O ocaso das memórias

Por Ungulani Ba Ka Khosa
Morreu o João Munguambe, veterano da luta de libertação, um dos fundadores da Frente de Libertação de Moçambique, um dos personagens mais discretos da gesta nacionalista, um indivíduo que se movia por entre as sombras. Conheci-o primeiro através de textos sobre a luta de libertação a que fui tendo acesso, e, posteriormente, através de conversas informais sobre a gesta da libertação.
Quando tive a oportunidade de o conhecer pessoalmente, não me saiu da mente que estava em presença de um personagem biografável. Uma fala contida, quase sussurrante, para um indivíduo com mais de um metro e oitenta.
Era a época das biografias dos combatentes, das histórias publicadas. Acreditava-se numa história de luta mais humanizada, menos estereotipada. Sol de pouca dura.
Em uma das conversas que tivemos convenci-o a falar da sua experiência, dizendo-lhe que a História da luta de Libertação Nacional não devia ser feita com esboços, com clichés, com palavras de ordem, com frases sem alma. Vocês, dizia-lhe, eram então jovens na classe dos vinte anos de idade, jovens atreitos a aventuras, a entregas desinteressadas, sonhando com uma independência, nada prosélitos, não podem, na idade madura, reduzir as vossas vidas a lugares-comuns. Riu-se e nada disse. Em conversas ulteriores tentei convence-lo, dizendo que a par do Marcelino dos Santos (com as devidas distâncias), ele, pela riqueza da sua vida precoce como militante na Udenamo, um dos movimentos percursores da Frente de Libertação de Moçambique, sendo, em consequência, membro fundador; e secretário do Departamento de Defesa e Segurança, na lista aprovada durante o I Congresso da Frente, reunia os requisitos para falar com toda a tranquilidade sobre os momentos que antecederam a formação da Frente de libertação (25 de Junho de 1962), e as quezílias que se seguiram depois do I congresso (23 a 28 de Setembro de 1962) até à mudança, em definitivo, para Dar-es-Salaam, de Eduardo Mondlane, como primeiro presidente da Frelimo, em Março de 1963.
Falei-lhe do enigmático personagem que dava pelo nome de Leo Milas, que apareceu, em Dar-es-Salaam, com credenciais confirmadas, no primeiro congresso (em que esteve ausente), como secretário do departamento de informação e propaganda, e das escaramuças que levaram as vias de facto entre Leo Milas e o próprio João Munguambe, David Mabunda e Paulo Gumane, levando o governo tanzaniano a expulsá-los da Tanzania, então Tanganica. Convenci-o. Mas ficou por confirmar. E neste interim fiquei por criar uma equipa que iria trabalhar com ele na futura biografia.
Semanas depois apareceu-me para dizer que havia consultado alguns camaradas, nomeadamente o falecido Lopes Tembe, provavelmente o seu guia, membro fundador da Udenamo, proeminente dirigente da Frelimo e embaixador de Moçambique em várias missões diplomáticas. Percebi logo. O lado sectário dos então jovens da Frente foi mais forte. Para eles o que devia vingar era a narrativa insossa, sem gosto, sem alma, duma gesta que devia perdurar por séculos, mas que se esboroa a cada dia que passa.
Agradeci ao João Munguambe. E vi-o a afastar-se com a sua altura silenciosa, perdido no seu imaginário nunca tornado público, pois esteve na primeira fila, na linha de frente e, gradualmente, foi sendo preterido, tornando-se uma personagem secundária, a que fica no fundo das mesas laterais dos grandes banquetes. Da última vez que nos vimos foi em 2018, quando o condecoraram com a medalha Eduardo Mondlane do segundo grau. Senti, em plena praça dos heróis, que estava ali um personagem que preferiu o silêncio para sobreviver ao tempo.
Vai em paz, João Munguambe.
Maputo, Agosto de 2026
Ungulani Ba Ka Khosa
Comentários (0)
Adicionar comentário