem desafios ligados à alimentação, educação e proteção. Nenhuma organização consegue responder sozinha à dimensão do problema.”

Para enfrentar essa realidade, a SOS desenvolve programas de empreendedorismo juvenil, preparação para o emprego, agricultura sustentável, adaptação às mudanças climáticas e promoção da coesão social.

Gerson Machevo: “Estamos a trabalhar para fortalecer capacidades nas comunidades, especialmente entre os jovens. Também promovemos mensagens ligadas à paz, estabilidade e proteção da criança. Sabemos que a comunidade tem um papel fundamental na defesa dos direitos das crianças.”

 

Violência, casamentos prematuros e mudanças climáticas continuam a ameaçar crianças

Durante a entrevista, o Diretor Nacional destacou que os desafios da proteção infantil vão muito além dos conflitos armados.

A violência contra crianças, os casamentos prematuros, a desnutrição e os impactos das alterações climáticas continuam a comprometer o futuro de milhares de menores em todo o país.

Gerson Machevo: “Temos de continuar a divulgar as leis existentes e a trabalhar com as comunidades. O casamento prematuro é crime em Moçambique e é importante que esta mensagem chegue às famílias. Também precisamos de continuar a sensibilizar sobre a proteção da criança e os seus direitos.”

Segundo o responsável, muitos dos problemas que afetam a infância estão ligados a práticas culturais, falta de informação e fragilidades económicas que exigem intervenções de longo prazo.

Quase 40 anos de resultados

Apesar dos desafios, a organização considera que os quase 40 anos de atividade em Moçambique produziram resultados significativos.

Pergunta: Que resultados concretos a SOS apresenta atualmente?

Gerson Machevo: “Temos atualmente cerca de 43 mil beneficiários alcançados pelos nossos programas. Muitos jovens que passaram pelas nossas iniciativas estão hoje inseridos no mercado de trabalho e contribuem para o desenvolvimento do país.”

O responsável destaca ainda o apoio prestado à educação e ao desenvolvimento comunitário.

Gerson Machevo: “Trabalhámos profundamente na área agrícola para melhorar a alimentação e a nutrição das comunidades. Também apoiámos o setor da educação. Temos infraestruturas escolares em Cabo Delgado e Tete que foram posteriormente entregues ao Governo para continuarem a servir as comunidades.”

Um apelo à mobilização nacional

Ao apresentar o Plano Estratégico 2024-2028, a SOS procurou transmitir uma mensagem simples: a proteção da criança não pode ser responsabilidade de uma única organização.

Num país onde milhões de crianças continuam expostas à pobreza, violência, insegurança alimentar, conflitos e desastres naturais, a meta de alcançar 500 mil beneficiários representa um desafio que ultrapassa a capacidade de qualquer instituição isolada.

Por isso, a organização aposta numa estratégia baseada em parcerias, colaboração e responsabilidade partilhada.

“Se quisermos ir longe, temos de ir juntos”, resumiu Gerson Machevo.

A frase sintetiza a visão da SOS para os próximos anos: transformar uma meta aparentemente impossível num esforço coletivo capaz de ampliar a proteção e as oportunidades para centenas de milhares de crianças moçambicanas.

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