
Hoje fiquei duuuuuummm… a pensar. Na comunidade de onde venho, havia uma maneira simples, simplificada, transparente, confiável e credível de resolver os problemas. Era o secretário do bairro quem resolvia os problemas dos quarteirões.
E o secretário do bairro tinha os seus ajudantes: uma espécie de vice-juízes. Os vice-juízes eram membros de elevada idoneidade, escolhidos praticamente por unanimidade pelos residentes, em reuniões gerais. Geralmente eram pessoas mais velhas, com muita experiência de vida e elevada reputação.
Eram eles que assessoravam o secretário do bairro, que desempenhava, nesses casos, o papel de juiz num julgamento comunitário.
Ali, entre a antiga Discoteca Zanco e a antiga fábrica da Sococo, em Quelimane, havia um quarteirão em que o juiz era o senhor Fernando, assessorado pelos velhos (velho no sentido positivo da palavra) Gabriel, Umberto e outros, numa estrutura que também incluía jovens como Tentino e outros, encarregados de entregar mensagens aos visados ou de intervir, com recurso à força, em casos de brigas durante as sessões.
Eram julgamentos abertos ao público. Qualquer pessoa podia acompanhar e normalmente começavam às 14h00 dos sábados.
Cada um levava a sua cadeira, o seu banco, o seu nigudango – pau de macubar-folha de palmar -ou, simplesmente, sentava-se numa raiz qualquer, ao longo do tronco de uma árvore, ou no chão.
O essencial eram os julgamentos públicos. Não havia medo da retórica dos réus, nem receio do descontentamento dos residentes. Não havia precauções, nem o medo de que o bairro ou o quarteirão estivesse em causa.
Os julgamentos comunitários eram uma espécie de extensão do quarteirão e do bairro. Havia ética, princípios, confiança, respeito, pertença. Aquelas salas à céu aberto eram também uma extensão da escola. E ninguém tinha medo de que os moradores soubessem mais ou menos.
Foi nesses julgamentos, por exemplo, que comecei a ouvir certos provérbios locais que o velho Gabriel e outros anciãos partilhavam para amainar os ânimos ou ajudar a reflectir sobre determinado ponto.
Uma vez, o velho Gabriel, intervindo, avançou: “Gudugudu waigua va murathony, pole pole ba vira.” Tradução simples: “O apressado caiu na ponte, o cauteloso passou.”
O velho que carregava um grande hidrocelo até etre os joelhos não parava com a sua sabedoria chuabo nos momentos de conter os ânimos. Sempre mandava vir uma: “Maruru kampa nhama.” Tradução: “A pressa não mata a caça.”
Esses provérbios, o saber local, aquela estrutura simples e funcional, os valores e tudo mais continuam, de certo modo, uma escola.
E fico a pensar: O que dirão e serão amanhã as crianças de hoje? Olho para o julgamento de Venâncio Mondlane com alguma perplexidade.
Um julgamento que, pela sua própria natureza, deveria ser encarado também como uma escola, um momento de aprendizagem colectiva, é agora assumido como elemento regulador do nível de crise.
Não há duvida: Somos uma sociedade de crise. Andamos de crise em crise. Nas redes sociais, muitos doutores escrevem sobre a cobertura jornalística do julgamento, numa complexidade de ideias que, às vezes, parece não ter fim.
Os sete pontos de sabedoria para transmitir o julgamento transformaram-se agora em cinco ou sete pecados para não o transmitir. Ou, se for transmitido, há o receio de que pequenos recortes, transformados em postais para as redes sociais, possam incendiar o país. E eu não consigo deixar de pensar:
Como é que o Secretário Fernando e o velho Gabriel (um desempregado e um simples ferreiro) conseguiam ser tão assertivos, confiantes e claros? Como é que conseguiam reunir a comunidade, ouvir os problemas, discutir os conflitos e ensinar os mais novos sem medo de que o julgamento público colocasse o bairro em crise? E agora, com tantos doutores, juristas, especialistas, comunicadores, estrategas e todo arsenal de conhecimento moderno, andamos de crise em crise?
Talvez o problema não esteja apenas na quantidade de conhecimento que acumulámos. Muito provavelmente esteja naquilo que perdemos pelo caminho… naquele quarteirão de Quelimane, ninguém chamava aquilo de “gestão de crise”. Era simplesmente o bairro a resolver os seus problemas. E nós? O que é que estamos a fazer?