Mariza, a mulher que decidiu pensar em voz alta num país habituado ao silêncio

Texto: Caetano Melhor

Há um fenómeno curioso na sociedade moçambicana: admiramos a coragem, mas raramente perdoamos quem a exerce. Aplaudimos conceitos como liberdade de expressão, transparência e responsabilidade social. Contudo, quando surge alguém disposto a transformar esses conceitos em práticas diárias, procuramos mil razões para o desacreditar.

É neste contexto que se pode compreender a figura da Dra. Mariza, das “Conversas Saudáveis”. Confesso que, durante meses, venho acompanhando as suas publicações nas redes sociais, não pela ausência de controvérsia nas suas intervenções, mas sim pela frontalidade, determinação, responsabilidade e coragem.

Escrevo este texto movido pela admiração por esta mulher, uma verdadeira influencer digital na qual os tais ditos influencers deveriam inspirar-se, mulher tida como incómoda para muitos, enquanto tantos procuram palavras suaves para não ferir sensibilidades, Mariza recusa-se a fazer maquilhagem das palavras. Escolheu o desconfortável hábito de não fazer bocacure, pois opta pela autenticidade, mesmo quando sabe que isso lhe custará simpatias.

Não a conheço pessoalmente, muito menos partilhamos os mesmos salões de beleza, onde ela se recusa a fazer make-up das suas Conversas Saudáveis. Há quem considere as suas intervenções ousadas, teimosas ou desrespeitosas. Eu prefiro chamá-la de mulher com compromisso.

Porque é preciso compromisso para defender ideias num tempo em que muitos preferem observar os problemas através da janela. É preciso compromisso para manter uma posição quando o caminho mais fácil seria optar pelo conformismo. É preciso compromisso para continuar a questionar quando muitos normalizam o escovismo como se de profissão se tratasse. Mulher que compreendeu que o verdadeiro papel do pensamento crítico não é acariciar consciências, mas despertá-las.

A grande força desta mulher das Conversas Saudáveis não reside apenas nas palavras “Ora Viva”, reside na coerência com que sustenta as suas intervenções. Porque criticar quando todos concordam é fácil, difícil é manter a mesma postura quando surgem campanhas de difamação e julgamentos sumários nas redes sociais, expondo a vida privada como forma de fragilizá-la.

Custa-me assistir a este espetáculo permanente de críticas destrutivas, de pessimismo e de desvalorização desta mulher sem gordura na mente, que se recusa a aceitar que os problemas devem ser ignorados para preservar aparências. Mariza tornou-se alvo porque se recusa a ser cúmplice deste silêncio ensurdecedor.

A luta diária desta mulher não é apenas uma luta pessoal, é uma luta pela valorização da cidadania, é uma luta pela transparência, uma luta pelo direito de questionar sem medo de ser silenciada. É uma luta pela construção de um Moçambique onde as perguntas sejam respondidas com argumentos e não com ataques, muito menos com armas. Talvez seja exatamente por isso que as “Conversas Saudáveis” sejam tão incómodas.

Mariza percebeu que um país não avança graças aos que se limitam a aplaudir, mas sim graças aos que têm a coragem de questionar sem medo.

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