
Perdeu a vida o mestre Kumalemo, artista plástico que passou a vida a documentar Zambézia
Aos 80 anos, segundo registo oficial que aponta para 25 de Outubro de 1946, morreu em Quelimane um dos nomes mais antigos e reconhecidos das artes visuais da Zambézia. Ao longo de décadas, Aly Ismael Sumal, artisticamente conhecido por Kumalemo, transformou telas e fotografias em testemunhos da vida, da mulher, do sofrimento humano e das mudanças da sociedade.
O mundo das artes na Zambézia perdeu uma das suas referências históricas. O mestre Aly Ismael Sumal, conhecido artisticamente por Kumalemo, morreu na noite de sábado, por volta das 22 horas, no Hospital Central de Quelimane, segundo confirmação obtida pela Lupa News junto de artistas e amigos próximos do artista.
A notícia encontrou o meio artístico zambeziano entre a consternação e a evocação de uma carreira que atravessou gerações.
O artista plástico José Norberto, ao reagir à morte de Kumalemo, descreveu-o como um fenómeno artístico que se afirmou desde os primeiros anos da sua trajectória e que acabaria por se tornar uma das grandes referências da sua geração, com exposições e circulação da sua obra dentro e fora de Moçambique.
Para Norberto, a importância de Kumalemo, porém, não cabe apenas na geração a que pertenceu.
“É a maior referência da geração dele. Mas não só. É referência para todas as gerações”, recordou o artista, sublinhando a capacidade de Kumalemo de permanecer ligado a diferentes momentos da história das artes plásticas na Zambézia.
Essa longevidade talvez seja uma das melhores formas de compreender quem foi Kumalemo.
Um artista que nasceu cedo para a arte
Os registos disponíveis colocam Kumalemo entre os artistas que começaram a desenhar e a expor ainda muito jovens.
Uma antiga publicação do Conselho Municipal de Quelimane refere que, em 1962, o jovem Aly Ismael Sumal desenhou o retrato do capitão da fragata Daniel Rocha. No mesmo ano, chegou à Zambézia o artista plástico angolano Albano Neves de Sousa, de quem Kumalemo se tornou o primeiro aluno na província.
Foi também em 1962 que realizou a sua primeira exposição nos Paços do Conselho Municipal de Quelimane, segundo uma retrospectiva publicada em 2017. Essa mesma fonte assinalava então 55 anos de carreira e registava exposições em Portugal, Espanha, Cuba e Estados Unidos da América.
José Norberto recorda, contudo, um período ainda mais antigo da formação e afirma que Kumalemo era já associado ao movimento artístico que existia na região antes de muitos dos artistas que viriam depois.
Segundo a sua memória, havia então um núcleo de artistas mais velhos, organizado, no qual Kumalemo também se encontrava inserido. Norberto admite não conseguir precisar todos os locais de formação frequentados pelo mestre, mas recorda as conversas em que Kumalemo falava da sua aprendizagem e da formação artística recebida.
É uma memória que ajuda a perceber que, muito antes de ser reconhecido como mestre, Kumalemo foi também aprendiz.
Entre a pintura e a vida
Mais do que reproduzir paisagens ou produzir arte pela arte, Kumalemo encontrou na sociedade a sua matéria-prima.
Uma exposição realizada em Quelimane em 2012 reuniu mais de 50 obras, nas quais o artista procurava representar diferentes dimensões da realidade dos cidadãos. Entre os temas recorrentes estavam a mulher no seu quotidiano, o sofrimento humano e os acontecimentos da sociedade.
Anos mais tarde, ao falar sobre a sua carreira, o próprio Kumalemo identificaria a vida quotidiana da sociedade, particularmente a juventude, como uma das suas principais fontes de inspiração.
É nesse ponto que a sua obra ganha uma dimensão documental.
Kumalemo não passou décadas apenas a pintar pessoas, também as observava.
A sua tela tornou-se, assim, uma espécie de arquivo social. Rostos, comportamentos, sofrimento, relações humanas, mulheres, jovens e acontecimentos da comunidade passaram pelo seu olhar e foram transformados em imagem.
Numa província cuja memória cultural nem sempre foi suficientemente preservada em arquivos institucionais, a obra de artistas como Kumalemo assume uma importância que ultrapassa o mercado da arte, passou a ser também memória.
O fotógrafo que olhava através da câmara
A trajectória de Kumalemo não ficou confinada à pintura. A fotografia acompanhou a sua carreira e fez parte da identidade artística que construiu ao longo de décadas. Em 2017, uma exposição intitulada “Arte em Movimento”, realizada em Quelimane pela Universidade Politécnica, marcou os seus 55 anos de carreira nas artes plásticas e fotografia.
A fotografia acrescentava outra possibilidade ao seu olhar.
Se a pintura lhe permitia interpretar a realidade, a fotografia permitia-lhe fixar instantes.
Foi essa combinação – o pincel e a câmara – que tornou a sua relação com a sociedade particularmente singular.
Da Zambézia para o mundo
A obra de Kumalemo não ficou confinada a Quelimane.
Em 2017, algumas das suas obras integraram uma exposição colectiva de artistas moçambicanos na Galeria Orígenes, no Gran Teatro de Havana, em Cuba, ao lado de trabalhos de dezenas de artistas nacionais. As obras apresentadas tinham como uma das linhas temáticas o quotidiano das pessoas.
No mesmo ano, Kumalemo integrou também a exposição anual MUSART 2017, realizada no Museu Nacional de Arte, em Maputo, ao lado de nomes como Malangatana, Reinata Sadimba, Makamo, Norberto e outros artistas de referência das artes visuais moçambicanas.
A sua presença nesses espaços mostra que a carreira construída em Quelimane conseguiu ultrapassar as fronteiras da própria província.
Mas talvez seja precisamente em Quelimane que a sua obra tenha encontrado o seu significado mais profundo.
A galeria e o sonho de deixar discípulos
Kumalemo não quis que o seu percurso terminasse nas suas próprias obras.
Em 2007, abriu uma Galeria de Arte, descrita pelo Conselho Municipal de Quelimane como um espaço destinado a marcar as artes plásticas na Zambézia e aberto à comunidade.
Dez anos depois, durante a homenagem pelos seus 55 anos de carreira, revelou outro sonho: criar uma escola onde pudesse transmitir os seus conhecimentos aos mais jovens e deixar um legado para as novas gerações.
A ideia é importante porque revela uma preocupação que ultrapassava o próprio artista.
Kumalemo não queria apenas produzir obras.
Queria produzir continuidade.
José Norberto recupera justamente essa dimensão colectiva da sua personalidade. Na sua memória, Kumalemo era uma espécie de ponto de ligação entre gerações de artistas que foram surgindo, desaparecendo ou seguindo caminhos diferentes.
“Ele é o elo de ligação”, recorda Norberto.
E talvez essa seja uma das definições mais fortes para compreender a sua importância.
Uma vida entre gerações
A história de Kumalemo atravessou diferentes Moçambiques.
Começou a desenhar no período colonial, atravessou a independência, viu nascer e desaparecer diferentes movimentos culturais, acompanhou transformações sociais profundas e continuou a trabalhar quando muitos dos artistas da sua geração já tinham abandonado a actividade.
É essa permanência que José Norberto destaca ao recordar os artistas que faziam parte daquele núcleo de arte de outros tempos.
Alguns desapareceram. Outros mudaram de profissão. Outros deixaram de produzir.
Kumalemo continuou. E continuou em Quelimane.
O diagnóstico do Município de Quelimane regista Aly Ismael Sumal, nascido em 25 de Outubro de 1946, associado à área de Comunicação e Imagem. Há, contudo, fontes jornalísticas anteriores que apontam para 5 de Setembro de 1943 como data de nascimento, razão pela qual a idade exacta à morte deve ser tratada com cautela até confirmação documental da família.
O que não parece suscitar dúvidas é a longevidade da sua carreira.
Em 2017, quando era homenageado, já carregava 55 anos de actividade artística documentada.