
“Sê sempre honesto, não neutro”: Amanpour deixa a CNN após 43 anos
Jornalista encerra uma carreira marcada pela cobertura de guerras e conflitos internacionais, defendendo um jornalismo comprometido com os factos, a verdade e a humanidade.
Christiane Amanpour, uma das jornalistas internacionais mais reconhecidas da CNN, prepara-se para deixar a televisão em 2027, após 43 anos de carreira na estação norte-americana. Na despedida, deixa uma mensagem que resume a sua visão do jornalismo: “Sê sempre honesto, não neutro”.
Aos 68 anos, a jornalista vai reduzir o seu programa diário, Amanpour, na CNN International, para uma emissão semanal no início de 2027. O programa terminará em Maio, seguindo-se a sua saída da televisão no mês seguinte. O seu espaço na PBS, Amanpour & Co., também será encerrado no final deste ano.
A decisão foi anunciada pela própria jornalista, que descreveu a CNN como sua parceira durante “43 anos fantásticos” e afirmou estar preparada para novos projectos. Amanpour não apresentou uma razão específica para a saída, que coincide com uma nova fase na estrutura empresarial da estação, na sequência da aquisição da Warner Bros. Discovery pela Paramount, controlada pela Skydance.
Da assistente à linha da frente
Amanpour entrou na CNN, em Atlanta, em 1983, como assistente. Segundo o director executivo da estação, Mark Thompson, nem todos reconheciam, na altura, o potencial da jovem jornalista para se tornar correspondente internacional.
Sete anos depois, já exercia essa função. A cobertura da Guerra do Golfo, no início da década de 1990, projectou-a internacionalmente, seguindo-se reportagens sobre os conflitos na Bósnia, no Ruanda, no Afeganistão e, mais recentemente, na Ucrânia e no Irão.
Para Amanpour, a cobertura de guerras representa um sentido de missão: contar histórias, apresentar factos e levar ao público realidades que nem sempre são fáceis de compreender.
A jornalista também rejeitou a ideia de que as audiências norte-americanas não estariam preparadas para acompanhar assuntos internacionais complexos. Em entrevista à Associated Press, em 2023, afirmou nunca ter falado de forma condescendente com o público nem acreditado que este estivesse interessado apenas no que acontece dentro das suas fronteiras.
Honestidade acima da falsa neutralidade
A frase escolhida para marcar a despedida levanta uma questão central para a profissão: ser imparcial significa manter distância entre a verdade e a mentira?
A posição de Amanpour aponta para uma distinção entre neutralidade e honestidade. O jornalista deve procurar os factos, verificar as provas e dar espaço às diferentes perspectivas, mas não precisa de tratar afirmações comprovadamente falsas e factos demonstrados como se tivessem o mesmo valor.
Na mensagem de despedida, a jornalista agradeceu às equipas com quem trabalhou ao longo de décadas, destacando o esforço colectivo de procurar “os factos, as provas e a humanidade” e de transmitir a verdade sem medo nem favoritismos.
De origem iraniana e britânica, Amanpour considera que a sua formação lhe permitiu olhar para o mundo a partir de perspectivas distintas. Ao longo da carreira, defendeu também a redução das divisões entre sociedades, num contexto internacional marcado por conflitos e polarização.
Apesar de deixar a televisão, continuará com o podcast The Ex Files, que apresenta com o antigo marido, Jamie Rubin, ex-diplomata norte-americano.
Amanpour encerra, assim, um dos capítulos mais longos da sua vida profissional, deixando uma mensagem que ultrapassa a sua despedida da CNN: a obrigação do jornalista não é agradar a todos nem fabricar equilíbrios artificiais, mas procurar a verdade e responder perante os factos.