Ungulani Ba Ka Khosa
Gosto do mês de Setembro, pois saio meio combalido no meu mês ventoso, turbulento, cenário ideal para o Leão, e entro na calmaria da Virgem e da Balança, do peso certo, do equilíbrio. Mas Setembro tem outro encanto para mim: é o mês do dia D, do início da libertação, do deflagrar da luta. E em consequência, o grande respeito que nutro pelos libertadores, pela AACLIN. Quando a associação foi criada, veio-me à mente a dignidade dos combatentes da segunda guerra mundial, nas várias latitudes do mundo, em paradas alusivas ao fim da guerra. À medida que os anos foram passando, os soldados da grande guerra foram diminuindo em número, mas a dignidade, o garbo, a distinção, a elegância, a graça que dimana neles, infunde respeito a qualquer cidadão do mundo. Assim imaginei os nossos antigos combatentes da pátria. Mas a realidade mostrou-me um cenário completamente distinto.
O que me fez moça logo nos anos oitenta/noventa, foi a apropriação indevida do título de antigo combatente. Formalmente a guerra de libertação teve o seu términus com a assinatura dos Acordos de Lusaka, a 7 de Setembro; mas informalmente a guerra terminou com o golpe de Estado de 25 de Abril. Daí que nos meses de Maio/Junho/Julho de 1974, muitos jovens abarrotaram o campo de treino de Nachingueia, enfileirando-se nas hostes da Frente de Libertação, treinando para serem polícias, agentes de segurança, e em outros ofícios dignos de um Estado. Perguntava-me: esses fulanos têm o direito de se apresentarem como antigos combatentes, tal como as centenas de deserdados que vi, em finais dos anos 70, em Lichinga, e nos longínquos distritos da província, sem tecto condigno, nem conhecimento da existência de um interruptor de luz, e muito menos de água canalizada, mas que me contavam, em infindáveis noites em redor de uma lareira, com um copo de cacholima – aguardante caseiro, as memoráveis epopeias da luta de libertação nos anos 66, 67, 68, 69, em diante, com um olhar sofrido, compungente, mas ao mesmo tempo compensador. Onde está a memória desses homens e mulheres que não tiveram a sorte de usufruir a independência com a dignidade que lhes era devida?
Outro factor que me desiludiu por completo, foi esse inusitado artifício jurídico, criado na vigência do Presidente Guebuza, que estatuiu o direito dos filhos dos antigos combatentes gozarem do estatuto de antigo combatente.
Não fiquei vermelho, mas empalideci. De novo a pergunta veio à tona: onde estão os verdadeiros combatentes da Pátria, aqueles camponeses sem terra, com fardas descoloridas, o quepe perfurado pela chuva e vento, cantil sedento de água, kalachinikov ao ombro, botas destroçadas pelas longas caminhadas nas impenetráveis florestas do interior de Niassa, Cabo Delgado, Tete, Manica e Sofala? Gostaria de vê-los em cadeiras de rodas, ou em andarilhos, ou com muletas, mas galhardos, airosos, desfilando na grande praça dos Heróis, com a certeza nos olhos de que a independência valeu a pena.
Mas o presente não me dá essa alegria porque branquearam a História da Luta de Libertação.
Ainda assim, Viva o 25 de Setembro, Viva o 07 de Setembro!
Maputo, Setembro de 2026
Ungulani Ba Ka Khosa