O Analista ou o Investigador?

Por caetano Melhor

Há um momento em que o analista deixa de analisar e começa, inadvertidamente, a investigar. e há outro, ainda mais perigoso, o que deixa de investigar e passa a sentenciar.

Foi precisamente com esta sensação que fiquei depois de ouvir o analista defender, na TV Sucesso, que o homem que disparou contra Narciso Sambo poderá ter sido um infiltrado e não um agente da Polícia da República de Moçambique, fiquei espantado pela explicação

A pergunta não é dirigida à Polícia, nem ao Ministério Público é dirigida ao Analista, Como chegou a essa conclusão? Porque um infiltrado não se reconhece pelas roupas, não se identifica pela forma de caminhar, não traz um cartão pendurado ao pescoço a dizer: “Sou infiltrado.” Então, que elementos sustentam essa hipótese? Será o analista teve acesso ao processo de investigação ou  recebeu informações privilegiadas?

Ou estamos perante uma teoria construída para preencher o vazio deixado pela falta de respostas? Admitamos, por um instante, que a hipótese esteja correcta, então estamos diante do infiltrado mais eficiente da história recente de Moçambique, sabia exactamente o dia da operação, sabia a hora, o local, sabia quando deveria actuar.

A pergunta torna-se inevitável. Quem lhe entregou a agenda da Polícia? Porque operações policiais não são anunciadas em conferências de imprensa antes de acontecerem, não são publicadas nas redes sociais, não são distribuídos em panfletos, se esse alegado infiltrado apareceu exactamente onde a Polícia estaria, alguém terá de explicar como obteve essa informação.

E essa talvez seja uma pergunta mais grave do que a própria teoria do infiltrado, curiosamente, durante a entrevista, Romeu Carlos colocou uma questão que muitos moçambicanos fariam.

Se o homem não fazia parte da PRM, por que não foi imediatamente detido? A resposta foi desconcertante. “Não se sabe.” Ora, se não se sabe por que não foi detido, se não se sabe quem ele é, se não se sabe para onde foi, se não se sabe quem o enviou

Como se sabe que era um infiltrado? É exactamente aqui que a narrativa começa a tropeçar, porque uma hipótese séria nasce das provas.

Não substitui as provas, até hoje, esse alegado infiltrado foi identificado? Foi localizado? Prestou declarações? Foi constituído arguido? Existe alguma informação oficial que confirme a sua identidade? Ou continua apenas a existir no campo das hipóteses?

Num Estado de Direito, um homicídio não se explica com personagens invisíveis. Explica-se com investigação. Explica-se com perícias. Explica-se com provas. Há um perigo enorme quando figuras públicas começam a oferecer respostas definitivas para perguntas que a própria investigação ainda procura responder.

Porque a opinião pública deixa de acompanhar os factos e começa a acompanhar narrativas. E narrativas, por mais elegantes que sejam, não substituem evidências. No fim, talvez a questão já não seja saber quem disparou. A questão passa a ser outra.

Quem investiga este caso, o Ministério Público ou os comentadores televisivos?

Porque, se um analista já sabe que o autor era um infiltrado, resta apenas uma curiosidade. Que faça um último favor ao país. Diga-nos quem é onde está quem o infiltrou, como soube da operação, e por que razão, passados tantos dias, ninguém conseguiu encontrá-lo para prestar declarações.

Enquanto essas respostas não existirem, a teoria do infiltrado continuará exactamente onde nasceu. No território das hipóteses, e um país que substitui provas por hipóteses corre o risco de transformar a justiça num exercício de imaginação.

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