Jornalismo ao pormenor

Kumallemo morre aos 79 anos depois de seis décadas nas artes

Um clarão que “ninguém viu” antes de “extinguir-se”

Kumallemo morreu na noite de sábado, 26 de Setembro, no Hospital Central de Quelimane, aos 79 anos. O artista plástico e fotógrafo zambeziano, cujo percurso profissional começou na década de 1960, deixa uma obra construída ao longo de mais de seis décadas, com passagem por exposições em Moçambique e no estrangeiro.

A notícia da morte foi confirmada por artistas e pessoas próximas do Mestre Kumallemo, que nos últimos anos mantinha em Quelimane uma Casa-Museu dedicada à preservação e divulgação da sua obra.

Natural de Moxoro, no Posto Administrativo de Maquival, Zambézia, Ali Ismael Sumal, artisticamente conhecido por Kumallemo, nasceu a 5 de Outubro de 1946 e iniciou o contacto com as artes ainda jovem. Em 1962, tornou-se aluno do artista angolano Albano Neves e Sousa, num período que marcou o início da sua formação artística mais sistemática.

A partir daí, construiu uma carreira que incluiu pintura, fotografia, ensino e participação em exposições nacionais e internacionais. A sua obra chegou a Cuba, Estados Unidos da América, Espanha, Zimbabwe e Dinamarca, enquanto em Moçambique expôs em várias províncias e manteve uma ligação permanente à Zambézia.

Para o artista José Norberto, Kumallemo foi uma referência para diferentes gerações da arte zambeziana. Norberto descreve-o como “um fenómeno artístico” e destaca o seu papel na ligação entre diferentes momentos e gerações da produção artística da província.

 

Do desenho escolar à formação artística

Kumallemo iniciou os estudos em 1953, em Mathewe, no distrito de Lugela. Mais tarde continuou a formação em Quelimane, nas missões de Nossa Senhora do Livramento e da Sagrada Família, onde teve contacto com o professor Armando João Valdez.

O primeiro momento decisivo da sua relação profissional com as artes ocorreu em 1962. O tio, José Fijamo, levou-o para Quelimane, onde recebeu a missão de desenhar o retrato do então governador do distrito, Capitão de Fragata Daniel Rocheta.

O trabalho impressionou o governador, que lhe atribuiu uma mensalidade e o colocou nos Serviços Geográficos e Cadastrais, enquanto frequentava um curso de dactilografia.

Ainda nesse ano, a chegada à Zambézia do artista angolano Albano Neves e Sousa abriu uma nova etapa na sua formação. Kumallemo tornou-se o primeiro aluno de Neves e Sousa na província, passando a desenvolver o desenho e a pintura com acompanhamento artístico mais estruturado.

 

Serviço militar e circulação por Moçambique

Em 1967, Kumallemo foi incorporado no Serviço Militar Obrigatório. Depois de prestar juramento à bandeira no Centro de Infantaria de Nampula, passou por Belém, onde realizou trabalhos de pintura na Sala do Soldado.

A passagem pelas Forças Armadas também lhe proporcionou novos contactos com artistas. Em 1969 foi transferido para a Ilha de Xefina, então integrada em Lourenço Marques, actual Maputo, onde contactou com nomes como Frederico Ayres, João Ayres, Agostinho Muthemba e Inácio Matsinhe.

No ano seguinte esteve em Cabo Delgado, no distrito de Meluco, onde conheceu o artista Amaral Russo. Depois de passar à disponibilidade, regressou a Maputo e trabalhou na Casa Banquinho, ligada ao circuito das artes.

 

A primeira exposição individual

Em 1972, Kumallemo apresentou a sua primeira exposição individual, no Paços do Conselho Municipal de Quelimane. A mostra recebeu o título “O Limiar Dum Artista Zambeziano”.

Dois anos depois participou na Feira das Actividades Económicas, onde apresentou 25 obras e recebeu uma Medalha de Prata pelo trabalho desenvolvido ao nível da cor, luz e movimento.

Foi nesse período que o crítico de arte Heliodoro da Silva Dantas deixou uma das referências mais conhecidas sobre a sua pintura, afirmando que “os quadros de Kumallemo são como um clarão de luz que ilumina tudo, antes de extinguir-se”.

A expressão ganharia nova dimensão décadas depois, com a morte do artista.

 

Arte e independência

Em 1975, ano da independência de Moçambique, Kumallemo participou na pintura de um painel na Casa da Cultura e esteve ligado à criação de uma escola de arte associada à instituição.

No ano seguinte pintou um retrato do Presidente Samora Moisés Machel. Também enviou obras para Cuba, onde participaram numa exposição colectiva realizada na Ilha da Juventude.

Em 1978, trabalhos seus chegaram aos Estados Unidos da América, através do então embaixador plenipotenciário Carlos Lobo e do engenheiro Klint.

 

Professor e artista

A partir do final da década de 1970, Kumallemo combinou a actividade artística com o trabalho e o ensino.

Em 1979 passou pelos Serviços Municipalizados de Água e Electricidade e colaborou com o engenheiro Ivo Alberto. Posteriormente foi colocado na Escola Industrial e Comercial D. Francisco Barreto, em Quelimane, como professor de Desenho.

A actividade docente passou a constituir uma componente importante do seu percurso, numa fase em que continuava a participar em exposições e iniciativas culturais.

Em 1980 expôs colectivamente com o artista Che Bakar. No ano seguinte, juntamente com Malangatana e Naguib, participou na pintura de um mural da Feira-Exposição do Niassa.

Em 1982 representou o Niassa numa retrospectiva de Malangatana e acompanhou a primeira exposição de Naguib, num momento de introdução da serigrafia no circuito artístico moçambicano.

No ano seguinte apresentou uma exposição no Museu Etnográfico de Nampula, inaugurada durante a visita do governador de Macau.

 

Do circuito nacional ao internacional

A década de 1990 ampliou a circulação da obra de Kumallemo.

Em 1992 expôs no Zimbabwe, por ocasião do Dia da Arte Tradicional. Dois anos depois apresentou trabalhos na Casa da Cultura da Beira, numa exposição alusiva ao Dia Mundial de Luta contra a SIDA, inaugurada pelo então Presidente da República, Joaquim Alberto Chissano.

Em 1995 expôs em Chimoio, por ocasião do Dia da Cidade, e passou posteriormente pelo Núcleo de Arte, em Maputo, e pelo Xiphefo, em Inhambane.

No ano seguinte integrou uma exposição com artistas africanos em Elsinkia, Copenhaga, na Dinamarca, no âmbito do Dia da Arte Africana.

Seguiram-se a exposição colectiva da TDM, em 1998, na Fortaleza de Maputo, e uma exposição individual no Núcleo de Arte, em 1999. Nesse mesmo ano realizou trabalhos de pintura mural na Pensão Gurué, na Zambézia.

Em 2000 participou numa exposição permanente na Pizzaria da Estação e enviou posteriormente obras para Espanha.

 

Galeria e Casa-Museu

Em 2004, Kumallemo assinalou 40 anos de carreira profissional com uma exposição na Casa da Cultura.

Em 2007 abriu uma galeria de arte na Zambézia, iniciativa que passou a concentrar parte da sua actividade de promoção e apresentação de obras de artistas.

Nos anos seguintes manteve a actividade expositiva em Quelimane. Em 2009 apresentou trabalhos na Galeria Murrima wa Zambézia e, em 2011, realizou uma exposição na Piscina de Quelimane.

Em 2015 voltou ao Paços do Conselho Municipal de Quelimane para uma exposição conjunta com o artista Gemusse.

A sua Casa-Museu recebeu, em 21 de Fevereiro de 2016, a visita do então Ministro da Cultura e Turismo, num reconhecimento institucional da actividade desenvolvida pelo artista.

 

O último capítulo

Kumallemo morreu aos 79 anos, cerca de seis décadas depois de ter iniciado o percurso que o levaria dos primeiros desenhos em Quelimane aos circuitos artísticos nacionais e internacionais.

A sua morte foi comunicada no sábado à noite e gerou reacções entre artistas e figuras ligadas à cultura na Zambézia.

Numa nota do Gabinete do Administrador do Governo do Distrito de Quelimane, Kumallemo é apresentado como uma expressão de criatividade e identidade cultural, sendo destacada a sua contribuição para as artes plásticas e para o património cultural da região.

O funeral realiza-se esta segunda-feira, 28 de Setembro. A concentração está marcada para as 7h00, no Salão Nobre do Conselho Autárquico da Cidade de Quelimane. O cortejo deverá partir às 8h30 em direcção ao Cemitério Islâmico do Benedito, onde terá lugar o sepultamento.

Kumallemo deixa uma obra construída ao longo de diferentes gerações, mas também uma trajectória que ajuda a contar a própria história das artes plásticas na Zambézia e em Moçambique.

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