Jornalismo ao pormenor

Conferência de Imprensa da Roupa Suja

Por Caetano Melhor

Há uma velha sabedoria popular que atravessa gerações sem precisar de um congresso, estatuto ou comissão política, “roupa suja lava-se em casa”. É uma regra simples. Quase doméstica. Não exige juristas, consultores de comunicação, politólogos nem sequer uma máquina de lavar moderna, basta uma bacia, água, sabão e alguma discrição.

Pelos vistos, há casas onde a roupa suja já não cabe no estendal, e quando não cabe, vai parar à conferência de imprensa. Foi neste curioso cenário que o Governador de Nampula, Eduardo Abdula, o conhecido Tio Salim, veio ao público reclamar de alegadas interferências na governação de Nampula e pediu aos seus camaradas que deixassem os dirigentes locais trabalhar, foi publicamente repreendido pelo chefe da Brigada Central de Assistência à província de Nampula e a posterior pelo Secretario Geral do Partido, numa intervenção perante jornalistas.

Aqui começa a curiosidade jornalística. Se roupa suja se lava em casa, por que razão a repreensão saiu para a rua? Não é uma pergunta de provocação. É uma pergunta de coerência. Porque, se o problema era doméstico, por que razão convocar as visitas para assistir à discussão familiar? Se a orientação interna do partido é que os assuntos internos sejam tratados pelos canais próprios, por que razão uma divergência que nasceu dentro de casa acabou transformada em matéria para consumo público?

É compreensível que as organizações políticas tenham mecanismos internos para resolver divergências. Aliás, é saudável que tenham. Partidos são estruturas humanas. Onde existem pessoas, existem opiniões diferentes, ambições diferentes, interpretações diferentes e, inevitavelmente divergências. O problema começa quando se estabelece uma regra para dentro de casa e, quando chega a hora de aplicá-la, escolhe-se precisamente o caminho contrário.

É como colocar uma placa na porta dizendo: “Não lavar roupa suja em público.” E depois montar um estendal na praça para lavar secar a roupa lavanda dentro de casa. A pergunta deixa de ser apenas sobre Tio Salim. Passa a ser sobre coerência institucional. Porque, se um membro do partido fala publicamente e é acusado de ter violado os canais internos, a resposta mais coerente, à primeira vista, seria utilizar precisamente esses canais internos.

Mas quando a resposta também é pública, abre-se uma questão inevitável: não estaremos a cometer, em sentido inverso, exactamente o erro que estamos a condenar? Tio Salim fala fora de casa. A direção responde fora de casa. Um expõe. O outro repreende. E ambos acabam diante do mesmo microfone. Então, afinal, quem saiu da sala de estar?

Há qualquer coisa de profundamente irónica nesta história. O problema parece ser a exposição pública. Mas a solução escolhida também passa pela exposição pública.É o tipo de paradoxo que faria Avó Torrina coçar a cabeça e perguntar: “Se não queriam que o vizinho ouvisse a discussão, por que foram discutir no quintal com megafone?”

E talvez seja justamente aí que reside o verdadeiro debate. Não estou aqui para defender Tio Salim. Nem para criticar  Filipe Paúnde e Shakil Abubakar. Não tenho procuração de nenhum dos dois. Também não sou membro da cozinha política de nenhum partido, nem tenho acesso à sala onde se guardam as chaves da casa. Sou apenas um observador.E, como observador, há uma pergunta que merece ser colocada:

Que mensagem transmite uma organização quando condena a exposição pública de divergências através de uma exposição pública da própria divergência?

Esta pergunta é mais importante do que a pessoa que falou primeiro. Porque instituições políticas não são avaliadas apenas pelas regras que escrevem. São também observadas pela forma como aplicam essas regras.

Disciplina partidária pode ser uma questão interna. Mas a forma como essa disciplina é comunicada ao público já pertence ao espaço público. E aqui mora outra contradição interessante. Se a intenção era preservar a disciplina interna, a reprimenda pública pode produzir exactamente o efeito contrário: transforma um assunto que poderia ter permanecido dentro da estrutura numa notícia, numa discussão pública e, inevitavelmente, num espetáculo político.

Aquilo que talvez pudesse ter sido resolvido numa sala pequena ganha microfones. O que poderia ter sido uma conversa entre membros transforma-se em manchete. E o que poderia morrer dentro de casa ganha vida nas redes sociais.

A política moderna tem dessas coisas. Às vezes, para apagar um incêndio, abre-se a janela. E entra vento. Há uma coisa que toda organização deveria fazer de tempos em tempos olhar para o espelho. Não para descobrir quem é bonito. Mas para descobrir se existe coerência entre aquilo que diz e aquilo que faz.

Se o princípio é “assuntos internos tratam-se internamente”, então esse princípio deveria valer tanto para quem critica como para quem responde. Caso contrário, corre-se o risco de criar uma regra com duas portas uma para os membros, outra para a direção.

E quando a regra tem duas portas, a política começa a parecer uma casa onde cada pessoa recebe uma chave diferente. É aqui que a sátira deixa de ser apenas brincadeira. Porque a sátira, quando bem aplicada, não inventa o absurdo.

Há ainda outra questão. A imprensa tem uma função importante numa sociedade democrática: informar, questionar, escrutinar e permitir que os cidadãos conheçam o que acontece na esfera pública. Mas a imprensa não deveria transformar-se numa sala de jantar onde famílias políticas resolvem conflitos domésticos diante das câmaras.

Quando uma organização decide levar uma questão interna ao espaço público, precisa compreender que deixa de controlar completamente a narrativa. Os jornalistas fazem perguntas. Os cidadãos interpretam. As redes sociais comentam. E a opinião pública começa a discutir. Depois, já não há sabão suficiente para devolver a roupa ao cesto. essa, já está pendurada no estendal nacional.

Talvez o debate não seja simplesmente: “Tio Salim estava certo ou errado ao falar?” Essa é uma questão que deve ser analisada à luz dos estatutos, das regras internas e das circunstâncias concretas. A pergunta mais interessante é: “Se falar publicamente é errado, repreender publicamente resolve o problema ou reproduz a mesma lógica?” É uma pergunta desconfortável. Mas perguntas desconfortáveis fazem parte do jornalismo. E, às vezes, é precisamente quando todos querem silêncio que uma pergunta precisa ser feita. Não para incendiar a casa. Mas para saber quem deixou o fósforo perto da cortina.

Avó Torrina, lá no Ivagalane, provavelmente não entende nada de estatutos partidários. Não conhece os regulamentos internos. Não participou de nenhuma reunião nacional. Nunca foi chamada para uma conferência de imprensa. Mas conhece uma coisa que muitos políticos parecem esquecer: quando duas pessoas discutem dentro de casa, o vizinho não precisa saber quem lavou a panela.

E, se decidirem chamar o vizinho para assistir, depois não podem reclamar quando ele perguntar por que a panela estava suja. Talvez seja isso que esteja a acontecer. Tio Salim falou. A direção respondeu. A imprensa registou. O público ouviu.

E agora todos estamos a discutir uma questão que, segundo o próprio princípio defendido, talvez devesse ter permanecido dentro de casa. No fim, resta uma pergunta simples, quase doméstica. Se a roupa suja deve ser lavada em casa, por que razão a máquina de lavar foi instalada na conferência de imprensa?

Talvez seja hora de voltar à bacia. Fechar a porta. Conversar. E, sobretudo, decidir se os princípios são realmente princípios ou apenas regras que funcionam quando convém. Porque na política, tal como na vida doméstica, há uma diferença enorme entre ter regras para a casa e cumpri-las quando ninguém está a olhar.

E Avó Torrina, antes de voltar ao seu mucubi, provavelmente deixaria apenas um último conselho: “Meu neto, quem não quer vizinho a ver a roupa suja, não deve estendê-la na praça.”

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