Jornalismo ao pormenor

El Niño ameaça água e produção agrícola em Moçambique

Previsões apontam para chuvas abaixo do normal e temperaturas acima da média entre Outubro e Dezembro, aumentando os riscos de escassez de água, perdas agrícolas e insegurança alimentar.

Moçambique prepara-se para uma época chuvosa 2026/2027 marcada por um risco acrescido de seca, calor extremo e escassez de água, na sequência do fortalecimento previsto do fenómeno El Niño nos próximos meses.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) indica que o fenómeno já está estabelecido e existe uma probabilidade próxima de 100% de que persista até Fevereiro de 2027. A organização prevê ainda que o El Niño possa atingir uma intensidade muito forte.

Na África Austral, a previsão do Fórum Regional de Previsão Climática da SADC (SARCOF-33), realizado em Agosto, aponta para maior probabilidade de precipitação abaixo do normal em grande parte de Moçambique durante Outubro, Novembro e Dezembro de 2026. A região deverá igualmente enfrentar temperaturas acima da média.

O cenário coloca no centro das preocupações a disponibilidade de água para consumo humano, agricultura, pecuária e outras actividades económicas.

As previsões apontam para possíveis reduções dos caudais dos principais rios e dos níveis de armazenamento das albufeiras, com consequências que poderão estender-se à produção de alimentos e ao abastecimento das populações.

Agricultura sob pressão

A redução das chuvas poderá afectar particularmente as actividades agrícolas dependentes da precipitação. Entre os riscos identificados estão a redução da produção e a perda de culturas, com possíveis consequências para a segurança alimentar e nutricional.

A pecuária também poderá ser afectada pela diminuição da disponibilidade de água e de pastagem. Em situações de maior pressão, famílias poderão ser obrigadas a vender animais para fazer face à falta de recursos, enquanto aumenta o risco de mortalidade do gado.

O sector da água poderá enfrentar pressão adicional à medida que as fontes disponíveis forem reduzidas. O Governo admite, por isso, a possibilidade de estabelecer prioridades no uso da água, colocando à frente o consumo humano, a saúde, a produção alimentar considerada crítica e o abeberamento do gado. Em situações de maior escassez, poderão ser aplicadas restrições graduais a utilizações consideradas de menor prioridade.

Saúde entre os riscos

Os efeitos de uma eventual escassez de água poderão também chegar à saúde pública. A redução da disponibilidade de água poderá aumentar a utilização de fontes alternativas e inseguras, elevando o risco de doenças associadas ao consumo de água contaminada. A malnutrição constitui outro risco, sobretudo para crianças e outros grupos vulneráveis, caso a redução da produção agrícola afecte a disponibilidade de alimentos.

Escolas, unidades sanitárias e outras infra-estruturas essenciais poderão igualmente enfrentar dificuldades caso ocorram interrupções ou reduções prolongadas no abastecimento de água.

Preparação começa antes dos impactos

Perante as previsões, as autoridades estão a reforçar a monitoria dos níveis das albufeiras, dos caudais dos principais rios e das águas subterrâneas, procurando detectar sinais de agravamento da situação com antecedência.

Entre as medidas previstas estão a promoção de sementes tolerantes à seca, agricultura de conservação, reforço da extensão rural e recurso à pequena irrigação onde existam fontes sustentáveis de água.

Também deverão ser preparadas medidas para garantir pontos de água para o gado e reduzir a possibilidade de perdas de animais ou de venda forçada por famílias afectadas.

A resposta deverá envolver os sectores da água, agricultura, energia, saúde, protecção social e gestão de riscos de desastres.

Apesar das previsões regionais, as autoridades alertam que as actualizações nacionais e sub-regionais poderão revelar variações entre diferentes zonas do país e alterações nas condições de curto prazo.

O apelo às comunidades e aos cidadãos é para que reforcem a preparação e utilizem racionalmente os recursos disponíveis, sobretudo a água, numa época chuvosa que poderá colocar à prova a capacidade de resposta das famílias, produtores e serviços essenciais.

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