Gaza quer ser pólo de desenvolvimento, mas o interior ainda espera pelo investimento

Bernardo Soares

Conferência internacional promete atrair capital para uma província com potencial agrícola, mas Lupa News encontrou comunidades entre a pobreza, cheias e secas e investidores à espera de respostas.

Gaza quer afirmar-se como um dos novos polos de desenvolvimento económico de Moçambique, mas, a poucos dias da Conferência Internacional de Investimentos lançada esta quinta-feira, 10 de Setembro, em Maputo, a realidade encontrada pelo Lupa News em algumas localidades do interior da província mostra um cenário ainda distante da promessa de transformação económica.

Uma semana antes da presença de membros do Governo Central na província, uma equipa do Lupa News percorreu algumas localidades dos distritos de Chókwè, Guijá e Mabalane, onde encontrou comunidades marcadas por níveis elevados de pobreza e por uma preocupação recorrente: a dependência de uma actividade agrícola vulnerável a ciclos de cheias e secas.

A contradição é evidente. Gaza dispõe de terras com elevado potencial agrícola e de importantes sistemas de regadio no Vale do Limpopo, mas, para muitas das populações visitadas, esse potencial ainda não se traduz numa melhoria proporcional das condições de vida.

É neste contexto que o Governo pretende reposicionar a província perante investidores nacionais e internacionais.

No lançamento da Conferência Internacional de Investimentos de Gaza, a Ministra das Finanças, Carla Loveira, defendeu que a província não deve continuar a ser vista apenas pela sua vulnerabilidade climática histórica, mas como um “polo de desenvolvimento sustentável”.

Segundo a governante, Gaza possui condições para assumir um papel relevante na produção e transformação agro-industrial, destacando a produção de castanha de caju, frutas, arroz e hortícolas, além das cadeias pecuárias. Referiu igualmente a existência de dois dos maiores regadios da África Subsaariana no Vale do Limpopo.

A localização geográfica da província foi apresentada como outra vantagem para a atracção de capital. A ligação ferroviária e rodoviária aos mercados da África do Sul e do Zimbabwe, segundo a Ministra, pode transformar Gaza numa zona de parcerias económicas com potencial de retorno para investidores.

“País está aberto para negócios”, afirmou Carla Loveira, apelando aos fundos internacionais, à banca e ao empresariado nacional para olharem para Gaza como uma nova fronteira de produtividade na África Austral.

O investimento que ainda não chega

Mas a concretização dessa visão enfrenta obstáculos que vão além da disponibilidade de terras, água ou localização estratégica.

Durante a passagem por Chókwè, Guijá e Mabalane, Lupa News recolheu relatos sobre projectos de investimento que continuam sem avançar, num dos casos há vários anos, devido à demora na tramitação e resposta das entidades públicas perante processos considerados complexos.

O caso é particularmente relevante porque coloca uma questão central à estratégia de atracção de investimento para Gaza: não basta apresentar oportunidades se os investidores encontram dificuldades para transformar projectos em empreendimentos concretos.

Lupa News não encontrou, nas localidades visitadas, sinais de grandes projectos privados de implementação imediata capazes de alterar, no curto prazo, a realidade económica das comunidades.

Isso não significa ausência de potencial. Pelo contrário. O que a reportagem encontrou foi uma grande distância entre o potencial económico reconhecido nos discursos oficiais e a capacidade actualmente visível de esse potencial gerar emprego, rendimento e transformação local.

Entre cheias e secas

Nos distritos visitados, a agricultura continua no centro da vida económica das comunidades, mas também da sua vulnerabilidade.

A sucessão de períodos de seca e episódios de cheias mantém muitas famílias numa situação de incerteza. Quando há água em excesso, a produção e os meios de subsistência podem ser afectados; quando a chuva falha, a disponibilidade de água e a capacidade produtiva voltam a ficar ameaçadas.

É precisamente esta vulnerabilidade que o Governo pretende transformar em oportunidade económica através de investimento, infra-estruturas, agricultura irrigada e industrialização.

O Governador de Gaza, Alfeu Cuna, classificou o lançamento da conferência como um momento histórico para afirmar a província como um dos polos estratégicos do desenvolvimento económico de Moçambique.

Segundo Cuna, a iniciativa pretende reposicionar Gaza como um território confiável e sustentável para as actuais e futuras gerações.

O desafio, contudo, será fazer com que essa nova imagem de Gaza chegue às comunidades que hoje continuam a viver com os efeitos da pobreza e da vulnerabilidade climática.

A Conferência Internacional de Investimentos de Gaza abre, assim, uma nova janela para a província. A questão que permanece é se os investidores encontrarão, no terreno, condições suficientemente rápidas e previsíveis para transformar as oportunidades anunciadas em projectos concretos.

E, sobretudo, se esses investimentos conseguirão chegar para além dos grandes centros e corredores económicos, alcançando os distritos onde o potencial agrícola continua a coexistir com a pobreza extrema.

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