Por Agostinho Levieque
Contemplando a plêiade de ilustres convidados e participantes presentes nesta sala, peço que me seja permitido abrir um parêntesis para reconhecer a presença de Sua Excelência Salim Valá, Ministro de Planificação e Desenvolvimento em representação de Sua Excelência Daniel Francisco Chapo, Presidente da República de Moçambique, a Direcção da Universidade Apolítica, a naipe de convidados e todo o protocolo observado.
O livro que passo a apresentar tem como título “Metamorfoses da Terra”. É o primeiro de autoria de Victor Máquina, Jornalista arguto, autodidacta, um intelectual orgânico que não se contenta de maneira simples: ter um diploma, fazer carreira e calar-se para sempre. O livro foi editado pela ethale, tem 31 crónicas e 210 páginas.
O Livro está bem estruturado, com os títulos devidamente organizados que orientam o seguimento, a higiene linguística facilita a sua leitura e compreensão. O leitor pode também optar por ler selectivamente os títulos, segundo o seu interesse.
Aceitei apresentar este livro porque o meu nome pertence, de algum modo, àqueles que apresentam pensamento lateral e transformacional para mudar vidas em benefício da sociedade que sempre tenho defendido, e não tenho o direito de recusar quando entendam fazer o uso dele, no serviço dessa mesma sociedade. E mais, identifico-me tenazmente com Máquina porque é um autor de arrojo, age com a intrepidez, um homem com um destino extraordinário, um porta-voz daqueles que se consideram anónimos e, na procura de serem ouvidos.
O título de um livro é, normalmente, um espaço de tensão e, por isso mesmo, passível de leituras nem sempre conciliáveis. Mas é um lugar onde se desenha, de modo particular o horizonte de expectativas. O título deste livro é o que está visível.
Metamorfoses da Terra é uma leitura social e politica da nossa República que pode ser entendida de várias perspectivas de acordo com o ângulo em que cada um se encontra e o tipo de graduação dos óculos que cada um porta. Certamente chama atenção de qualquer leitor.
Confesso que à primeira vista, fui invadido por algum desconforto com o título; dizia cá por mim, na minha sintaxe mental: que autor é este que vai querer que o leitor se interesse pelo fascínio do seu imaginário infinito do Universo? Mas quando mergulhei na leitura fui notando que o autor partilha a sua visão sociopolítica baseada nos seus mais de 20 anos de experiência de trabalho jornalístico.
Metamorfose é uma palavra que ouvi pela primeira vez, na disciplina de Biologia, no capítulo de “estrutura de célula,” quando frequentava a 5ª classe na Escola Secundária de Mirrote. Ela significa mudança, transformação de um ser em outro. No sentido figurado, metamorfose é a mudança que ocorre no carácter, no estado ou na aparência de uma pessoa. É a transmutação. Ao percorrer as linhas deste livro encontrei evidências empíricas de transformação pura e divina da nossa terra: Nampula.
Importa sublinhar que uma das interpretações de leituras precisas refere que a produção de um livro é uma afirmação de uma tese, é um ponto de vista afirmativo e os especialistas dizem ainda, cada livro escrito é uma arrogante afirmação de um pensamento apresentado pelo autor.
Nessa perspectiva, este livro simboliza a inconformidade com o absurdo, a negação do pacifismo aparente e a exaltação da grandeza de um povo que constituí o maior grupo etnolinguístico do país.
Embora eu não tenha qualificações de crítico literário, apraz-me sublinhar que a crónica que é o forte deste livro é um género literário caracterizado por narrativa curta, escrita com a linguagem simples e coloquial focada em temas do quotidiano, reflexões sociais com forte presença de subjectividade. E mais, como género, a crónica deve muito aos impulsos exteriores, à necessidade premente de se estar com o leitor, de sentir a sua pulsação, e de avivar constantemente a sua memória.
O autor escolheu Nampula como unidade de análise para reflectir, de forma desapaixonada e provocante sobre a vida sociopolítica daquela província nas últimas décadas. Na verdade, o livro oferece mais do que uma estrita abordagem da literatura contemporânea dado que aborda assuntos transversais relacionados com a Educação, Antropologia cultural, Ciência Política, Sociologia política, Psicologia política, Teoria de Conhecimento e uma rica fonte da história política recente do país.
Não é por acaso que a primeira crónica do livro tem como título “Nampula: procurada, nunca assumida”. É isso, não é por acaso que este texto assume a dianteira das mais de três dezenas de crónicas. O autor traz um tema sempre actual sobre o tráfico de influências, neste que é o maior círculo eleitoral, para o acesso ao cargo de deputado.
Ele pergunta na sua crónica “Quantas vezes os teus filhos foram forçados a aceitar um irmão cujas raízes não se conhecem só porque pretende tê-lo em alguma liderança? Entra pela lista de Nampula e já está! A Assembleia da República é exemplo disso’’ (p. 21).
O autor não pára por essa indagação, aumenta a velocidade trazendo uma discussão muito complexa de representatividade nos cargos governamentais. O enredo se desenvolve na crónica intitulada “Em Extinção,” página 61 em que ele compara os Macuas com os big five, uma designação atribuída aos cinco mamíferos selvagens (leão, elefante, búfalo, leopardo e rinoceronte) de grande porte, mais difíceis de serem caçados pelo homem, mas que correm o risco de extinção.
Máquina sustenta a sua comparação assumindo o período 2004 — 2014 como sendo de glória para os Macuas, caracterizado por nomeações para os cargos de Governadores de província, ministros e PCAs. Conforme o autor “A peregrinação para o pódio da governação foi conhecendo um afunilar à medida do tempo tendo a travessia pelo deserto iniciado em 2015, aquando do anúncio da team para um ciclo que iniciava e se adivinhava da revolução” (p.64).
As citações aludidas mostram a frontalidade e inconformismo do autor só comparáveis com a verdade e uma equidistância própria de um intelectual que faz da crítica social um recurso mental para identificar, analisar e ajudar a vencer os obstáculos que barram o caminho à consecução de uma ordem social melhor, mais justa, mais representativa e mais racional. Aliás, se eventualmente, nesta frontalidade e inconformismo, o autor tiver manifestado uma controvérsia, ela deve ser vista mais como um contributo para um debate contínuo num Estado Republicano do que uma tentativa de ser magistral.
Parece um ritual ou uma jurisprudência, sempre que se fala ou se escreve de Nampula, sobretudo, sua cidade capital associa-se ao mítico bairro de Namicopo e Máquina não fugiu à regra. Dedicou quatro páginas numa crónica intitulada “Namicopo” para referir-se do crescimento demográfico da população daquele bairro, o medo que se tem do bairro e o facto de em todas as segundas feiras, no habitual informe de ocorrências da PRM nunca ter faltado mencionar indivíduos daquele bairro.
Sem pretensão de recorrer a teoria malthusiana de Thomas Robert Malthus ou as técnicas de despovoamento de Adolfo Hitler, o autor convida a sociedade a reflectir sobre aquela unidade residencial e propõe mesmo a realização de um estudo pormenorizado sobre os comportamentos, origens e visões para determinar até que ponto, passo a citar “Namicopo é de outro nível” (p. 88)
O olhar crítico com a descrição assertiva dos factos e, opinativo sempre que oportuno, permite que a obra se refira particularmente a nomes de pessoas que têm uma ligação umbilical com Nampula. Fala de pessoas uma a uma e até pergunta o seu paradeiro. Algumas aqui presentes, outras ausentes e outras ainda, numa viagem que nunca ninguém foi e regressou, sem guias, nem conselhos na internet que descrevam com precisão com que se parece o destino, ou do que se necessita exactamente quando lá se chega, mas uma coisa é certa, os bilhetes são só de ida.
Figuras como Felismino Tocoli, Alberto Vaquina, Zacarias Ivala, Filipe Paunde, Rosário Mueleia, Luciano André de Castro, Maria Helena Taipo, Eduardo da Silva Nihia, Afonso Dlakama, Mahamudo Amurane, Aiuba Cuereneia, Jorge Kalau e tantos outros são citados ou apontados nas metamorfoses da terra. Comprem o livro agora e saibam mais das revelações do autor sobre essas figuras.
Uma nota especial para o autor, vivemos numa sociedade de pessoas que anseiam a verdade, mas que odeiam ou ofendem aquelas que a dizem. O caminho das pessoas que dizem a verdade foi sempre difícil se não vejamos: As escrituras Bíblicas dizem que Jesus Cristo veio à terra salvar a humanidade e morreu crucificado, Galileu Galilei, físico, matemático, astrónomo e filósofo natural ficou cerca de 9 anos de prisão domiciliária até a sua morte por ter afirmado que a terra girava em volta do sol, Ignoz Semmelweis, médico húngaro foi preso, espancado, considerado louco e trancado, morreu 14 dias depois de ser encarcerado por ter defendido que os cirurgiões deviam lavar as mãos antes de operar os doentes para não os infectar. Esses são factos, não narrativas e muito menos patranhas.
Caro Máquina, quem a visa amigo é, prepare-se para enfrentar as reacções dos «Mahindras das redes sociais» dirigidos por narcisistas e petas que censuram as liberdades individuais e arregimentam o politicamente correcto.
Aceitem que eu faça a seguinte pergunta: O que doravante mudará o livro do Máquina na fórmula de representatividade na nossa política nacional? A resposta é seguinte: Numa praia tranquila morava um escritor. Todas as manhãs passeava pela areia, olhando as ondas. Assim se inspirava, e à tarde sentava na varanda da sua casa e escrevia os seus textos. Num dia muito quente, viu um jovem que parecia estar a dançar, decidiu aproximá-lo e perguntar: oh jovem! o que estás a dançar? Ele respondeu prontamente: estou a jogar as estrelas-do-mar ao oceano, elas estão desidratadas. O escritor retorquiu: existem centenas de milhares de estrelas-do-mar espalhadas por todas essas praias, trazidas pelas ondas. Que diferença faz? O jovem inclinou-se, pegou uma estrela-do-mar, lançou ao oceano e disse: Para está, eu fiz diferença.
A chave deste livro abre uma porta pela qual eu gosto de entrar: precisamente a de formação da consciência colectiva partindo da diferença na diversidade que permite a transmissão de valores, de integração social dos novos membros da comunidade bem como a divulgação de regras de ética e de reprovação de comportamentos inapropriados para uma sociedade sadia.
Por todas estas razões, considero enfaticamente que este é um livro admirável, necessário, oportuno, de leitura obrigatória e inspirador para todos aqueles que promovem a prática da cidadania como hábito quotidiano e buscam consensos para a reconciliação e pacificação da família Moçambicana. Por isso, recomendo a sua leitura com a certeza de que ele não apenas narra vivências, mas sim desperta consciência. E mais do que isso, convoca-nos a reflectir sobre o nosso propósito neste planeta terra.
As estatísticas mostram que menos de dez porcento das pessoas que compram um livro passam do primeiro capítulo. Desafio a todos a fazerem o que quer que seja para lerem este livro de ponta à ponta antes de chegar a quaisquer conclusões definitivas. Claro que o autor ficará deveras grato por qualquer crítica.
A terminar, da leitura que fiz deste livro posso afirmar seguramente que disse tudo o que sei e sei tudo o que disse.
Parabéns, Máquina, pelos ensinamentos e pela arrogância.