A historiadora da arte e museóloga Alda Costa descreveu Ídasse Tembe como um dos artistas da geração que se afirmou nos primeiros anos após a Independência de Moçambique, destacando o percurso de um criador que procurou construir a sua própria linguagem artística sem se deixar limitar por influências externas.
Num texto dedicado ao artista plástico, Alda Costa recorda que Ídasse Tembe nasceu em 1955 e teve a sua formação inicial na escola, seguindo-se o aconselhamento e acompanhamento do artista Inácio Matsinhe, que vivia em Moçambique naquele período.
A sua entrada no circuito das artes aconteceu em 1977, quando participou pela primeira vez numa exposição colectiva. A partir daí, seguiram-se diversas exposições e experiências em diferentes linguagens, numa trajectória marcada pela procura constante de novas formas de expressão.
Segundo Alda Costa, a pintura foi o primeiro interesse de Ídasse, mas rapidamente o artista descobriu a necessidade de experimentar outros meios, passando pela ilustração, gravura e desenho, antes de se dedicar também à escultura.
Em 1986, realizou a sua primeira exposição individual, na sede da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO). O desenho, contudo, permaneceu como um dos centros da sua produção artística. Era nele, escreve Alda Costa, que Ídasse se sentia particularmente à vontade, chegando a afirmar que desenhava com a mesma intensidade com que pintava.
Mas havia no percurso de Ídasse uma dimensão que ultrapassava a técnica artística. Para o próprio artista, pertencer à geração que se afirmou depois da Independência significava carregar uma consciência histórica particular.
Alda Costa recupera uma das ideias mais fortes defendidas por Ídasse: ele considerava-se parte de uma geração diferente “pelo facto de ser de homens livres”. O artista entendia que pertencia a uma geração consciente e que o fruto do seu trabalho deveria demonstrar que “os netos dos escravos eram homens livres”.
A afirmação ajuda a compreender a dimensão que Ídasse atribuía à criação artística. A arte não era apenas um exercício estético, mas também uma forma de afirmação, memória e construção de identidade num país que acabava de conquistar a Independência.
Ainda segundo Alda Costa, Ídasse queria continuar a estudar e aceitava os ensinamentos e estímulos proporcionados por outros artistas, mas não queria ser influenciado. Procurava conhecer mais artistas africanos e aprofundar o contacto com artistas internacionais, num processo que definia como uma procura de se “descobrir na arte e ir amadurecendo com a prática”.
Foi nesse caminho que, para Alda Costa, se consolidou o artista que viria a ser reconhecido pelo desenho e pela pintura, mas que também encontrou na escultura outro território de experimentação.
Ídasse trabalhou diferentes materiais, entre eles bronze, ferro, mármore e madeira, mantendo-se disponível para abraçar novos projectos, individualmente ou em colaboração com outros artistas.
Na leitura de Alda Costa, a trajectória de Ídasse também se inscreve numa tendência mais ampla da geração artística que surgiu no Moçambique pós-Independência: a procura de referências africanas combinada com a abertura à arte internacional.
Era desse cruzamento entre referências, experiências e procura de uma linguagem própria que emergiam práticas artísticas individualizadas.
É neste contexto que a morte de Ídasse Tembe ganha uma dimensão que ultrapassa a perda de um artista. O seu percurso, tal como recuperado por Alda Costa, representa também uma parte da história da arte moçambicana construída depois da Independência, marcada pela experimentação, procura de identidade e pela afirmação de uma geração que queria provar, através da criação, que a liberdade também podia ser desenhada, pintada e esculpida.